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China enfrenta dificuldade em avanço da “desdolarização” das finanças globais

Avatar de Bruna Cassana Machado Bruna Cassana Machado · · 7 min de leitura
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A Arábia Saudita participou dos testes de uma plataforma que permite fazer pagamentos internacionais com moedas digitais de bancos centrais. Agora, seu banco central afirma que concluiu o trabalho planejado e deixou o projeto. A notícia chama atenção porque o país é um dos maiores exportadores de petróleo do mundo e mantém relações econômicas importantes tanto com os Estados Unidos quanto com a China.

A plataforma se chama mBridge. Ela é frequentemente apresentada como parte dos esforços para reduzir a dependência do dólar em transações internacionais. Mas a saída saudita significa que esse plano fracassou? E pode afetar o câmbio no Brasil? Para responder, é preciso distinguir uma tecnologia de pagamento da moeda escolhida para negociar, investir e guardar reservas.

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O que aconteceu com a participação da Arábia Saudita?

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Imagem: Reprodução

O Banco Central da Arábia Saudita, conhecido como SAMA, informou ao Financial Times que concluiu em 13 de maio de 2025 uma prova de conceito no mBridge e, depois disso, deixou de participar do projeto. A prova de conceito é um teste usado para verificar se uma solução funciona nas condições propostas. A saída foi divulgada publicamente em setembro de 2026, mais de um ano após a conclusão informada pelo banco.

O SAMA afirmou que sua participação fazia parte das pesquisas sobre moedas digitais de bancos centrais. Há uma diferença de descrição entre as fontes sobre as etapas desse envolvimento: o banco saudita disse que ingressou como observador em 2023, sob a coordenação do Banco de Compensações Internacionais (BIS); já o BIS anunciou sua entrada como participante pleno em 2024. Isso ajuda a entender por que a saída ganhou peso político, embora o SAMA a apresente como encerramento de um teste previsto.

Não há confirmação pública de que os Estados Unidos tenham pressionado a Arábia Saudita a sair. Uma fonte ouvida pelo Financial Times afirmou que seria impreciso tirar uma conclusão mais ampla a partir da decisão, considerando o alcance limitado da participação saudita.

Como funciona o mBridge?

O mBridge nasceu de uma colaboração iniciada em 2021 entre autoridades monetárias da China, Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes Unidos, com participação inicial do BIS. Sua proposta é criar uma infraestrutura compartilhada para pagamentos entre países usando moedas digitais emitidas por bancos centrais, com participação de instituições financeiras autorizadas.

Em uma operação internacional tradicional, bancos podem depender de intermediários para trocar moedas e concluir a transferência. O mBridge testa a possibilidade de realizar a troca e a liquidação — a etapa em que o pagamento é efetivamente concluído — em uma plataforma comum. O objetivo declarado pelo BIS era reduzir custos, demora e dificuldades operacionais dos pagamentos transfronteiriços.

mBridge é uma alternativa ao Swift?

As duas infraestruturas desempenham funções diferentes. O Swift é uma rede pela qual instituições financeiras trocam mensagens padronizadas sobre operações; ele não é uma moeda nem mantém o dinheiro dos clientes. O mBridge foi desenhado para testar pagamentos e liquidação em uma plataforma compartilhada de moedas digitais. Por isso, tratá-lo simplesmente como um “novo Swift” deixa de fora uma parte importante de seu funcionamento.

Também não se trata de um aplicativo equivalente ao Pix para o público brasileiro. O foco está em transações internacionais realizadas por instituições participantes, sob as regras das autoridades monetárias envolvidas.

Por que a saída saudita importa para a discussão sobre o dólar?

A Arábia Saudita tem relevância no comércio de petróleo, mercado em que o dólar ocupa posição central. Sua participação no mBridge mostrava que um parceiro tradicional dos Estados Unidos estava disposto a testar outra forma de realizar pagamentos entre países. A decisão de sair reduz o peso saudita entre os participantes, mas não prova que o país tenha mudado sua política de comércio de petróleo nem que o projeto tenha sido encerrado.

O BIS também deixou o mBridge em 2024. Seu então diretor-geral, Agustín Carstens, afirmou que a instituição havia concluído sua etapa de participação e negou que a decisão tivesse sido motivada por questões políticas ou pelo fracasso do projeto. Os bancos centrais parceiros poderiam continuar o desenvolvimento.

Apesar dessas saídas, o mBridge continuou registrando operações. Dados analisados pelo Atlantic Council apontaram mais de 4 mil transações, somando cerca de US$ 55,5 bilhões, em levantamento divulgado em janeiro de 2026. O crescimento indica uso da infraestrutura, mas não demonstra que ela esteja perto de substituir o dólar no comércio mundial.

Por que pagar sem dólar não é o mesmo que abandonar o dólar?

Uma empresa pode concluir uma operação em yuan e ainda precisar de dólares para outras compras, contratos ou investimentos. Bancos centrais também decidem em quais ativos manter reservas, enquanto empresas escolhem moedas para precificar produtos e quitar obrigações. São decisões relacionadas, porém distintas.

O Fundo Monetário Internacional estimou que o dólar representava cerca de 57% das reservas internacionais em moedas identificadas no primeiro trimestre de 2026. O dado ajuda a dimensionar sua presença financeira, mesmo com o avanço de iniciativas de pagamentos em outras moedas.

Isso muda alguma coisa para o Brasil?

Não há efeito direto e imediato para quem recebe salário em reais, faz Pix ou compra dólares para viajar. A saída saudita do mBridge, isoladamente, não determina a cotação do dólar no Brasil.

Para empresas brasileiras que importam ou exportam, a questão é de prazo mais longo. Se infraestruturas como o mBridge se expandirem e se tornarem acessíveis a mais mercados, elas poderão criar outras opções para liquidar negócios internacionais. Isso dependerá de adesão de instituições, regras de cada país, custos e aceitação das moedas pelos parceiros comerciais.

Imagine, como exemplo hipotético, uma empresa brasileira que compra equipamentos de um fornecedor asiático. Um sistema mais eficiente só trará vantagem concreta se as instituições envolvidas puderem usá-lo e se a operação naquela moeda oferecer custo e condições melhores. A existência da tecnologia, sozinha, não altera o contrato da empresa nem elimina o risco cambial.

O que observar daqui para frente?

O próximo sinal relevante será a capacidade do mBridge de ampliar participantes e operações regulares, com regras claras e dados que permitam acompanhar seu uso. Também importa observar se exportadores e importadores passarão a escolher outras moedas para seus negócios, além de simplesmente utilizarem uma nova plataforma para pagar.

A saída da Arábia Saudita é uma perda de peso para o projeto, mas não encerra a busca por pagamentos internacionais mais rápidos. Para o leitor brasileiro, a conclusão prática é esta: o dólar mantém um papel dominante, e a notícia não exige nenhuma mudança imediata nas finanças pessoais. Quem acompanha câmbio ou comércio exterior deve olhar para a adoção efetiva dessas plataformas e para os custos das operações, em vez de tomar a entrada ou saída de um participante como prova de substituição da moeda americana.

Perguntas frequentes

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

A Arábia Saudita saiu do mBridge por pressão dos Estados Unidos?

Isso não foi confirmado. O banco central saudita afirmou que concluiu uma prova de conceito planejada e encerrou sua participação. Uma fonte ouvida pelo Financial Times alertou que seria impreciso atribuir à decisão uma conclusão política mais ampla.

O mBridge é uma moeda digital chinesa?

Não. É uma plataforma para testar pagamentos internacionais com moedas digitais de bancos centrais participantes. O yuan digital é uma das moedas que podem ser utilizadas nela.

A saída da Arábia Saudita acabou com o projeto?

Não. O mBridge continuou a registrar transações após a conclusão da participação saudita informada pelo SAMA. A saída de um participante, contudo, pode afetar o alcance e a relevância futura da plataforma.

O dólar vai subir no Brasil por causa dessa notícia?

Não é possível atribuir uma futura variação cambial apenas à saída saudita do mBridge. A cotação do dólar depende de diversos fatores econômicos e financeiros; não há mudança direta nas operações cotidianas dos brasileiros decorrente desse anúncio.

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