A tradicional dupla do prato do brasileiro, o arroz e o feijão, está mais barata — uma notícia positiva para os consumidores, mas que acende um sinal de alerta para produtores e agentes do agronegócio.
Arroz e feijão em baixa: entenda por que os preços caem há tanto tempo
Preço do arroz caiu 21,65% e do feijão 19,98% em 12 meses. Entenda os motivos da queda, impactos para produtores e mudanças no hábito alimentar do brasileiro.
Dados divulgados pelo Dieese revelam que os dois alimentos registraram quedas expressivas nos preços ao longo dos últimos 12 meses, com destaque para Porto Alegre, onde o arroz ficou 21,65% mais barato e o feijão teve redução de 19,98%.
Embora os números tragam alívio para o orçamento das famílias, a queda nos preços está associada a uma combinação de fatores que afetam diretamente os produtores, como o aumento da oferta, a redução no consumo per capita e a concorrência com culturas como soja e milho, que ocupam cada vez mais espaço nas lavouras brasileiras.
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Preço em declínio mesmo com áreas de plantio reduzidas
Segundo a técnica Daniela Sandi, do Dieese, o preço do arroz segue em queda principalmente pela combinação entre aumento da oferta e diminuição da demanda.
O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP) também confirma esse movimento, ressaltando que a produção continua robusta, mesmo com áreas de cultivo cedendo espaço para soja e milho.
O Brasil é autossuficiente na produção de arroz, e os estados do Sul, especialmente o Rio Grande do Sul, continuam sendo os principais fornecedores. No entanto, a diminuição no consumo interno tem gerado excedente, o que pressiona os preços para baixo.
Feijão: excesso de oferta diante de consumo retraído

O feijão, embora esteja presente na maior parte das refeições do brasileiro, enfrenta cenário semelhante. De acordo com o Cepea, a oferta elevada e a demanda desaquecida têm feito os preços recuarem.
Mesmo com perdas na área de plantio — também impactada pela substituição por culturas mais rentáveis — o excesso de produto no mercado tem sido suficiente para provocar quedas de preço mês a mês. Em maio de 2025, os valores continuaram em trajetória descendente, tanto nas capitais quanto nos centros de distribuição atacadista.
Mudança no comportamento alimentar do brasileiro
Consumo de arroz e feijão em queda há décadas
Dados da Embrapa revelam que o consumo per capita de arroz no Brasil caiu de 40 kg por habitante por ano em 1985 para 29 kg em 2023. O feijão também viu seu consumo anual reduzir de 19 kg para 13 kg no mesmo período.
Esses dados indicam uma mudança estrutural nos hábitos alimentares da população brasileira. Parte da redução pode estar ligada à diversificação das fontes de carboidratos e proteínas, como massas, batatas, ovos, carnes e outros cereais.
O problema dos ultraprocessados
No entanto, especialistas em nutrição alertam para um substituto nocivo que vem ocupando o lugar da tradicional combinação de arroz e feijão: os alimentos ultraprocessados. Produtos com altos níveis de sódio, gordura, açúcares e aditivos químicos estão cada vez mais presentes na mesa do brasileiro, principalmente entre as camadas mais pobres da população.
“Arroz com feijão é uma das combinações mais completas do ponto de vista nutricional. A substituição por alimentos ultraprocessados pode aumentar os riscos de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares”, alertam profissionais de saúde pública.
Impacto econômico e social da queda nos preços
Produtores enfrentam desafios com margens apertadas
A valorização de outras commodities, como soja e milho, associada à queda no consumo doméstico de arroz e feijão, tem levado muitos produtores a abandonar o cultivo tradicional desses grãos. Isso compromete a sustentabilidade da cadeia produtiva e coloca em risco o abastecimento futuro.
Além disso, os custos de produção seguem altos, com preços elevados de insumos como fertilizantes, combustíveis e defensivos agrícolas. Mesmo com a redução nos preços ao consumidor, muitos agricultores não conseguem cobrir seus custos operacionais.
Questão estratégica para segurança alimentar
Arroz e feijão não são apenas alimentos simbólicos da cultura brasileira — eles são pilares da segurança alimentar do país. A desvalorização desses produtos pode ter consequências no médio e longo prazo, especialmente se a produção cair drasticamente em resposta aos preços baixos.
O papel da inflação e do endividamento das famílias
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Outro fator que ajuda a explicar a redução no consumo é o endividamento crescente das famílias brasileiras. Com renda comprometida e inflação ainda pressionando itens essenciais como energia, combustíveis e moradia, as pessoas estão ajustando seus hábitos alimentares.
Muitos consumidores acabam optando por alimentos de preparo mais rápido e aparente custo-benefício, mesmo que isso comprometa a qualidade nutricional. O resultado é um paradoxo: alimentos saudáveis e básicos como arroz e feijão mais baratos, mas menos consumidos.
Perspectivas para os próximos meses
Será que os preços continuarão em queda?
Analistas de mercado acreditam que os preços devem seguir baixos no curto prazo, já que a colheita de arroz e feijão segue satisfatória, e a demanda doméstica não mostra sinais de reação. No entanto, eventos climáticos, variações cambiais e mudanças na política de exportação podem alterar esse cenário.
Há também expectativa de que campanhas de incentivo ao consumo interno, como iniciativas do governo ou de cooperativas, possam estimular a retomada da valorização da dupla.
O que dizem os economistas e nutricionistas

Especialistas em economia e nutrição convergem em um ponto: arroz e feijão são insubstituíveis como base alimentar da população.
Do ponto de vista econômico, alimentos acessíveis e estáveis ajudam a manter a inflação de alimentos sob controle e aliviam pressões sobre o orçamento familiar. Do ponto de vista da saúde pública, a manutenção do consumo desses alimentos pode evitar gastos futuros com doenças associadas à má alimentação.
Considerações finais
A queda de preço do arroz e do feijão é uma boa notícia para o consumidor, especialmente em tempos de instabilidade econômica e orçamento apertado. No entanto, os números também revelam um problema mais profundo, que vai além da dinâmica da oferta e demanda: a mudança nos hábitos alimentares e o risco de abandono de alimentos essenciais por produtos ultraprocessados e menos nutritivos.
É necessário equilibrar as ações entre valorização da produção agrícola tradicional, estímulo ao consumo consciente e educação alimentar, garantindo que a mesa do brasileiro continue sendo composta por alimentos saudáveis, acessíveis e culturalmente enraizados.
A dupla arroz e feijão não deve ser apenas um símbolo do passado, mas um pilar da alimentação futura, tanto pela sua eficácia nutricional quanto pelo seu papel na soberania alimentar do Brasil.
