O Banco do Brasil (BB) consolidou posição de liderança no segmento de crédito consignado privado, modalidade aberta recentemente pelo governo federal.
Bancos públicos lideram avanço no novo crédito consignado privado
Banco do Brasil concentra 25% do crédito consignado privado, liderando com R$ 3,8 bi, acima de grandes privados; Caixa e fintechs reagem.
Em apenas quatro meses desde o lançamento, o BB já emprestou R$ 3,8 bilhões, o que representa 25% do total de R$ 14,9 bilhões concedidos até 18 de junho pelas 52 instituições autorizadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
A performance expressiva supera o volume somado dos quatro maiores bancos privados — Itaú, Bradesco, Santander e Caixa —, que atingiu R$ 2,9 bilhões, ou 19% do total.
Essa atuação acentuada dos bancos públicos atende à estratégia do governo de estimular a concessão de crédito, aumentar a concorrência e apoiar a economia em meio a um cenário de desaceleração. Além disso, reforça o papel das instituições estatais no apoio à inclusão financeira dos trabalhadores.
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O que é o crédito consignado privado e como foi estruturado

Origem e regulamentação da modalidade
O crédito consignado privado é uma linha de empréstimo com desconto em folha direcionada a trabalhadores da iniciativa privada. Criada em fevereiro de 2025, integra o programa oficial de Crédito do Trabalhador, já existente para servidores públicos e aposentados do INSS.
A modalidade foi implementada por meio de parceria entre o governo federal, o MTE e o Banco Central, com objetivo de ampliar a oferta de crédito e retomar o dinamismo econômico.
Regras básicas e funcionamento
- Público-alvo: trabalhadores com carteira assinada
- Desconto em folha: até 35% da renda líquida
- Benefícios: menores taxas de juros e maior capacidade de planejamento financeiro para os tomadores
- Instituições autorizadas: 52 bancos, financeiras e fintechs
Até meados de junho, o programa já totalizou R$ 14,9 bilhões em empréstimos.
Banco do Brasil lidera com R$ 3,8 bilhões: estratégia e impacto
Perfil da atuação do BB
O volume expressivo concedido pelo Banco do Brasil, de R$ 3,8 bilhões, representa um quarto do total e reforça sua estratégia agressiva no segmento. O movimento coloca o BB à frente dos maiores bancos privados unidos, demonstrando capacidade operacional e disposição para ampliar a carteira de crédito.
Essa atuação do BB está alinhada à orientação do governo de usar bancos públicos como motores de estímulo à economia, especialmente diante de expectativas de desaceleração.
Comparativo com os grandes e com o mercado
Enquanto o BB destaca-se pela oferta robusta, bancos privados como Itaú e Bradesco mantêm uma postura mais comedida, apesar de relevantes.
O Itaú aparece como segundo maior, e a Caixa Econômica Federal figura em seguida, com cerca de 8% do total, reforçando atuação em linhas específicas como crédito habitacional.
As instituições privadas menores — fintechs e financeiras — tiveram papel fundamental ao pulverizar o crédito, mesmo que operem com taxas mais elevadas.
Caixa Econômica Federal: papel estratégico com taxas agressivas
Desempenho e participação
A Caixa Econômica Federal alcançou cerca de 8% do total de empréstimos no consignado privado, mantendo desempenho compatível com seu perfil e capacidade no setor, especialmente voltado ao crédito habitacional.
A presença da Caixa reforça a importância dos bancos institucionais na oferta de serviços que exigem capilaridade e robustez operacional.
Taxa de juros competitiva
A Caixa destacou-se pela menor taxa de juros média entre os grandes bancos, cobrando 2,48% ao mês, perdendo apenas para o Bradesco, que embora com operação menor (menos de 1% do total), oferece taxa ainda mais agressiva com 2,07% ao mês.
Os valores médios estão abaixo da taxa geral do programa (3,47%), indicada pelo MTE, resultante da composição com juros de financeiras e fintechs.
Taxas de juros: fenômeno e tensões
Panorama geral do programa
- Taxa média do mercado: 3,47% ao mês
- Banco do Brasil e Itaú: ~2,81% ao mês
- Santander: 3,06%
- Caixa: 2,48%
- Bradesco: 2,07%
As taxas médias iniciais sofreram modesto recuo desde o lançamento.
A ministração do Trabalho, liderada por Luiz Marinho, monitora com atenção, classifica como “abusivos” valores muito acima da média e sinaliza possíveis medidas punitivas, incluindo suspensão ou exclusão de instituições do programa.
Quem pratica as maiores taxas
As financeiras e fintechs — responsáveis por uma fatia maior do volume restante — tendem a cobrar juros acima da média, elevando o índice geral.
Instituições formadas por parcerias rápidas ou capital mais receoso ainda preservam margens elevadas, enquanto bancos públicos operam com taxas mais baixas, sustentadas por políticas de estímulo.
Repercussão e objetivo do governo
Estímulo à economia e à concorrência
O uso dos bancos públicos como instrumentos de política econômica busca atender dois objetivos centrais:
- Fomentar o consumo e apoiar as famílias, justamente em um momento de crescimento econômico mais lento
- Promover competição, subindo o piso de taxas e pressionando o conjunto do mercado
Agenda para além do consignado
O governo amplia atuação via bancos públicos, com propostas de financiamentos para o setor informal, compra de motocicletas por entregadores e seleções focadas em públicos vulneráveis. A expectativa é a adoção de medidas complementares com recursos limitados pelo orçamento e elevada taxa básica (Selic).
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Eleições e contexto político
A agenda de expansão do crédito por bancos públicos deve se intensificar com a proximidade das eleições, quando decisões econômicas ganham peso de instrumentos de campanha. Ainda que aparelhada por limitações fiscais, a política de crédito ajuda a manter níveis próximos ao pleno emprego.
Riscos e desafios para o sistema financeiro
Sustentabilidade e controle de riscos
A expansão rápida de consignado impõe desafios importantes:
- Risco de inadimplência: crédito disciplinado por folha, mas dependente de emprego formal em contexto econômico frágil
- Exposição dos bancos públicos: caso ocorra crise econômica, BB e Caixa podem absorver impacto fiscal
- Fiscalização necessária: resolução de taxas abusivas e retomada consciente é essencial
Monitoramento regulatório
O MTE e o Banco Central acompanham de perto: já rasaram o tema “juros abusivos” e cogitam sanções administrativas. O ambiente se aproxima ao enfrentado em episódios anteriores onde crédito subsidiado ganhou acompanhamento especial — caso de empréstimos emergenciais na pandemia.
O que esperar para os próximos meses

Cenário a curto prazo
- Aumento do volume: mais instituições devem aderir, velocidade de concessão mais acelerada
- Competição por taxas: expectativa de recuo da média acima dos 3%
- Punições em jogo: MTE em posição preventiva para coibir abusos
Perspectiva de médio prazo
- Eleição de 2026: política de crédito com vigência no calendário político
- Estratégias públicas: pacote de produtos direcionados e fortalecimento de agências como a CEF
- Inovação fintech: movimento de consolidação com serviços concorrentes, automatizados, combos financeiros
Conclusão: bancos públicos em ação e impacto financeiro
O desempenho do Banco do Brasil, com R$ 3,8 bilhões concedidos em empréstimos consignados privados, redefine a imagem dos bancos públicos como protagonistas no estímulo ao crédito no Brasil.
Superando a soma dos quatro maiores bancos privados em volume e mantendo taxas competitivas, o BB mostra como políticas públicas e capacidade operacional podem influenciar o ritmo econômico.
A Caixa Econômica, por sua vez, contribui com crescimento e serve de referência nos debates sobre taxas justas, ampliando alternativas ao consumidor. O desafio financeiro, contudo, permanece: conciliar expansão com sustentabilidade fiscal e controle da inadimplência.
As medidas de fiscalização, especialmente contra práticas predatórias de juros, reforçam a busca por equilíbrio entre oferta ampla de crédito e proteção ao trabalhador.
A evolução desse programa será essencial para medir sua real capacidade de alavancar o consumo e oferecer modelos de colaboração entre entes públicos e instituições privadas.
Com o calendário eleitoral ao virar da esquina, os bancos públicos se posicionam como peças-chave na agenda econômica, respondendo não só a movimentos de mercado, mas também a demandas políticas e sociais.
A pergunta que fica: até que ponto esses instrumentos serão utilizados como ferramentas de governança e até onde sustentarão sua viabilidade diante de pressões fiscais?
O cenário segue aberto. A competição pelo crédito consignado não será apenas uma disputa de números, mas um teste sobre a robustez, governança e direção da economia brasileira nos próximos anos.
