O Banco Digimais, controlado pelo empresário e bispo Edir Macedo, registrou prejuízo líquido de R$ 581,41 milhões no primeiro semestre de 2026, segundo dados do sistema IFData, do Banco Central. O resultado representa uma forte reversão em relação ao mesmo período de 2025, quando a instituição havia registrado lucro de R$ 42,1 milhões.
A deterioração financeira ocorre enquanto o banco enfrenta uma série de acontecimentos relevantes: o índice de Basileia caiu para -4,62%, a instituição negocia uma possível venda ao BTG Pactual e foi alvo da Operação Miragem, da Polícia Federal, que investiga suspeitas de irregularidades no sistema financeiro.
A situação chama atenção principalmente porque o Digimais possui bilhões de reais em depósitos. Entenda o que os números significam, o que pode acontecer com o banco e como funciona a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para clientes e investidores.
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O que aconteceu com o Banco Digimais?

O principal dado divulgado nesta sexta-feira (18) é o prejuízo de R$ 581,41 milhões entre janeiro e junho de 2026. Um ano antes, no mesmo intervalo, o Digimais havia apresentado lucro de R$ 42,1 milhões.
A mudança afetou diretamente os indicadores de capital da instituição. O índice de Basileia, utilizado para medir a relação entre o patrimônio de referência de um banco e seus ativos ponderados pelo risco, chegou a -4,62%, enquanto o mínimo regulatório informado na reportagem é de 10,5%.
Quando uma instituição fica abaixo dos parâmetros regulatórios de capital, o Banco Central pode exigir medidas para recomposição da estrutura financeira. A situação, portanto, não significa automaticamente que o banco deixará de funcionar, mas representa uma deterioração relevante de seus indicadores.
Quanto dinheiro o Digimais movimenta?
Apesar do prejuízo, o Digimais continua apresentando uma estrutura de bilhões de reais.
No encerramento do primeiro semestre, os ativos da instituição somavam aproximadamente R$ 9,8 bilhões, queda de 1,6% em 12 meses. Entre esses ativos estavam R$ 3,2 bilhões em títulos e valores mobiliários, R$ 2,7 bilhões em outros ativos realizáveis, R$ 1,9 bilhão em aplicações interfinanceiras de liquidez e R$ 1,4 bilhão em operações de crédito.
Do lado dos passivos, o total chegava a cerca de R$ 9,5 bilhões, alta de 2% em relação a junho de 2025. Os depósitos representavam aproximadamente R$ 8,7 bilhões desse montante.
Esses números ajudam a explicar por que a situação do Digimais tem relevância para além do resultado contábil do banco.
O que significa um índice de Basileia negativo?
O índice de Basileia é um dos principais indicadores utilizados para avaliar a capacidade de uma instituição financeira de absorver perdas em relação aos riscos assumidos.
De maneira simplificada, quanto maior a exposição a determinados riscos, maior precisa ser a estrutura de capital utilizada como proteção. O indicador é acompanhado pelo Banco Central dentro da supervisão do sistema financeiro.
No caso do Digimais, o índice de -4,62% revela uma situação particularmente delicada de capitalização. O resultado está muito distante do parâmetro regulatório citado para a instituição.
Isso não significa, por si só, que todos os clientes perderão dinheiro ou que haverá uma liquidação imediata. A situação precisa ser acompanhada pelos órgãos reguladores e pelas medidas adotadas para recompor o capital ou reorganizar a instituição.
Por que o BTG Pactual quer comprar o Digimais?
A possível venda do banco já vinha sendo discutida antes da divulgação do prejuízo do primeiro semestre.
Em abril, o BTG Pactual comunicou ao mercado que havia celebrado documentos vinculantes para a aquisição do controle acionário do Digimais. O acordo estabelecia uma referência para a operação, mas a conclusão dependia de um processo competitivo e de aprovações regulatórias, incluindo Banco Central e Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
O próprio Digimais confirmou as negociações e afirmou que a conclusão da operação dependia das condições regulatórias necessárias para a transferência do controle.
Portanto, o anúncio não significou que o BTG já havia assumido o banco. A operação estava condicionada a etapas posteriores.
Qual é o papel do FGC na possível venda?
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) pode participar de operações destinadas a preservar a estabilidade financeira e também atua na proteção de determinados depósitos e investimentos quando ocorre intervenção ou liquidação de uma instituição associada.
No caso do Digimais, a estrutura negociada para a possível venda ao BTG envolve apoio financeiro do FGC. O comunicado do BTG informou que o processo competitivo deveria considerar regras de suporte financeiro à instituição.
A lógica é diferente de simplesmente esperar uma eventual quebra do banco. Uma solução que permita a continuidade da instituição pode ser estruturada antes de uma liquidação, dependendo das condições estabelecidas pelas partes e das autorizações necessárias.
Quem tem dinheiro no Digimais pode perder tudo?
Não é possível afirmar que clientes perderão dinheiro simplesmente porque o banco apresentou prejuízo.
Além disso, determinados produtos financeiros contam com a proteção do FGC. A garantia ordinária cobre, entre outros produtos, conta corrente, poupança, CDB, RDB, LCI, LCA e LCD, respeitando os limites estabelecidos pelo fundo.
O limite é de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira ou conglomerado, considerando os créditos elegíveis. Existe ainda um limite global de R$ 1 milhão em garantias pagas pelo FGC a cada período de quatro anos, conforme as regras aplicáveis.
Isso não significa que qualquer produto oferecido pelo banco esteja automaticamente protegido. Fundos de investimento, por exemplo, não estão dentro da garantia ordinária do FGC.
Exemplo prático
Imagine um cliente com R$ 100 mil em um CDB elegível ao FGC emitido pelo Digimais. Se ocorresse uma intervenção ou liquidação que acionasse a garantia, o valor estaria dentro do limite ordinário de R$ 250 mil, observadas as demais regras do FGC.
Já uma pessoa com R$ 400 mil em um único produto elegível não teria, pela regra ordinária, os R$ 400 mil cobertos. O limite aplicável seria de até R$ 250 mil por instituição ou conglomerado, respeitadas as condições da garantia.
Por isso, o tipo de aplicação e a titularidade do investimento são fundamentais para saber qual proteção existe.
O que a Polícia Federal investiga no Digimais?
A situação do banco ganhou outro capítulo em junho, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem.
Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil com base na investigação, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão em São Paulo. A Justiça também autorizou a quebra de sigilos bancário e fiscal e o bloqueio ou sequestro de bens e valores de até R$ 670 milhões.
A investigação apura possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Segundo a PF, relatórios do Banco Central indicariam suspeitas de manipulação de demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a situação financeira real da instituição e aparentar solvência perante os órgãos de controle.
As suspeitas ainda são objeto de investigação. A existência de uma operação policial não equivale, por si só, a uma condenação dos investigados.
O que pode acontecer com o Digimais agora?
Há diferentes possibilidades, e o resultado dependerá das decisões regulatórias e das negociações em andamento.
Uma delas é a conclusão de uma operação de venda, caso sejam cumpridas as condições estabelecidas e obtidas as autorizações necessárias. O acordo anunciado pelo BTG previa justamente um processo competitivo antes da conclusão da aquisição.
Outra possibilidade é a adoção de medidas para reforçar o capital da instituição e reorganizar sua estrutura. A reportagem do Poder360 informou que o Digimais não apresentava, segundo informações atribuídas ao Valor Econômico, um problema de caixa naquele momento, embora enfrentasse uma situação de capitalização bastante deteriorada.
O desfecho, portanto, não pode ser determinado apenas pelo prejuízo de R$ 581 milhões. É necessário acompanhar as medidas tomadas pelo Banco Central, o processo de venda e a evolução das investigações.
O que clientes do Digimais devem fazer?

Quem possui conta, CDB ou outro produto financeiro no Digimais não precisa presumir automaticamente que perdeu o dinheiro.
O primeiro passo é identificar qual produto foi contratado, o valor aplicado e se ele é elegível à garantia do FGC. A lista oficial do fundo informa quais produtos são cobertos e quais ficam fora da proteção.
Também é recomendável acompanhar exclusivamente os comunicados oficiais do banco, do Banco Central e do FGC. Em uma eventual intervenção ou liquidação, o procedimento de pagamento da garantia dependerá da situação determinada pelas autoridades e das informações fornecidas ao FGC.
O fundo orienta que o cliente utilize seus canais oficiais para solicitar eventual garantia e alerta para tentativas de golpe. O FGC não cobra taxa para realizar o pagamento da garantia.
Conclusão
O Banco Digimais encerrou o primeiro semestre de 2026 com prejuízo de R$ 581,41 milhões, depois de registrar lucro de R$ 42,1 milhões no mesmo período do ano anterior. O resultado veio acompanhado de um índice de Basileia de -4,62%, sinalizando uma forte deterioração da estrutura de capital da instituição.
A situação ocorre em meio às negociações para uma possível aquisição pelo BTG Pactual e às investigações da Operação Miragem, da Polícia Federal. A venda, porém, ainda depende das etapas previstas no processo e das aprovações regulatórias.
Para o cliente, o ponto central é verificar qual produto financeiro possui no Digimais e se ele está dentro das regras de cobertura do FGC. O prejuízo do banco não significa, automaticamente, perda dos depósitos ou investimentos, mas a evolução do caso deve ser acompanhada pelos canais oficiais.
