Entre 2020 e 2024, o Banco do Brasil viveu um de seus períodos mais lucrativos da história. O lucro líquido ajustado ultrapassou a marca dos R$ 9 bilhões por trimestre, com ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) consistentemente acima de 20%. Nesse cenário, os dividendos pagos aos acionistas — incluindo dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) — chegaram a representar mais de dois dígitos de retorno anual, tornando o papel BBAS3 um dos favoritos dos investidores focados em renda.
Quando os dividendos generosos de BBAS3 podem voltar para os acionistas?
Banco do Brasil reduz payout para 30% em 2025 após queda nos lucros. Analistas avaliam quando os dividendos voltarão ao patamar elevado.
Porém, esse ciclo virtuoso começou a dar sinais de esgotamento em 2025, com resultados mais modestos no primeiro e segundo trimestres. O impacto foi imediato: o banco decidiu revisar sua estratégia de remuneração aos acionistas.
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Queda do payout de 40% para 30% frustra investidores
O que é o payout?
O payout é a parcela do lucro que uma empresa distribui aos seus acionistas. No caso do Banco do Brasil, o payout vinha girando em torno de 40%, mas foi reduzido para 30% em 2025, o que impactou diretamente o rendimento das ações.
Essa mudança fez com que o retorno com dividendos — que já chegou a superar 10% ao ano — caísse para uma faixa estimada de 3,5% a 4%, afastando investidores que viam no banco uma fonte de rentabilidade previsível.
Segundo o JPMorgan, que recentemente se reuniu com a administração do banco, ainda não há previsão de retomada do payout mais elevado em 2026. A decisão dependerá da recuperação dos indicadores financeiros e de crédito.
A fala do diretor de RI sinaliza prudência

Durante conferência com jornalistas, o diretor de Relações com Investidores do BB, Giovanne Tobias, foi direto ao ponto:
“2025 é o ano para fazer o freio de arrumação para nos prepararmos para 2026”.
A frase resume o momento: o banco não descarta a retomada da atratividade da ação BBAS3, mas também não antecipa uma recuperação rápida.
Foco está na reconstrução de fundamentos
A meta da instituição é retomar um ROE em torno de 15% até 2026, com base em três pilares estratégicos:
1. Estabilização da inadimplência
A deterioração da carteira de crédito, especialmente no agronegócio e entre pequenas empresas, forçou o banco a rever sua política de concessão de crédito. A inadimplência nas PMEs chegou a 10,6%, embora, ajustada pela composição da dívida, fique em torno de 6,1%.
O BB passou a exigir mais garantias reais nas operações, o que desacelerou os desembolsos e pode limitar o crescimento no curto prazo.
2. Ganhos de eficiência
O banco aposta na digitalização e racionalização de custos para sustentar margens operacionais em um cenário de menor crescimento.
3. Melhora nas margens com queda da Selic
Com a expectativa de queda da taxa Selic, o BB pretende reduzir seu custo de captação. Essa mudança pode trazer fôlego à margem financeira líquida (NII), que está pressionada desde 2024.
Resoluções regulatórias ajudam, mas não são suficientes
A administração do BB também aposta em duas novas resoluções:
- Resolução 5244, que trata da cura de operações de crédito — ou seja, da recuperação de dívidas em atraso.
- Nova regulamentação sobre empréstimos de programas governamentais, com potencial de alívio no balanço.
Ambas as medidas podem ajudar a recompor o capital e melhorar a eficiência, mas ainda dependem da implementação prática e do ambiente macroeconômico.
JPMorgan mantém recomendação neutra para BBAS3
Alívio parcial com MP do governo
Após o anúncio da medida provisória que trouxe alívio para o setor bancário, o papel BBAS3 chegou a subir 20% desde as mínimas, segundo o JPMorgan. Porém, os analistas mantiveram recomendação neutra, com preço-alvo em R$ 24, abaixo da cotação de pico registrada em 2024.
Sinais negativos persistem
Apesar da reação do mercado, os sinais seguem preocupantes:
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- Inadimplência em alta, especialmente no crédito rural.
- Compressão de margens devido à queda dos preços agrícolas.
- Eventos climáticos adversos afetando os produtores rurais.
- Renegociação de dívidas com resultados ainda limitados.
Segundo o banco, os produtores rurais estão altamente alavancados, e o ambiente de juros altos inviabilizou parte das renegociações.
Programa de renegociação pode trazer alívio

O relatório do JPMorgan estima que, a cada R$ 7 bilhões renegociados, pode haver um ganho de 60 pontos-base no capital do banco. Há potencial de uso de até R$ 20 bilhões em ativos fiscais diferidos (DTAs), o que abriria espaço para recuperação gradual.
Ainda assim, os analistas alertam que o BB continuará enfrentando dificuldades na carteira de pequenas e médias empresas.
Ação pode estar em piso técnico
Risco x Oportunidade
Apesar dos desafios, alguns analistas de mercado veem sinais de piso técnico no preço de BBAS3, o que abriria espaço para entrada estratégica de investidores com visão de longo prazo.
O racional por trás dessa leitura inclui:
- Preço atrativo, com BBAS3 negociando a múltiplos baixos de P/L (Preço/Lucro).
- Potencial de recuperação de ROE para 15% em 2026.
- Estratégia conservadora que evita deterioração maior do balanço.
- Histórico de governança sólida mesmo em anos eleitorais.
Dividendos polpudos? Só em 2026 — e se tudo der certo
A expectativa do mercado é que, caso os fundamentos melhorem, o Banco do Brasil pode retomar gradualmente seu payout para 35% ou 40%, com retorno de dividendos novamente acima de 7% ao ano.
Contudo, esse cenário otimista depende da queda sustentável da inadimplência, da recuperação do crédito rural e da estabilização do custo de captação.
Como resume o próprio JPMorgan:
“Ainda é cedo para discutir payout em 2026.”
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
