As ações do Banco do Brasil (BBAS3) se tornaram um dos principais termômetros do chamado trade eleitoral na Bolsa brasileira. Desde 18 de agosto de 2026, os papéis acumulam valorização superior a 28%, em um momento em que pesquisas eleitorais passaram a indicar uma disputa mais equilibrada pela Presidência da República.
O movimento chama atenção porque o Banco do Brasil é controlado pela União. Com isso, mudanças nas expectativas para o próximo governo podem afetar diretamente a percepção dos investidores sobre a estratégia, a gestão e a política de crédito da instituição.
A alta da ação, porém, acontece em meio a desafios operacionais. No segundo trimestre de 2026, o banco registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, alta de 3,3% em 12 meses, mas também apresentou aumento da inadimplência, principalmente em segmentos como crédito rural e pessoas físicas.
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Por que as ações do Banco do Brasil estão subindo?

A principal explicação apontada por participantes do mercado é a mudança na percepção sobre o cenário eleitoral.
Por ser uma instituição de economia mista, o Banco do Brasil apresenta uma sensibilidade maior às expectativas relacionadas ao governo federal. Uma eventual mudança de comando em Brasília pode provocar alterações na percepção sobre a condução da companhia.
Foi justamente essa possibilidade que ganhou força nas últimas semanas.
“Banco do Brasil sobe por possibilidade de troca de governo. A alta está muito expressiva, e principalmente com corretoras estrangeiras atuando na ponta compradora”, afirmou Gabriel Magno, chefe de alocação e sócio da AW Capital.
A leitura, entretanto, não significa necessariamente que os investidores estejam simplesmente apostando na vitória de um candidato. O mercado também avalia quais propostas podem resultar em mudanças na política fiscal, nos juros, no ambiente de negócios e na gestão das empresas estatais.
O que é o trade eleitoral?
O termo trade eleitoral é usado no mercado financeiro para descrever operações baseadas na expectativa sobre os possíveis efeitos de uma eleição sobre os preços dos ativos.
Antes mesmo de o resultado das urnas ser conhecido, investidores tentam antecipar quais empresas, setores ou indicadores econômicos podem se beneficiar ou ser prejudicados por um eventual governo.
No caso do Banco do Brasil, a lógica é ainda mais direta porque a União é sua controladora.
Assim, pesquisas eleitorais, declarações de candidatos e mudanças nas probabilidades atribuídas a cada cenário podem provocar oscilações relevantes na cotação da BBAS3.
Por que BBAS3 reage mais que outros bancos?
Itaú Unibanco, Bradesco e Santander também são influenciados pelo cenário eleitoral, mas não possuem a mesma relação direta com o governo federal.
Em uma instituição privada, o principal impacto de uma eleição tende a ocorrer por meio de variáveis como juros, inflação, crescimento econômico, emprego e risco fiscal.
No Banco do Brasil, existe ainda o componente político relacionado ao controlador.
Por isso, quando investidores passam a considerar uma possível mudança na orientação do governo, BBAS3 pode apresentar uma reação mais intensa que as ações de bancos privados.
Privatização do Banco do Brasil entrou no radar
A possibilidade de privatização também passou a aparecer entre as hipóteses consideradas por parte do mercado.
O ponto, porém, exige cautela: não existe, até o momento, uma proposta pública confirmada de privatização do Banco do Brasil por Flávio Bolsonaro.
A discussão surgiu em razão do discurso econômico associado ao candidato e de integrantes de sua equipe.
Em entrevista concedida anteriormente, uma das principais colaboradoras econômicas de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, afirmou que a estratégia para as empresas estatais deveria envolver uma avaliação individual dos ativos. A possibilidade de privatizações pontuais foi mencionada, mas não houve anúncio específico envolvendo o Banco do Brasil.
Portanto, a eventual privatização do BB deve ser tratada como uma hipótese especulativa incorporada por alguns investidores, e não como uma promessa eleitoral já definida.
Ativa coloca Banco do Brasil na carteira de setembro
O interesse pelo Banco do Brasil também começou a aparecer nas recomendações de corretoras.
A Ativa Investimentos incluiu BBAS3 em sua carteira recomendada de setembro, com participação de 5%.
A instituição justificou a escolha pela possibilidade de assimetria positiva caso o cenário eleitoral provoque uma reprecificação do risco associado à estatal.
A B3 (B3SA3) também entrou na carteira, com peso de 7,5%. Na mesma revisão, Smart Fit (SMFT3) e Bradesco (BBDC4) foram retirados.
Já o Itaú Unibanco (ITUB4) teve seu peso elevado para 12,75% e passou a representar a maior posição da carteira.
A estratégia mostra que o mercado não está olhando apenas para o Banco do Brasil. A expectativa de retomada do fluxo estrangeiro e de maiores volumes negociados também influencia outras empresas da Bolsa.
Estrangeiros estão voltando para a Bolsa brasileira?
O fluxo de capital estrangeiro também ajuda a explicar a movimentação recente.
Em 20 de agosto, investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 1,2 bilhão da Bolsa brasileira. No pregão seguinte, porém, o fluxo apresentou uma forte reversão, com entrada de aproximadamente R$ 1,76 bilhão.
A movimentação continuou volátil ao longo dos dias seguintes, antes de apresentar sinais mais consistentes de recuperação no fim de agosto e no começo de setembro.
Para o economista Ricardo Coimbra, conselheiro da Apimec Brasil, o investidor estrangeiro não está necessariamente interessado apenas em descobrir quem vencerá a eleição.
A principal preocupação estaria relacionada ao caminho que a política fiscal brasileira poderá tomar a partir de 2027.
Isso significa que o mercado pode reagir tanto a uma pesquisa eleitoral quanto a uma proposta de controle de gastos, uma mudança na meta fiscal ou qualquer sinal que altere a percepção sobre a sustentabilidade das contas públicas.
O lucro do Banco do Brasil melhorou, mas há um problema
Enquanto o mercado antecipa possíveis mudanças políticas, os resultados recentes do Banco do Brasil mostram uma situação mais complexa.
O banco registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026, crescimento de 3,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A carteira de crédito expandida também ultrapassou R$ 1,3 trilhão.
O problema está na qualidade dos ativos.
A inadimplência acima de 90 dias chegou a 5,61% no fim de junho. O indicador foi pressionado tanto pelo crédito rural quanto por algumas modalidades destinadas a pessoas físicas.
Para um banco com forte participação no financiamento do agronegócio, a situação do produtor rural é especialmente relevante.
Crédito rural é um dos principais desafios
O agronegócio possui um peso significativo na operação do Banco do Brasil.
Em junho de 2026, a carteira de crédito destinada ao setor chegou a R$ 421,6 bilhões, crescimento de 4,1% em 12 meses.
O problema é que produtores rurais enfrentaram dificuldades financeiras relacionadas a perdas de safra, eventos climáticos e aumento do endividamento.
Esse movimento elevou a pressão sobre a inadimplência e obrigou o banco a aumentar a atenção sobre o risco de crédito.
Uma recuperação do setor, portanto, pode representar uma melhora importante para os resultados futuros do BB.
MP 1.376 pode ajudar o Banco do Brasil
A Medida Provisória 1.376 também entrou no radar dos analistas.
A medida criou mecanismos para renegociação de determinadas dívidas de produtores rurais e cooperativas afetados por problemas climáticos e dificuldades econômicas.
O Banco do Brasil começou a realizar renegociações relacionadas à medida em agosto.
Segundo informações da instituição, aproximadamente 113 mil clientes do segmento agro possuem operações potencialmente elegíveis às condições previstas, envolvendo até R$ 100 bilhões.
Na prática, a medida pode ajudar produtores a reorganizar suas dívidas e, consequentemente, reduzir gradualmente a pressão sobre a carteira de crédito rural.
O efeito, entretanto, não deve ser confundido com uma melhora imediata dos resultados. A capacidade efetiva de pagamento dos produtores continuará sendo determinante.
Crédito para pessoas físicas também preocupa
O problema do Banco do Brasil não está restrito ao agronegócio.
A carteira de pessoas físicas também apresentou deterioração, especialmente em modalidades como cartão de crédito e crédito consignado.
Isso limita parte do benefício que poderia vir de uma eventual recuperação do crédito rural.
Para os analistas, a melhora dos indicadores do agronegócio precisará ser acompanhada por uma estabilização da inadimplência entre os consumidores para que o banco consiga reduzir de maneira mais consistente seu custo de risco.
XP mantém cautela com BBAS3
Apesar da forte valorização da ação, a XP Investimentos mantém uma visão mais conservadora sobre o papel.
A casa manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 21 para BBAS3, considerando o fim de 2027.
A avaliação leva em consideração a possibilidade de melhora da carteira rural após as renegociações, mas também os desafios enfrentados no crédito para pessoas físicas.
A diferença entre o comportamento da Bolsa e a avaliação da XP mostra justamente o risco do atual movimento.
A ação pode subir com base em expectativas políticas mesmo quando os fundamentos operacionais ainda não apresentaram uma recuperação completa.
E os dividendos do Banco do Brasil?
Os dividendos também exigem atenção.
O Banco do Brasil continua distribuindo proventos aos acionistas, inclusive na forma de juros sobre capital próprio (JCP).
No entanto, analistas avaliam que o espaço para aumentar significativamente o payout — percentual do lucro distribuído aos acionistas — é limitado no curto prazo.
A necessidade de preservar capital e os níveis de capitalização do banco são fatores que podem impedir uma distribuição mais agressiva.
Para quem compra BBAS3 pensando principalmente em renda, portanto, a valorização eleitoral da ação não deve ser confundida com uma perspectiva automaticamente melhor para os dividendos.
O que pode fazer BBAS3 subir ou cair daqui para frente?
A cotação do Banco do Brasil deve continuar bastante sensível a uma combinação de fatores políticos e econômicos.
Entre os principais estão:
- novas pesquisas eleitorais;
- evolução da disputa presidencial;
- propostas econômicas dos candidatos;
- percepção sobre o equilíbrio fiscal;
- fluxo de investidores estrangeiros;
- evolução da inadimplência;
- recuperação do crédito rural;
- impacto das renegociações da MP 1.376;
- política de dividendos;
- juros e atividade econômica.
Uma mudança significativa em qualquer um desses pontos pode alterar a percepção do mercado sobre BBAS3.
BBAS3 está subindo apenas por causa da eleição?
Não.
O cenário eleitoral é atualmente um dos principais catalisadores da ação, mas não explica sozinho todo o movimento.
O fluxo estrangeiro, as perspectivas para os juros brasileiros, a situação do crédito rural e as expectativas de recuperação dos resultados também fazem parte da equação.
Além disso, o preço de uma ação incorpora expectativas futuras. Por isso, uma melhora na percepção sobre o governo que assumirá em 2027 pode provocar uma valorização antes mesmo de qualquer mudança efetiva na operação do Banco do Brasil.
O contrário também é verdadeiro: uma mudança negativa nas expectativas eleitorais pode retirar rapidamente parte desse prêmio.
O que o investidor deve observar antes de comprar BBAS3?

O principal cuidado é separar expectativa eleitoral de fundamento empresarial.
O Banco do Brasil continua sendo uma instituição lucrativa, de grande escala e com forte presença no crédito rural. Ao mesmo tempo, enfrenta inadimplência elevada e precisa recuperar a qualidade de sua carteira.
Quem acompanha BBAS3 deve observar não apenas a cotação, mas também os próximos balanços, o custo de risco, os índices de capital, a inadimplência e a evolução dos dividendos.
A eleição pode ser um poderoso catalisador para o papel, mas não elimina os riscos existentes na operação.
Conclusão
O Banco do Brasil se tornou um dos principais símbolos do trade eleitoral de 2026. A forte valorização de BBAS3 desde agosto mostra que investidores já começaram a incorporar em seus preços diferentes possibilidades para o futuro político e econômico do país.
A hipótese de uma mudança de governo, especialmente diante de uma disputa presidencial mais competitiva, pode favorecer uma reprecificação da estatal. A possibilidade de privatização, entretanto, continua sendo especulativa e não deve ser tratada como uma decisão anunciada.
Ao mesmo tempo, os fundamentos ainda exigem atenção. O lucro cresceu no segundo trimestre, mas a inadimplência permanece elevada e a recuperação do crédito rural será fundamental para os próximos resultados.
Para o investidor, a principal questão agora é acompanhar se o rali eleitoral será confirmado por uma melhora efetiva dos fundamentos do Banco do Brasil ou se parte da valorização já representa apenas uma antecipação das expectativas para 2027.
