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Economista do governo alerta: Bolsa Família cresceu além do esperado

André Esteves, do BTG Pactual, afirmou que o Bolsa Família “cresceu demais”, criticou o reajuste real do salário mínimo e defendeu juros menores e ajuste fiscal de 2% do PIB.

Bruna MachadoPor Bruna Machado8 min de leitura
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O banqueiro André Esteves, fundador e chairman do BTG Pactual, afirmou nesta segunda-feira (10 de novembro de 2025) que, embora apoie a existência do Bolsa Família, o programa social “cresceu demais” e se tornou maior que o de países desenvolvidos.

As declarações foram feitas durante um painel no Milken Institute, um dos mais importantes fóruns internacionais de economia e finanças, realizado em São Paulo.

Segundo o executivo, o Brasil precisa repensar o tamanho de sua rede de proteção social, especialmente diante do atual cenário de escassez de mão de obra e de pressões fiscais crescentes.

“Sou um defensor do Bolsa Família desde a sua concepção. Acho muito importante um país como o Brasil ter uma rede de proteção social. Acho uma ideia brilhante, só que foi crescendo, crescendo, se espalhando. A gente ficou com uma rede de proteção social maior do que a da França, da Noruega, da Suécia”, afirmou Esteves. “Não me parece compatível, ainda mais com um cenário de falta de mão-de-obra.”

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Críticas ao tamanho da rede de proteção social

Bolsa Família “maior do que o necessário”, segundo o banqueiro

Para André Esteves, a política social brasileira se tornou excessivamente ampla e pouco focalizada. Ele reconheceu a importância do Bolsa Família como um instrumento essencial de combate à pobreza e à desigualdade, mas apontou que o programa, nas condições atuais, ultrapassa o equilíbrio fiscal e produtivo do país.

Nos últimos anos, o governo ampliou o valor mínimo do benefício para R$ 600 por família, além de incluir adicionais de R$ 150 por criança até 6 anos e R$ 50 por gestante e adolescente. O programa passou a atingir mais de 19 milhões de famílias em 2025, o maior número desde a sua criação em 2003.

Esteves argumentou que, embora o impacto social seja positivo, o custo fiscal crescente cria desequilíbrio orçamentário e reduz incentivos à inserção no mercado de trabalho, especialmente em setores com demanda crescente por mão de obra.


Críticas ao reajuste real do salário mínimo

“Nem a Europa dá aumento de produtividade a quem não trabalha”, diz Esteves

Outro ponto abordado pelo banqueiro foi a política de reajuste real do salário mínimo, que garante aumentos acima da inflação com base na variação do PIB. Esteves classificou a medida como “questionável” em um momento em que o país apresenta baixa produtividade e desemprego em níveis historicamente baixos.

“É uma coisa questionável você dar reajuste anual real quando o desemprego está zero. Mas tem uma coisa que é pior. Isso acompanha toda a previdência brasileira. O sujeito que está aposentado tem um ganho de produtividade de 2,5% todo ano sem fazer nada. Nem as sociais-democracias europeias têm isso”, afirmou.

Segundo ele, o reajuste automático cria pressão sobre as contas da Previdência e amplia o desequilíbrio estrutural entre despesas obrigatórias e investimentos públicos.


Juros e política monetária: “O Brasil não merecia 15%”

Falta de coordenação entre política fiscal e monetária

O banqueiro também comentou o cenário de política monetária, criticando o nível elevado da taxa básica de juros (Selic), mantida em 15% pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) na última reunião. Para ele, a atual taxa é “exageradamente alta” e reflete a falta de coordenação entre o Banco Central e o governo federal.

“O Banco Central segue um script. Ele é quase um agente de IA. Você dá os insumos e ele define a taxa de juros. Está alta demais. O Brasil não merecia 15% de taxa de juros”, disse o fundador do BTG.

De acordo com Esteves, é necessária uma revisão gradual da política monetária, permitindo queda dos juros a partir de 2026, desde que acompanhada de um ajuste fiscal consistente.


Ajuste fiscal e futuro da economia

“O Brasil precisa de 2% do PIB em ajuste fiscal”

Durante o evento, André Esteves defendeu que o Brasil precisa realizar um ajuste fiscal equivalente a 2% do PIB para retomar a credibilidade e criar espaço para o crescimento sustentável.

“Se o juro vai parar em 11% ou 7%, essa é a resposta que temos de ter. Isso tem muito a ver com o que será a política fiscal do próximo governo, quem quer que seja eleito. A gente precisa de uns 2% do PIB de ajuste fiscal. Eu não vejo nenhuma dificuldade em fazer isso.”

O banqueiro destacou que a dificuldade fiscal brasileira é mais política do que técnica, uma vez que o país possui instrumentos para conter gastos e ampliar receitas sem comprometer os programas sociais.


Perspectivas para 2026: juros menores e maior responsabilidade fiscal

Segundo Esteves, a trajetória da taxa Selic deve começar a cair gradualmente em 2026, com o desafio de definir se o país conseguirá atingir uma taxa de um dígito no fim do ciclo de recuo.

A condição para isso, no entanto, está diretamente ligada à disciplina fiscal e à previsibilidade das contas públicas. Ele reiterou que a estabilidade econômica e a redução dos juros dependem da confiança dos investidores e do compromisso do governo com metas fiscais realistas.


Política externa e o papel do Brasil no cenário global

“O Brasil é uma nação amigável”, afirma Esteves

Além das questões internas, André Esteves abordou o cenário de política econômica internacional e a atual crise do multilateralismo, marcada pela ascensão da China e pela disputa comercial com os Estados Unidos.

“Qualquer mudança no quadro geopolítico produz vencedores e perdedores. Mas o Brasil não está entre os perdedores. Somos uma friendly nation, temos boas relações com os EUA, com a Europa, com a China, com o Oriente Médio e com nossos vizinhos”, disse.

Setor agro e soft power brasileiro

O banqueiro ressaltou ainda o papel estratégico do Brasil como potência alimentar e grande provedor de commodities agrícolas para o mundo.

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“Nos próximos 20 anos, no delta de crescimento de consumo alimentar do mundo, o Brasil vai ser provedor de 80% disso, do ponto de vista de produção. Esse é um tremendo soft power, que a gente não usa direito, mas é uma posição geopolítica muito relevante.”

Segundo ele, essa vantagem natural deve ser explorada como instrumento de poder diplomático e econômico, reforçando o papel do país como fornecedor global de alimentos e energia limpa.


Relações com os Estados Unidos e postura diplomática

Durante sua fala, Esteves elogiou a postura do governo brasileiro diante das recentes tensões comerciais com os Estados Unidos, destacando a atuação conjunta entre governo e setor privado.

“A posição do governo brasileiro durante a tensão diplomática com os EUA foi correta, com muita ajuda do setor privado. Não tinha nenhum sentido uma guerra comercial com os EUA, ainda mais por uma iniciativa norte-americana. Afinal, o Brasil tem déficit comercial com os EUA.”

Para o banqueiro, a manutenção de boas relações com Washington e Pequim é essencial para o equilíbrio econômico e para a estabilidade das exportações brasileiras.


Um diagnóstico sobre o Brasil: oportunidades e desafios

Crescimento, produtividade e investimento privado

Na avaliação de André Esteves, o Brasil vive um momento de transição econômica: apesar de indicadores positivos em alguns setores, o país ainda sofre com baixa produtividade, alta carga tributária e custo de capital elevado.

Ele defendeu o aumento da eficiência do Estado, o estímulo ao investimento privado e a modernização da legislação trabalhista e tributária como caminhos para destravar o crescimento.

“O Brasil tem um setor produtivo poderoso, competitivo e inovador. Falta transformar isso em política pública de longo prazo, com previsibilidade e regras estáveis.”


Considerações finais

As declarações de André Esteves durante o Milken Institute 2025 reforçam o papel do banqueiro como uma das vozes mais influentes do mercado financeiro brasileiro.

Suas críticas ao crescimento do Bolsa Família, ao reajuste real do salário mínimo e à falta de coordenação entre política fiscal e monetária refletem preocupações com o equilíbrio das contas públicas e a sustentabilidade do crescimento econômico.

Defendendo um ajuste fiscal de 2% do PIB e a redução dos juros para níveis de um dígito, Esteves apresentou uma visão pragmática: o Brasil precisa conciliar responsabilidade fiscal com inclusão social, mantendo uma rede de proteção eficiente, mas dentro dos limites da capacidade produtiva e financeira do Estado.

Ao mesmo tempo, suas observações sobre a posição internacional do Brasil e o potencial do agronegócio como soft power reforçam a ideia de um país com grandes oportunidades, mas que ainda precisa encontrar o equilíbrio entre política social, produtividade e competitividade global.

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Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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