Em uma reviravolta inesperada, o Banco Central (BC) anunciou na terça-feira (4) que a infraestrutura tecnológica baseada em blockchain, utilizada no Drex — a versão digital do real —, será desativada. A medida pegou o mercado de surpresa e interrompe temporariamente uma das iniciativas mais ambiciosas do país na modernização do sistema financeiro.
Com a decisão, o Drex, que vinha sendo desenvolvido desde 2020, terá sua terceira fase repensada. A mudança foi comunicada em reunião com representantes de instituições financeiras, empresas de tecnologia e fintechs que participavam das fases de teste do projeto. Até o momento, o BC não se pronunciou oficialmente sobre a reorientação.
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O que é o Drex?
Lançado em conceito pelo Banco Central em 2020, o Drex (sigla para “Digital Real eXperiment”) é a versão brasileira da moeda digital de banco central (CBDC, na sigla em inglês). O objetivo do Drex vai além de replicar o real no ambiente digital. A proposta envolve transformar a forma como transações, contratos, registros públicos e concessões de crédito são feitos no país.
Aplicações previstas para o Drex
- Transferência digital instantânea de valores entre instituições;
- Tokenização de ativos financeiros e imobiliários;
- Desburocratização na compra e venda de imóveis e veículos;
- Agilização de processos cartorários;
- Facilidade no crédito rural e no microcrédito.
O Drex é parte de uma tendência global de adoção de moedas digitais soberanas, como o e-Yuan na China, o e-Krona na Suécia e o eNaira na Nigéria.
A decisão de desligar a camada blockchain
Segundo participantes da reunião realizada nesta terça, o modelo técnico baseado na Ethereum Virtual Machine (EVM) com o uso do Hyperledger Besu foi considerado inseguro e oneroso pelo BC. A estrutura, que havia sido escolhida para dar suporte ao Drex, não atendeu aos requisitos de estabilidade e custo-benefício.
O que motivou a mudança?
- Fragilidade de segurança, segundo os critérios do Banco Central;
- Alto custo operacional para a manutenção da rede blockchain pública;
- Inviabilidade técnica da arquitetura empregada dentro das restrições regulatórias do BC;
- Preocupação com privacidade e controle de dados sensíveis.
Com isso, o projeto entra em uma nova fase de avaliação, onde a tecnologia deixará de ser o ponto de partida e o foco passará a ser a definição do modelo de negócio, interoperabilidade e adoção pelo mercado.
Participação massiva do setor financeiro

As fases piloto do Drex contaram com a colaboração de bancos, fintechs, cooperativas e empresas de tecnologia. Os participantes foram divididos em consórcios e tiveram papel ativo no desenvolvimento e testes das aplicações do Drex no ambiente simulado.
Instituições envolvidas no projeto Drex:
- Bancos: Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Santander, Caixa, BTG Pactual, Banco Inter, Banco BV e Nubank;
- Cooperativas: Sicoob, Sicredi, Unicred, Ailos, Cresol;
- Tecnologia e infraestrutura: Microsoft, Google Cloud, AWS, CPqD, TecBan, Mastercard, Visa;
- Infraestrutura de mercado: B3, XP, MBPay, Nuclea.
Apesar do recuo na arquitetura blockchain, as instituições seguem envolvidas na construção de novas soluções para a próxima fase.
Um novo direcionamento estratégico
A decisão de abandonar a tecnologia blockchain não foi recebida como um recuo total, mas sim como uma reavaliação estratégica. Participantes da reunião relatam que o BC pretende desacoplar a escolha da tecnologia das necessidades de negócio.
“O Drex precisa se alinhar à nova dinâmica do mercado. A tecnologia não deve mais liderar o processo, mas sim ser consequência das demandas de uso real”, afirmou um executivo do setor financeiro presente na reunião.
Essa mudança de abordagem já era sinalizada nos bastidores desde o final da fase 2 do projeto piloto, e ganhou força com as discussões técnicas e as análises de segurança.
Setor privado segue avançando
Mesmo com a desaceleração do Drex, o ecossistema de tokenização no Brasil segue ativo, especialmente nas mãos da iniciativa privada. Na última quinzena, a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) anunciou uma nova iniciativa de digitalização de ativos financeiros, sinalizando que o setor não espera o BC para avançar.
Além disso, empresas como XP, Nubank, MBPay e BTG vêm desenvolvendo plataformas de tokenização, usando infraestrutura própria, blockchain permissionada e soluções híbridas.
Stablecoins dominam o cenário digital brasileiro
Um dado revelado pela Forbes Brasil durante a cobertura da reunião mostra que cerca de 90% das moedas digitais em circulação no Brasil hoje são stablecoins. Esse dado reforça o interesse do mercado em soluções lastreadas em moedas fiduciárias, como o real, mas sem necessariamente depender da coordenação do Banco Central.
Entre os projetos mais ativos no país estão:
- Stablecoins lastreadas em real (BRL);
- Tokenização de precatórios, recebíveis e imóveis;
- CDBs tokenizados e produtos financeiros digitais.
Críticas do governo à versão anterior do Drex
Durante as fases anteriores, integrantes do governo e do próprio Banco Central apontaram que a estrutura escolhida não era compatível com a ambição do projeto. O custo alto, a necessidade de constantes atualizações, e o descompasso com o marco regulatório brasileiro tornaram o modelo inviável.
Fontes ouvidas pela reportagem apontam que, para dar continuidade ao Drex, o BC precisará olhar primeiro para:
- A demanda real do mercado;
- As aplicações prioritárias, como crédito, cartórios e pagamentos;
- A segurança e privacidade no tráfego de dados financeiros sensíveis.
O que esperar da fase 3 do Drex?

A fase 3, antes prevista para 2025, ainda está sob reavaliação. A tendência é que o foco migre para:
1. Interoperabilidade com sistemas existentes
Garantir que o Drex possa operar junto com PIX, SPB, sistemas bancários e plataformas privadas de tokenização.
2. Viabilidade econômica
Reduzir o custo operacional, focar em soluções que não exijam estruturas caras ou tecnologias incompatíveis com a regulação brasileira.
3. Segurança e conformidade
Aumentar o grau de controle e conformidade com normas de LGPD, supervisão financeira e prevenção à lavagem de dinheiro.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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