Os bancos centrais de diversos países estão promovendo uma mudança gradual na composição de suas reservas internacionais. Pela primeira vez desde o início do levantamento do Official Monetary and Financial Institutions Forum (OMFIF), mais autoridades monetárias afirmam que pretendem reduzir suas reservas em dólar americano do que aumentá-las ao longo da próxima década.
Bancos centrais planejam aumentar reservas de ouro e vender dólares
Pesquisa mostra avanço da desdolarização, maior interesse por euro e ouro e mudanças nas reservas internacionais dos bancos centrais.
O movimento ocorre em um contexto de maior instabilidade geopolítica, disputas comerciais, conflitos internacionais e mudanças na política externa dos Estados Unidos. Embora o dólar continue sendo a principal moeda de reserva do planeta, cresce entre os bancos centrais a busca por maior diversificação, com aumento do interesse pelo euro, pelo renminbi chinês (yuan) e pelo ouro.
A tendência reforça o debate sobre a chamada desdolarização da economia mundial, processo que vem ocorrendo de forma lenta, mas consistente, nos últimos anos.
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Pesquisa revela mudança inédita na estratégia dos bancos centrais

A pesquisa foi conduzida pelo OMFIF entre março e maio e contou com respostas de 74 bancos centrais espalhados por diferentes regiões do mundo.
O levantamento identificou, pela primeira vez, que o número de instituições interessadas em reduzir suas posições em dólar superou aquelas que desejam ampliar a participação da moeda norte-americana em suas reservas internacionais.
Segundo o relatório, o principal fator que motivou essa mudança deixou de ser exclusivamente econômico. A geopolítica passou a ocupar posição central na avaliação dos gestores das reservas cambiais.
O estudo conclui que o aumento das tensões internacionais elevou a percepção de risco associada aos ativos denominados em dólar, especialmente diante das incertezas envolvendo a política externa dos Estados Unidos.
O que são reservas internacionais?
As reservas internacionais representam os ativos mantidos pelos bancos centrais para garantir estabilidade financeira e fortalecer a confiança na economia.
Esses recursos normalmente são compostos por:
- Moedas estrangeiras;
- Ouro;
- Títulos públicos internacionais;
- Direitos Especiais de Saque (SDRs) do Fundo Monetário Internacional (FMI).
As reservas servem para:
- Defender a moeda nacional em momentos de crise;
- Financiar importações;
- Reduzir riscos cambiais;
- Garantir liquidez em situações de instabilidade financeira.
No caso do Brasil, o Banco Central mantém uma das maiores reservas internacionais entre as economias emergentes, funcionando como importante instrumento de proteção contra choques externos.
Por que o dólar continua dominante?
Apesar da tendência de diversificação, o relatório destaca que o dólar permanece amplamente dominante.
Segundo o OMFIF, aproximadamente 58% das reservas dos bancos centrais continuam alocadas na moeda norte-americana, percentual relativamente estável nos últimos cinco anos.
Isso ocorre porque o dólar ainda reúne características difíceis de substituir:
Liquidez global
Os mercados financeiros americanos são os maiores e mais líquidos do mundo.
Segurança dos ativos
Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos continuam sendo considerados um dos investimentos mais seguros do mercado internacional.
Comércio internacional
Grande parte das transações comerciais globais ainda é realizada em dólar, principalmente nos mercados de commodities como petróleo, gás natural e diversas matérias-primas.
Sistema financeiro consolidado
A infraestrutura financeira internacional permanece fortemente baseada na moeda americana.
Por esses motivos, especialistas avaliam que qualquer redução da importância do dólar tende a ocorrer de maneira gradual, sem substituição imediata.
Geopolítica ganha peso nas decisões
O relatório mostra que, em 2025, a geopolítica ultrapassou fatores domésticos dos Estados Unidos como principal elemento de preocupação para os bancos centrais.
Conflitos internacionais, disputas comerciais, sanções econômicas e mudanças frequentes na política externa passaram a influenciar diretamente as estratégias de diversificação das reservas.
Esse cenário aumentou a busca por ativos considerados menos expostos aos riscos políticos internacionais.
Euro ganha espaço nas reservas internacionais
Entre as moedas que mais despertam interesse está o euro.
A pesquisa mostra que:
- 29% dos bancos centrais pretendem aumentar suas reservas em euro no longo prazo;
- No levantamento anterior, esse percentual era de 22%;
- Dois terços dos entrevistados consideram que o euro se tornou mais atrativo para o comércio internacional.
Outro fator citado no relatório é o crescimento do mercado europeu de títulos sustentáveis.
Segundo o documento, a dívida internacional denominada em euros atingiu níveis recordes em 2025, fortalecendo o papel da moeda europeia nos mercados financeiros globais.
Renminbi amplia presença internacional
Outra moeda que aparece como beneficiária da diversificação é o renminbi, também conhecido como yuan chinês.
Quase todos os bancos centrais participantes afirmaram que a moeda chinesa contribui para ampliar a diversificação das reservas.
Embora sua participação global ainda seja relativamente pequena quando comparada ao dólar e ao euro, o crescimento da influência econômica da China vem ampliando gradualmente sua utilização em acordos comerciais internacionais.
Nos últimos anos, diversos países passaram a firmar contratos bilaterais utilizando moedas locais ou o próprio renminbi, reduzindo parcialmente a dependência do dólar em determinadas operações.
Ouro volta ao centro das estratégias
Além das moedas estrangeiras, o ouro voltou a ocupar posição de destaque na gestão das reservas internacionais.
Segundo o levantamento, uma parcela recorde dos bancos centrais pretende ampliar seus investimentos no metal precioso, mesmo após uma valorização superior a 20% em relação ao ano anterior.
O principal motivo é a busca por proteção contra riscos geopolíticos.
Entre os participantes da pesquisa:
- 51% citaram o risco geopolítico como principal razão para comprar ouro;
- Esse percentual representa aumento de 11 pontos percentuais em relação a 2024.
Historicamente, o ouro é visto como um ativo de proteção em períodos de elevada incerteza econômica ou política.
Por não depender da política monetária de um único país, ele costuma ganhar relevância durante momentos de instabilidade internacional.
Outras moedas também despertam interesse
O relatório também aponta crescimento da demanda por moedas consideradas alternativas.
Entre elas estão:
- Dólar de Singapura;
- Won sul-coreano;
- Rand sul-africano.
Embora representem uma parcela pequena das reservas globais, essas moedas passaram a integrar estratégias de diversificação de alguns bancos centrais.
O objetivo é reduzir a concentração excessiva em poucos ativos e ampliar a resiliência das reservas internacionais.
O que significa a desdolarização?
A desdolarização é o processo de redução da dependência do dólar nas relações econômicas internacionais.
Ela pode ocorrer de diversas formas:
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Diversificação das reservas
Os bancos centrais aumentam a participação de outras moedas e do ouro.
Comércio bilateral
Países passam a negociar utilizando moedas locais em vez do dólar.
Emissão de dívida
Governos e empresas captam recursos em outras moedas.
Sistemas alternativos de pagamentos
Algumas economias desenvolvem mecanismos financeiros independentes da infraestrutura tradicional baseada no dólar.
Apesar da crescente discussão sobre o tema, especialistas destacam que a desdolarização não significa o fim da liderança da moeda americana, mas sim uma distribuição mais equilibrada entre diferentes ativos internacionais.
Impactos para o Brasil
Para o Brasil, o avanço da diversificação das reservas internacionais pode produzir efeitos indiretos.
Entre eles estão:
Maior volatilidade cambial
Mudanças na demanda global por moedas podem influenciar as taxas de câmbio ao longo do tempo.
Novas oportunidades comerciais
A ampliação do uso de moedas alternativas pode facilitar acordos bilaterais entre parceiros comerciais.
Gestão das reservas
O Banco Central do Brasil acompanha constantemente a evolução dos mercados internacionais para definir a composição mais adequada das reservas do país.
Mercado financeiro
Investidores acompanham essas mudanças para avaliar riscos cambiais e oportunidades em diferentes ativos internacionais.
O dólar continuará sendo a principal moeda global?
A resposta mais provável é sim, pelo menos no médio prazo.
Embora a pesquisa revele uma mudança importante nas intenções dos bancos centrais, o próprio relatório do OMFIF destaca que o dólar deverá permanecer dominante no futuro previsível.
A moeda americana continua oferecendo elevada liquidez, ampla aceitação internacional, mercados financeiros profundos e ativos considerados de baixo risco.
No entanto, cresce o consenso de que o sistema monetário internacional tende a se tornar mais diversificado ao longo da próxima década, com maior participação do euro, do renminbi, do ouro e de outras moedas relevantes.
Perspectivas para os próximos anos

Os resultados da pesquisa indicam uma transformação gradual, e não uma ruptura imediata, na arquitetura financeira internacional.
Os bancos centrais estão adotando estratégias mais diversificadas para reduzir riscos decorrentes da concentração excessiva em uma única moeda. Ao mesmo tempo, fatores geopolíticos passaram a exercer influência crescente sobre decisões que antes eram guiadas principalmente por critérios econômicos e financeiros.
Esse movimento pode levar, ao longo dos próximos anos, a um sistema monetário mais multipolar, no qual dólar, euro, renminbi, ouro e outras moedas compartilhem de forma mais equilibrada o papel de ativos de reserva. Ainda assim, a liderança do dólar permanece sólida, sustentada pela dimensão da economia dos Estados Unidos, pela profundidade de seus mercados financeiros e pela confiança que continua inspirando entre investidores e autoridades monetárias ao redor do mundo.
Conclusão
A pesquisa do OMFIF reforça que a desdolarização avança de forma gradual, impulsionada principalmente pelo aumento das incertezas geopolíticas e pela busca dos bancos centrais por maior segurança e diversificação. Embora o dólar continue sendo a principal moeda de reserva global, o crescimento do interesse por euro, renminbi e ouro indica uma transformação lenta, mas relevante, na composição das reservas internacionais, que poderá influenciar o equilíbrio do sistema financeiro mundial nos próximos anos.
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
