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Maioria dos idosos com TEA no Brasil nunca recebeu diagnóstico adequado

Estudo aponta 306 mil idosos com TEA no Brasil. Muitos nunca receberam diagnóstico e confundem sintomas com depressão ou demência.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes5 min de leitura
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Quando se fala em Transtorno do Espectro Autista (TEA), a imagem mais comum ainda é a de crianças em fase escolar recebendo acompanhamento especializado. No entanto, uma pesquisa inédita realizada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) mostra que o autismo também está presente entre milhões de brasileiros que envelheceram sem nunca saber que faziam parte do espectro.

O estudo identificou que aproximadamente 306.836 pessoas com 60 anos ou mais vivem com algum grau de TEA no Brasil. O dado chama atenção não apenas pelo número expressivo, mas pelo fato de que muitos desses idosos passaram a vida inteira sem diagnóstico, atribuindo suas dificuldades a características pessoais, transtornos emocionais ou até sinais de envelhecimento.

A pesquisa lança luz sobre uma população historicamente invisibilizada e reforça a necessidade de ampliar o debate sobre o autismo além da infância.

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O que revelou o estudo da PUCPR

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Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

A pesquisa foi desenvolvida pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da PUCPR e publicada na revista científica International Journal of Developmental Disabilities.

Os pesquisadores utilizaram informações do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o primeiro levantamento nacional a incluir perguntas relacionadas ao Transtorno do Espectro Autista.

Os resultados apontaram que a prevalência autodeclarada de TEA entre brasileiros com 60 anos ou mais é de 0,86%.

Entre os homens idosos, a taxa chegou a 0,94%, enquanto entre as mulheres ficou em 0,81%.

O trabalho recebeu o título “Invisible aging: self-reported autism spectrum disorder in older adults in Brazil”, que pode ser traduzido como “Envelhecimento invisível: TEA autorrelatado em idosos no Brasil”.

Por que tantos idosos nunca receberam diagnóstico?

Uma das principais conclusões do estudo é que o autismo em idosos permanece amplamente subdiagnosticado.

Isso acontece porque, durante grande parte do século XX, o conhecimento sobre TEA era muito limitado. Os critérios diagnósticos eram mais restritivos e concentrados principalmente em casos considerados severos.

Como consequência, milhares de pessoas cresceram sem que suas características fossem reconhecidas como parte do espectro autista.

Mudanças nos critérios ao longo das décadas

Os conceitos relacionados ao autismo evoluíram significativamente nos últimos anos.

Muitos idosos de hoje passaram a infância e a juventude em um período no qual o TEA praticamente não era discutido fora dos ambientes acadêmicos especializados.

Além disso, diversas pessoas desenvolveram estratégias de adaptação social ao longo da vida, mascarando comportamentos típicos do espectro e dificultando ainda mais a identificação da condição.

Confusão com outras doenças

Outro desafio importante é a semelhança de alguns sinais do TEA com sintomas de outras condições comuns na terceira idade.

Entre as características frequentemente confundidas estão:

  • Dificuldade de interação social;
  • Preferência por rotinas rígidas;
  • Interesses específicos e intensos;
  • Sensibilidade sensorial;
  • Resistência a mudanças.

Esses comportamentos podem ser interpretados como sinais de depressão, ansiedade, transtornos de personalidade ou até quadros de demência.

Em muitos casos, o idoso recebe tratamento para sintomas isolados sem que a causa principal seja investigada.

O impacto emocional de descobrir o autismo na terceira idade

Embora o diagnóstico tardio possa parecer algo negativo, especialistas apontam que a descoberta costuma trazer um sentimento de alívio para muitos idosos.

Segundo a pesquisadora Uiara Ribeiro, uma das responsáveis pelo estudo, compreender a existência do TEA ajuda a dar sentido a experiências acumuladas ao longo de décadas.

Situações que antes eram interpretadas como falhas pessoais passam a ser entendidas sob uma perspectiva neurológica.

Uma nova leitura da própria história

Para muitos idosos, o diagnóstico representa uma oportunidade de reinterpretar sua trajetória.

Dificuldades de relacionamento, sensação de inadequação social e desafios enfrentados em ambientes profissionais deixam de ser vistos como defeitos de caráter e passam a ser compreendidos dentro de um contexto clínico.

Esse processo pode reduzir sentimentos de culpa e favorecer uma relação mais saudável com a própria história.

Benefícios práticos do diagnóstico

Além do aspecto emocional, o reconhecimento do TEA possibilita acesso a recursos importantes, como:

  • Atendimento especializado;
  • Terapias direcionadas;
  • Grupos de apoio;
  • Estratégias de adaptação para o cotidiano;
  • Maior compreensão por parte da família e dos cuidadores.

Os desafios do envelhecimento para pessoas com TEA

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O estudo também destaca que o envelhecimento de pessoas autistas exige atenção especial do sistema de saúde.

Pesquisas internacionais já indicam que essa população pode apresentar maior vulnerabilidade para determinadas condições clínicas e psicológicas.

Maior risco de comorbidades

Entre os principais desafios identificados estão:

Declínio cognitivo

Alguns estudos sugerem maior predisposição a dificuldades relacionadas à memória e às funções executivas durante o envelhecimento.

Transtornos mentais

Ansiedade e depressão aparecem com frequência entre adultos e idosos autistas, especialmente quando há histórico de isolamento social ou falta de suporte adequado.

Problemas de saúde física

Há evidências de maior incidência de doenças cardiovasculares, alterações metabólicas e outras condições crônicas que exigem acompanhamento contínuo.

Barreiras no acesso à saúde

Sensibilidades sensoriais, dificuldades de comunicação e experiências negativas anteriores podem afastar idosos autistas dos serviços de saúde, dificultando diagnósticos e tratamentos.

Avanços na legislação brasileira

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

O cenário começa a mudar no Brasil.

Em novembro de 2025, foi sancionada a Lei 15.256/2025, que ampliou a atenção voltada ao diagnóstico do autismo em adultos e idosos.

A medida representa um avanço importante porque reconhece oficialmente que o TEA não é uma condição restrita à infância.

Na prática, a legislação pode incentivar:

  • Capacitação de profissionais de saúde;
  • Campanhas de conscientização;
  • Ampliação do acesso ao diagnóstico;
  • Criação de redes multidisciplinares de atendimento;
  • Desenvolvimento de políticas públicas específicas.

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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