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Mulheres se aposentam mais cedo, mas custo da aposentadoria levanta debate no Brasil

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 12 min de leitura
Aposentadoria

A aposentadoria feminina reúne uma combinação pouco favorável: em média, as mulheres vivem mais, recebem menos ao longo da carreira e estão mais sujeitas a interrupções profissionais relacionadas aos cuidados com filhos e familiares. O resultado é uma equação que pode reduzir o valor acumulado para o futuro justamente enquanto aumenta o período em que esse dinheiro precisará sustentar a aposentada.

No Brasil, a diferença também aparece nas próprias regras previdenciárias. Pela aposentadoria programada do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), mulheres podem se aposentar aos 62 anos, enquanto homens precisam atingir 65 anos, observados os demais requisitos. Para quem ingressou no Regime Geral de Previdência Social (RGPS) após a reforma de 2019, são necessários pelo menos 15 anos de contribuição para mulheres e 20 para homens, além de 180 meses de carência.

A diferença de idade, porém, não significa necessariamente uma vantagem financeira. Quando expectativa de vida, remuneração, tempo de contribuição e trajetória profissional são analisados em conjunto, a preparação para a aposentadoria feminina ganha outra dimensão.

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Aposentadoria
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O ponto central está na duração do período de aposentadoria.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida ao nascer no Brasil chegou a 79,9 anos para mulheres e 73,3 anos para homens em 2024. A diferença é de 6,6 anos.

Isso não significa que toda mulher viverá até 79,9 anos nem que todo homem morrerá aos 73,3. Trata-se de uma média populacional. Ainda assim, o indicador ajuda a dimensionar o desafio financeiro: quem vive mais precisa financiar sua renda por um período potencialmente maior.

A própria situação fica mais evidente quando considerada a expectativa de vida aos 60 anos. Em 2024, uma mulher que chegasse a essa idade tinha, em média, mais 24,2 anos de vida pela frente, enquanto a expectativa adicional para homens era de 20,8 anos.

Ou seja, a mulher que se aposenta aos 62 anos pode precisar de recursos para sustentar duas décadas ou mais de vida.

A idade menor para se aposentar não resolve a equação

A diferença entre as idades mínimas foi mantida pela Reforma da Previdência, promulgada pela Emenda Constitucional nº 103/2019.

Na aposentadoria programada, a regra geral estabelece 62 anos para mulheres e 65 para homens. Também há diferença no tempo mínimo de contribuição: 15 anos para mulheres e 20 para homens que ingressaram no RGPS após a reforma.

À primeira vista, três anos a menos parecem representar uma vantagem. Financeiramente, porém, há dois efeitos simultâneos.

A mulher pode passar menos tempo contribuindo antes de começar a receber o benefício. Ao mesmo tempo, por ter expectativa de vida maior, pode permanecer por mais tempo recebendo recursos da Previdência.

Isso não significa que a regra seja inadequada ou que a idade mínima feminina deva ser igual à masculina. A diferença foi construída dentro de um sistema que considera características históricas e sociais da participação feminina no trabalho. O ponto financeiro é outro: aposentar-se mais cedo não elimina a necessidade de construir uma reserva capaz de durar por mais tempo.

A desigualdade salarial também chega à aposentadoria

O problema não começa quando a mulher completa 62 anos. Ele pode ser construído durante toda a carreira.

O 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado pelo governo federal em abril de 2026, mostrou que as mulheres recebiam, em média, 21,3% menos que os homens nos estabelecimentos analisados. O levantamento reuniu dados de 53,5 mil empresas com 100 ou mais empregados.

Essa diferença tem reflexo previdenciário porque a contribuição ao INSS está relacionada à remuneração do trabalhador.

Em termos simples: se uma profissional passa décadas recebendo salários menores, suas contribuições também tendem a ser menores. Isso pode influenciar a renda que ela terá na aposentadoria.

A desigualdade não aparece apenas no salário médio. Dados anteriores do relatório, baseados na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, mostraram que as mulheres recebiam 73,2% da remuneração dos homens em cargos de direção e gerência e 68,5% em ocupações de nível superior.

Portanto, a discussão sobre aposentadoria feminina não pode ser separada da discussão sobre carreira, remuneração e oportunidades profissionais.

A maternidade pode interromper anos de contribuição

Outro componente da equação é a trajetória profissional.

Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV) identificou uma forte queda na permanência das mulheres no mercado formal depois da licença-maternidade. Em estudo citado pelo Ministério Público do Trabalho, 48% das mulheres analisadas estavam fora do mercado de trabalho até 24 meses após o término da licença.

A saída do emprego não representa apenas uma perda imediata de renda.

Quando não há contribuição previdenciária durante determinado período, aquele intervalo deixa de acumular tempo contributivo. Se a mulher também deixa de investir ou de formar uma reserva financeira, o impacto pode ser ainda maior.

Há ainda situações em que a profissional reduz a jornada, recusa oportunidades de promoção ou abandona temporariamente a carreira para cuidar dos filhos, de familiares idosos ou de pessoas dependentes.

O trabalho doméstico pesa na carreira, mas não gera contribuição previdenciária

Os dados do IBGE ajudam a explicar por que essas interrupções atingem mais as mulheres.

Em 2022, elas dedicaram, em média, 21,3 horas semanais a cuidados de pessoas e afazeres domésticos, contra 11,7 horas dos homens. Considerando a jornada total, que soma trabalho remunerado e atividades domésticas, as mulheres chegaram a 54,4 horas semanais, enquanto os homens registraram 52,1 horas.

Existe, portanto, uma diferença entre quantidade de trabalho e quantidade de trabalho remunerado.

Uma mulher pode trabalhar muitas horas por semana, mas parte significativa dessa atividade ocorre dentro de casa e não gera salário. Consequentemente, essa parcela também não produz contribuição previdenciária como um emprego formal produziria.

O problema se torna cumulativo: menos horas remuneradas podem significar menor renda; menor renda pode significar menor contribuição; e períodos sem contribuição podem dificultar a construção de uma aposentadoria mais robusta.

O que acontece com quem fica muito tempo sem contribuir para o INSS?

Interromper as contribuições não significa automaticamente perder todo o histórico previdenciário. Entretanto, a ausência de novos recolhimentos pode afetar a manutenção da qualidade de segurada e o acesso a determinados benefícios.

O Ministério da Previdência Social informa que, em regra, quem deixa de exercer atividade remunerada mantém a qualidade de segurado por até 12 meses. Esse período pode ser ampliado em determinadas situações, como para quem possui mais de 120 contribuições sem interrupção ou está em condições específicas previstas pela legislação.

Por isso, uma pausa profissional prolongada precisa ser analisada também sob o ponto de vista previdenciário.

Para quem está fora do mercado e deseja continuar contribuindo, existe a possibilidade de recolhimento como segurado facultativo, desde que atendidos os requisitos da categoria.

Quanto é preciso guardar para complementar a aposentadoria?

Não existe um valor único que sirva para todas as mulheres.

A quantia necessária depende de fatores como idade atual, renda, patrimônio já acumulado, expectativa de aposentadoria pelo INSS, padrão de vida desejado e idade em que pretende parar de trabalhar.

O primeiro passo é descobrir quanto dinheiro será necessário por mês no futuro.

Uma mulher que atualmente gasta R$ 5 mil mensais, por exemplo, não deveria simplesmente assumir que receberá exatamente esse valor do INSS. Ela precisa estimar o benefício previdenciário e calcular quanto precisará complementar por meio de investimentos ou outras fontes de renda.

O planejamento também deve considerar inflação, longevidade e possíveis gastos maiores na velhice, especialmente com saúde e cuidados.

A dependência do INSS ainda é alta entre os brasileiros

A preparação para a aposentadoria também enfrenta um problema de comportamento financeiro.

A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), em parceria com o Datafolha, mostrou que 60% dos entrevistados não aposentados esperavam depender da Previdência pública na aposentadoria em 2025. Apenas 5% mencionaram a previdência privada como fonte esperada de renda.

Outro dado chama atenção: a parcela de brasileiros que já havia começado a formar uma reserva para aposentadoria caiu de 18% para 16%, segundo a pesquisa.

Isso significa que depender exclusivamente do INSS continua sendo uma realidade para uma parcela expressiva da população.

Para mulheres, a questão pode ser ainda mais sensível quando a renda ao longo da carreira foi menor ou houve períodos sem contribuição.

Como começar a se preparar para a aposentadoria?

O planejamento pode começar mesmo para quem ainda está longe de parar de trabalhar.

1. Descubra quanto tempo de contribuição você já possui

O primeiro passo é consultar o histórico previdenciário e conferir se os vínculos empregatícios e contribuições aparecem corretamente.

O Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) reúne os registros utilizados pelo INSS para analisar a vida previdenciária do segurado.

Erros ou períodos ausentes podem precisar ser corrigidos antes do pedido de aposentadoria.

2. Faça uma estimativa do benefício

O valor futuro não deve ser tratado como uma incógnita até os últimos anos da carreira.

O aplicativo e o site Meu INSS oferecem ferramentas para consultar informações previdenciárias e realizar simulações de aposentadoria, embora a simulação não represente garantia de concessão do benefício.

3. Calcule a diferença entre renda desejada e benefício esperado

Imagine uma aposentada que deseja ter R$ 6 mil por mês e estima receber R$ 3,5 mil do INSS.

A diferença seria de R$ 2,5 mil mensais.

Essa lacuna pode ser planejada com investimentos, previdência privada, renda de imóveis ou outras fontes, dependendo da situação financeira de cada pessoa.

4. Comece antes de sobrar dinheiro

O tempo é um dos principais aliados do planejamento financeiro.

Aportes menores feitos durante muitos anos podem ter mais tempo para crescer do que grandes quantias aplicadas apenas próximo da aposentadoria.

Por isso, automatizar uma transferência mensal para investimentos pode ser mais eficiente do ponto de vista comportamental do que esperar o fim do mês para decidir quanto será poupado.

5. Não trate a aposentadoria como um problema exclusivamente feminino

A responsabilidade pelo cuidado com filhos, idosos e outros familiares também influencia a carreira dos homens.

A divisão mais equilibrada dessas tarefas pode ajudar a reduzir interrupções profissionais e permitir que ambos construam patrimônio ao longo da vida.

O próprio governo federal reconhece a dimensão econômica desse problema. A Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069/2024, busca ampliar a organização e a oferta de políticas de cuidado no país.

A mulher precisa investir mais do que o homem?

Não existe uma regra que determine que toda mulher precise investir mais.

O que pode acontecer é que determinadas mulheres precisem acumular uma reserva maior para compensar fatores como maior expectativa de vida, menor renda, interrupções profissionais e aposentadoria em idade diferente.

Por isso, o melhor parâmetro não é comparar quanto uma mulher investe com quanto um homem investe.

A pergunta mais útil é: quanto será necessário acumular para financiar o padrão de vida desejado durante todo o período de aposentadoria?

A aposentadoria feminina é um problema previdenciário ou financeiro?

É os dois.

A Previdência Social define regras de acesso e cálculo do benefício. Já a vida profissional determina, em grande medida, quanto uma pessoa consegue contribuir e quanto patrimônio consegue construir fora do sistema público.

O Ipea destaca justamente essa relação entre mercado de trabalho e Previdência: informalidade, precariedade e instabilidade ocupacional podem prejudicar a cobertura previdenciária e o valor dos benefícios. Em estudo específico sobre mulheres, o instituto apontou que a inserção feminina no sistema previdenciário historicamente foi mais instável e esteve associada a menor número médio de contribuições.

Por isso, pensar na aposentadoria somente aos 60 anos pode ser tarde.

A conta começa muito antes, no salário recebido, no tempo de permanência no mercado de trabalho, nas interrupções de carreira e nas decisões tomadas sobre poupança e investimentos.

O que muda na prática para as mulheres?

Aposentadoria
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A principal mudança é de perspectiva.

A aposentadoria não deve ser encarada apenas como o momento em que o INSS começa a pagar um benefício. Ela precisa ser vista como uma fase que deve ser financiada ao longo de décadas.

Para muitas mulheres, isso significa acompanhar regularmente o histórico de contribuições, entender as regras previdenciárias, evitar períodos de informalidade quando houver possibilidade de formalização e construir uma reserva complementar.

Quanto mais cedo essa análise for feita, maior será o número de alternativas disponíveis para corrigir uma eventual diferença entre a renda desejada e a renda projetada.

Conclusão

A aposentadoria da mulher não pode ser analisada apenas pela idade em que ela deixa o mercado de trabalho. A conta começa muito antes, influenciada pela remuneração ao longo da carreira, pelo tempo de contribuição, pelas pausas profissionais e pela maior expectativa de vida.

Na prática, isso significa que chegar à aposentadoria com segurança exige planejamento antecipado. Acompanhar as contribuições ao INSS, conhecer as regras aplicáveis e construir uma reserva financeira complementar são medidas que podem reduzir a dependência de uma única fonte de renda no futuro.

Para muitas mulheres, o desafio não é apenas conseguir se aposentar, mas garantir que o dinheiro seja suficiente para financiar uma vida que pode durar décadas depois do fim da carreira. Quanto mais cedo essa realidade entrar no planejamento financeiro, maior será a possibilidade de construir uma aposentadoria compatível com o padrão de vida desejado.

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