O Banco Central (BC) determinou nesta quinta-feira (3) a liquidação extrajudicial da Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM) e da Banvox DTVM, duas instituições sediadas em São Paulo. A medida encerra as atividades regulares das empresas e ocorre após a autoridade monetária identificar, segundo sua decisão, graves violações às normas legais que disciplinam o funcionamento das instituições.
A decisão chama atenção porque as duas empresas têm ligação com Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, instituição que também foi colocada em liquidação pelo BC. A Trustee havia prestado serviços ao Master e passou ao controle de Quadrado após o rompimento dele com Daniel Vorcaro, controlador do banco.
Embora tenham participação pequena no sistema financeiro brasileiro, as instituições aparecem em um contexto mais amplo de investigações envolvendo empresas e fundos ligados ao mercado financeiro. A seguir, entenda o que o BC determinou, qual é a relação das empresas com o caso Master e o que acontece a partir de agora.
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O que o Banco Central decidiu

O BC determinou a liquidação extrajudicial da Trustee e da Banvox, retirando das empresas a possibilidade de continuar funcionando normalmente como instituições integrantes do sistema financeiro.
A legislação brasileira permite que o Banco Central decrete esse tipo de regime quando identifica situações que comprometem a instituição ou quando há violações graves das normas que regulam sua atividade. A Lei nº 6.024/1974 prevê expressamente essa possibilidade.
Na prática, a liquidação significa que a empresa deixa de operar normalmente e passa a ser administrada por um liquidante nomeado pelo Banco Central. Esse profissional assume poderes de administração e liquidação, incluindo a verificação e classificação dos créditos e a adoção das medidas necessárias para o encerramento da instituição.
Segundo o BC, Trustee e Banvox tinham participação muito pequena no sistema financeiro. Juntas, representavam menos de 0,001% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional e administravam 0,76% dos recursos de terceiros.
Apesar do tamanho reduzido, a medida tem relevância por ocorrer em meio a investigações que envolvem instituições e agentes relacionados ao mercado financeiro.
Qual é a relação da Trustee com Maurício Quadrado e o Banco Master?
A Trustee tem histórico de ligação com Maurício Quadrado, que foi sócio do Banco Master.
Depois do rompimento entre Quadrado e Daniel Vorcaro, controlador do Master, Quadrado assumiu o controle da Trustee. A distribuidora havia prestado serviços ao banco.
O Banco Master passou a ser alvo de uma série de investigações e teve sua liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central. Vorcaro foi preso no âmbito das apurações sobre suspeitas de fraudes relacionadas à instituição e continua respondendo aos processos.
A existência de vínculos empresariais, por si só, não significa que todos os envolvidos tenham cometido irregularidades. As responsabilidades individuais precisam ser apuradas pelas autoridades competentes.
O que se sabe sobre a Banvox
A Banvox DTVM foi fundada em 1984 e recebeu autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para administrar carteiras de investimento em 1991.
A partir de 2016, a empresa passou a concentrar suas atividades na administração e custódia de fundos próprios.
A instituição também administrava pelo menos um fundo citado na Operação Carbono Oculto, investigação que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro e possíveis conexões com organizações criminosas.
A operação alcançou ainda a Reag Investimentos, que foi alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal.
Por que o Banco Central decretou a liquidação?
O fundamento apresentado pelo BC foi a identificação de graves violações das normas legais aplicáveis às duas instituições.
A Lei nº 6.024 estabelece que a liquidação extrajudicial pode ser decretada, entre outras situações, quando a administração viola gravemente normas legais e estatutárias que regulam a atividade da instituição ou determinações do Conselho Monetário Nacional e do próprio Banco Central.
Isso diferencia a medida de um simples encerramento voluntário de uma empresa. A liquidação extrajudicial é um regime de intervenção previsto em lei, conduzido sob supervisão do BC para proteger credores e organizar a apuração e realização dos ativos da instituição.
O Banco Central também informou que continuará investigando o caso para identificar eventuais responsáveis pelas irregularidades.
Trustee, Banco Master e Reag são investigados pela CVM?
Há também uma frente de apurações conduzida pela Comissão de Valores Mobiliários.
Segundo levantamento da CVM citado na reportagem de origem, até fevereiro de 2026, Banco Master, Reag e Trustee eram alvo de 126 processos administrativos na autarquia. Desse total, 47 envolviam o Master, 77 a Reag e dois a Trustee.
Os procedimentos investigam diferentes suspeitas de irregularidades, entre elas possíveis fraudes e lavagem de dinheiro. A existência de um processo administrativo, porém, não equivale a uma condenação.
As apurações ainda precisam ser concluídas para determinar se houve infrações e quem eventualmente deverá ser responsabilizado.
O que acontece depois da liquidação extrajudicial?
Com a decretação da liquidação, um liquidante passa a conduzir o processo. Entre suas atribuições estão levantar o patrimônio da instituição, verificar os créditos existentes, classificar os credores e administrar os ativos até a conclusão do procedimento.
A legislação também determina efeitos imediatos sobre as obrigações da instituição. Entre eles estão o vencimento antecipado de determinadas obrigações e a suspensão de ações e execuções relacionadas ao acervo da empresa enquanto durar a liquidação, nos termos previstos na lei.
O objetivo é organizar o patrimônio e as dívidas da instituição para que o processo de pagamento aos credores siga a ordem estabelecida pela legislação.
O que significa a indisponibilidade dos bens dos administradores?
A decisão também produz efeitos sobre os bens dos administradores abrangidos pela legislação.
A Lei nº 6.024 determina que os administradores de instituições submetidas à intervenção, liquidação extrajudicial ou falência ficam com seus bens indisponíveis até a apuração e liquidação final de suas responsabilidades. A regra alcança, em princípio, aqueles que exerceram as funções nos 12 meses anteriores à decretação da medida.
A indisponibilidade não significa, por si só, que essas pessoas já foram consideradas culpadas. Trata-se de uma medida destinada a preservar patrimônio enquanto as responsabilidades são investigadas.
O próprio Banco Central deve instaurar inquérito para apurar as causas que levaram à liquidação e a eventual responsabilidade dos administradores e integrantes do conselho fiscal.
Se forem encontrados elementos que indiquem a prática de crimes ou contravenções, a legislação prevê o encaminhamento das informações ao Ministério Público.
Clientes da Trustee e da Banvox perdem o dinheiro?
A liquidação extrajudicial não significa automaticamente que todos os clientes perderão seus recursos.
O efeito sobre cada pessoa ou empresa depende do tipo de relação mantida com a instituição, dos ativos envolvidos, da titularidade dos recursos e da situação patrimonial identificada durante o processo de liquidação.
Por isso, investidores e clientes eventualmente afetados devem acompanhar as comunicações oficiais do Banco Central e do liquidante responsável pelo processo, especialmente para verificar procedimentos de habilitação, transferência ou restituição de valores e ativos, quando aplicáveis.
Também é necessário diferenciar recursos pertencentes aos próprios clientes de patrimônio da instituição liquidada. A análise de cada caso depende da natureza da operação.
Qual é o próximo passo das investigações?
A liquidação não encerra necessariamente as apurações sobre o que ocorreu.
O Banco Central informou que continuará investigando as circunstâncias que levaram à medida e poderá aplicar sanções administrativas aos responsáveis, conforme os resultados das apurações.
Caso sejam identificados indícios de crimes, o material também poderá ser encaminhado às autoridades competentes.
O processo, portanto, terá duas frentes principais: a liquidação e organização do patrimônio das empresas e a investigação das eventuais responsabilidades pelas irregularidades.
O que muda para o mercado financeiro?
Em termos sistêmicos, o impacto direto tende a ser limitado pelo tamanho das duas instituições. O próprio Banco Central informou que Trustee e Banvox representavam conjuntamente menos de 0,001% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional.
O aspecto mais relevante está no desdobramento das investigações e na eventual identificação de conexões entre diferentes instituições, gestores, fundos e operações que já estão sob análise de órgãos de fiscalização e investigação.
A atuação coordenada de BC, CVM, Polícia Federal e Ministério Público poderá esclarecer se existem responsabilidades compartilhadas ou operações relacionadas entre os diferentes casos.
Por enquanto, contudo, é necessário separar fatos já determinados pelas autoridades de suspeitas que ainda estão sendo investigadas.
Entenda o caso em resumo

- O Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da Trustee e da Banvox nesta quinta-feira (3).
- As duas instituições têm ligação com Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master.
- A Trustee havia prestado serviços ao Banco Master.
- A Banvox atua desde 1984 e passou a concentrar suas atividades em fundos próprios a partir de 2016.
- A Banvox administrava ao menos um fundo citado na Operação Carbono Oculto.
- O BC apontou graves violações das normas legais como fundamento para a liquidação.
- As duas empresas tinham participação pequena no Sistema Financeiro Nacional.
- Os bens dos administradores abrangidos pela legislação ficam indisponíveis durante a apuração das responsabilidades.
- O Banco Central continuará investigando o caso.
Conclusão
A liquidação da Trustee e da Banvox amplia o alcance das medidas adotadas pelas autoridades sobre instituições relacionadas ao mercado financeiro e ocorre em um momento de investigações envolvendo o Banco Master, a Reag e outros participantes do setor.
Para clientes e investidores, o principal passo agora é acompanhar as informações divulgadas pelo Banco Central e pelo liquidante, especialmente sobre eventuais procedimentos relacionados a créditos e ativos.
Para as autoridades, a etapa seguinte será esclarecer quais irregularidades ocorreram, quem foi responsável por elas e se existem conexões entre os diferentes casos investigados. A conclusão dessas apurações será necessária antes de atribuir responsabilidade individual aos envolvidos.
