A biometria facial já se tornou parte da rotina de bancos, fintechs, empresas e serviços digitais. Agora, uma tecnologia que identifica padrões das veias da palma da mão começa a ganhar espaço como alternativa para autenticação presencial, especialmente em pagamentos, transporte e controle de acesso.
A mudança ocorre em meio ao avanço de fraudes digitais e de ferramentas de inteligência artificial capazes de produzir imagens, vídeos e outros conteúdos falsificados. A proposta da biometria vascular é acrescentar uma camada de identificação baseada em características que ficam sob a pele.
A tecnologia não é exatamente nova. Sistemas de reconhecimento pelas veias da mão são pesquisados e utilizados comercialmente há anos. O que muda agora é a tentativa de ampliar seu uso para situações cotidianas, como entrar em um estabelecimento ou realizar um pagamento sem cartão ou celular.
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Como funciona a biometria das veias da mão

O sistema utiliza sensores capazes de emitir luz infravermelha próxima. Como determinados componentes do sangue absorvem essa faixa de luz, o equipamento consegue visualizar o desenho das veias sob a pele.
O padrão capturado é transformado em uma representação biométrica e comparado com um registro previamente cadastrado. Em sistemas desse tipo, a mão não precisa necessariamente encostar no leitor. A Fujitsu, por exemplo, desenvolveu uma tecnologia de leitura sem contato baseada justamente nesse princípio.
A principal diferença em relação a uma fotografia convencional está no tipo de informação analisada. Enquanto uma câmera comum registra características visíveis, o sensor infravermelho procura um padrão vascular que não pode ser observado simplesmente olhando para a mão.
Além das veias, algumas soluções também combinam características como formato, linhas e estrutura da mão. A tecnologia apresentada pela Tencent e citada pelo InfoMoney, por exemplo, utiliza diferentes elementos para realizar a autenticação.
Por que as veias podem dificultar fraudes?
A biometria vascular explora uma característica que fica dentro do corpo. Isso cria uma barreira adicional para tentativas de falsificação baseadas apenas em imagens.
A Fujitsu afirma que seu sistema detecta o padrão das veias por meio do fluxo sanguíneo e utiliza essa informação para autenticar o usuário. A empresa também informa que a tecnologia consegue trabalhar com milhões de pontos de referência no desenho vascular da palma.
Isso não significa que qualquer sistema biométrico seja invulnerável. Segurança depende também do sensor, do algoritmo, do armazenamento dos dados, da arquitetura do sistema e das demais etapas de autenticação.
Por essa razão, especialistas ouvidos pelo InfoMoney avaliam que a tendência não é simplesmente abandonar a biometria facial, mas combinar diferentes mecanismos de identificação de acordo com o risco de cada operação.
Biometria da mão é mais segura que a facial?
Não existe uma resposta universal que permita dizer que uma tecnologia é sempre mais segura do que outra. O desempenho depende da solução utilizada, das condições de operação e da forma como o sistema foi implementado.
No caso da biometria vascular, uma das vantagens apontadas é o fato de o padrão analisado estar sob a pele. Isso dificulta a obtenção da característica por terceiros em comparação com informações que podem ser facilmente fotografadas.
A Fujitsu, por exemplo, divulga taxas específicas de falsa aceitação e falsa rejeição para o PalmSecure. Esses números, porém, correspondem à solução e às condições de teste da própria empresa e não devem ser tratados como uma medida universal para toda biometria palmar disponível no mercado.
No caso das novas soluções de palma apresentadas no mercado brasileiro, executivos ouvidos pelo InfoMoney também divulgaram índices próprios de desempenho. Como são informações fornecidas pelos fabricantes ou empresas envolvidas, devem ser interpretadas dentro desse contexto.
Onde a tecnologia já está sendo utilizada?
A aplicação mais conhecida da biometria vascular está relacionada a ambientes nos quais é necessário confirmar rapidamente a identidade de uma pessoa.
Entre os possíveis usos estão:
- controle de acesso a empresas e instalações;
- pagamentos;
- transporte público;
- autenticação em terminais;
- acesso a ambientes restritos;
- sistemas financeiros;
- identificação em equipamentos corporativos.
A tecnologia da Fujitsu, por exemplo, já foi desenvolvida para aplicações de controle de acesso, sistemas corporativos e instituições que precisam de autenticação biométrica.
Na China, soluções de reconhecimento da palma também vêm sendo utilizadas em estabelecimentos comerciais e transporte. Segundo informações apresentadas pela Tencent e reproduzidas pelo InfoMoney, a tecnologia PalmAI já soma dezenas de milhões de usuários e bilhões de transações processadas.
A mão pode substituir cartão, celular e documento?
Essa é uma das possibilidades que mais chamam atenção no avanço da tecnologia.
A ideia defendida por empresas do setor é vincular a identidade biométrica do usuário a serviços previamente autorizados. Dessa maneira, uma pessoa poderia aproximar a mão de um equipamento para confirmar sua identidade e, dependendo da infraestrutura disponível, concluir uma compra ou liberar determinado acesso.
Na prática, seria possível imaginar uma sequência em que a mesma autenticação fosse utilizada para entrar em um evento, acessar uma área restrita e realizar uma compra.
Esse cenário, porém, depende de integração entre empresas, sistemas de pagamento, bancos, operadores de transporte e plataformas de identidade. Portanto, a tecnologia por si só não significa que cartões e celulares deixarão de ser necessários.
E como ficam os dados biométricos no Brasil?
Esse é um dos principais pontos da discussão.
No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) classifica dados biométricos vinculados a uma pessoa natural como dados pessoais sensíveis. Isso significa que seu tratamento está sujeito a regras específicas de proteção.
A legislação estabelece hipóteses específicas para o tratamento desses dados. Entre elas está a prevenção à fraude e a segurança do titular em processos de identificação e autenticação em sistemas eletrônicos, desde que sejam respeitados os direitos previstos na própria lei.
A LGPD também determina que empresas e organizações adotem medidas técnicas e administrativas para proteger informações pessoais contra acessos não autorizados, perda, alteração, destruição ou tratamento inadequado.
Por isso, a adoção de uma tecnologia de reconhecimento da palma não envolve apenas instalar um sensor. É necessário definir como os dados serão coletados, protegidos, utilizados e eventualmente compartilhados.
O que acontece se uma biometria vazar?
Existe uma diferença importante entre uma senha e uma característica biométrica.
Uma senha pode ser alterada. Se uma senha for comprometida, o usuário pode criar outra. Já uma característica física, como o padrão vascular da mão ou o rosto, não pode simplesmente ser substituída.
Isso torna a proteção da informação biométrica especialmente relevante. A própria LGPD estabelece obrigações de segurança para agentes que realizam o tratamento de dados pessoais.
Outro aspecto importante é entender que sistemas biométricos normalmente não precisam guardar uma fotografia convencional da característica utilizada. Dependendo da arquitetura, o sistema pode transformar a informação capturada em um modelo matemático ou template para comparação.
Ainda assim, o usuário deve verificar qual informação é efetivamente armazenada, por quanto tempo, para qual finalidade e quem poderá acessá-la.
A biometria facial vai desaparecer?
A tendência apontada por especialistas é justamente o contrário.
A biometria facial continua tendo uma vantagem prática: câmeras já estão presentes em praticamente todos os smartphones. Isso facilita sua utilização em aplicativos bancários, serviços digitais e processos de verificação remota.
A biometria da palma apresenta outra característica: pode ser especialmente interessante em ambientes físicos equipados com sensores próprios.
Por isso, as duas tecnologias podem coexistir. Um banco, por exemplo, pode utilizar reconhecimento facial em um aplicativo e outro fator de autenticação em uma operação presencial de maior risco.
O futuro pode combinar várias biometrias
O avanço da inteligência artificial também está levando empresas de segurança a procurar mecanismos adicionais de identificação.
Além da biometria facial e vascular, existe a chamada biometria comportamental, que analisa padrões de interação de uma pessoa com dispositivos e sistemas. A forma de movimentar o aparelho, navegar por uma aplicação ou realizar determinadas ações pode ser usada como mais uma camada de segurança.
A lógica é semelhante à de uma porta com várias fechaduras: quanto maior o risco da operação, mais mecanismos podem ser combinados antes de autorizar uma ação.
Nesse modelo, a autenticação não depende necessariamente de uma única característica. Ela pode reunir biometria, dispositivo, localização, comportamento e outros fatores de segurança.
O que muda para o consumidor?

Para o usuário, a principal mudança potencial é a redução da dependência de objetos físicos para determinadas tarefas.
Em um cenário de ampla adoção, seria possível utilizar a palma da mão para confirmar identidade, liberar uma entrada ou autorizar uma transação. A experiência poderia ser rápida e sem contato físico.
Mas conveniência e segurança precisam caminhar juntas. Como a biometria é um dado sensível, o consumidor deve prestar atenção às informações fornecidas pela empresa responsável pelo serviço, principalmente sobre finalidade, armazenamento e proteção dos dados.
A tecnologia ainda está em processo de expansão e não substitui automaticamente os métodos existentes. Seu avanço dependerá tanto da evolução dos sensores quanto da aceitação dos consumidores, da infraestrutura disponível e das regras de proteção de dados.
Conclusão
A biometria das veias da mão surge como uma alternativa para reforçar a segurança em um momento de avanço das fraudes digitais e das falsificações produzidas por inteligência artificial. Ao analisar características internas do corpo, a tecnologia amplia as possibilidades de autenticação e pode ganhar espaço em pagamentos, controle de acesso e outros serviços.
A tendência, porém, não é necessariamente substituir a biometria facial, mas combinar diferentes métodos de identificação. Para o consumidor, a expansão desse recurso também traz uma preocupação essencial: garantir que os dados biométricos sejam coletados e protegidos de acordo com as regras de privacidade previstas na LGPD.
