O Banco Central reduziu a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano na quarta-feira (16). Apesar do quinto corte consecutivo, representantes da indústria, do comércio e da construção civil avaliam que os juros continuam elevados e ainda dificultam a retomada dos investimentos e do crédito.
A redução de 0,25 ponto percentual representa algum alívio para empresas e consumidores, mas seus efeitos não são imediatos. A taxa básica permanece em dois dígitos, enquanto setores produtivos defendem uma redução mais significativa para estimular projetos de longo prazo.
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Por que o corte da Selic foi considerado insuficiente?

A principal crítica das entidades empresariais está no nível ainda elevado dos juros. Mesmo após a redução, a Selic permanece em 13,75% ao ano, o que mantém elevado o custo de financiamento para empresas e consumidores.
Na avaliação de representantes do setor produtivo, a permanência de juros altos por um período prolongado dificulta decisões como ampliar fábricas, comprar máquinas, iniciar empreendimentos imobiliários e contratar crédito para capital de giro.
O impacto é especialmente relevante para atividades que dependem de financiamento e trabalham com projetos de longo prazo.
Construção civil sente os efeitos dos juros elevados
A construção civil está entre os setores mais sensíveis à política de juros, já que grande parte dos empreendimentos depende de financiamento e exige planejamento por vários anos.
O setor recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três primeiros meses do ano. Apesar disso, apresentou crescimento de 1% na comparação anual e acumulou alta de 1,1% no primeiro semestre.
Para a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a redução da Selic é positiva, mas ainda não é suficiente para eliminar as dificuldades provocadas pelo custo elevado do crédito.
Na prática, juros maiores podem fazer incorporadoras adiarem lançamentos, reduzirem investimentos ou revisarem projetos para diminuir os custos financeiros.
Como a Selic influencia o crédito?
A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela não determina diretamente quanto cada consumidor pagará em um empréstimo, financiamento ou cartão de crédito, mas serve como uma das principais referências para o custo do dinheiro.
Quando a taxa básica está elevada, o crédito tende a ficar mais caro. Isso pode reduzir o consumo e fazer empresas postergarem investimentos.
A transmissão também ocorre de maneira gradual. Uma redução de 0,25 ponto percentual não significa que todas as taxas bancárias cairão automaticamente na mesma proporção.
Além da Selic, os bancos consideram fatores como risco de inadimplência, prazo da operação, garantias e custos administrativos.
Comércio também enfrenta perda de ritmo
Os efeitos dos juros elevados também aparecem no consumo. Com financiamentos e empréstimos mais caros, famílias podem adiar compras de maior valor, enquanto empresas podem reduzir estoques e investimentos.
O comércio varejista registrou queda de 0,8% no volume de vendas em julho, na comparação com junho, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Cinco das oito atividades pesquisadas apresentaram retração.
No varejo ampliado, que inclui segmentos como veículos e materiais de construção, houve crescimento de 0,4% no período.
Os resultados mostram que o comportamento da economia não é uniforme entre os setores, mas o custo do crédito continua sendo um dos fatores acompanhados por empresas e consumidores.
Por que o Banco Central não reduz os juros mais rapidamente?
A decisão sobre a Selic considera principalmente o comportamento da inflação e das expectativas para os preços, além das condições da atividade econômica e do cenário financeiro.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 4,22% em 12 meses até agosto de 2026. No mês, o índice registrou queda de 0,32%.
Mesmo com a inflação mensal negativa, o acumulado ainda está acima da meta central de inflação de 3%.
Por isso, o Banco Central precisa avaliar se uma redução mais rápida dos juros poderia dificultar o controle da inflação. Ao mesmo tempo, uma política monetária muito restritiva pode contribuir para desacelerar o consumo e os investimentos.
Atividade econômica também perdeu força
Indicadores recentes mostram sinais de desaceleração da economia brasileira.
O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), utilizado como uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), caiu 0,22% em julho, depois de uma retração de 0,64% em junho.
No trimestre encerrado em julho, o indicador ficou 0,3% abaixo do trimestre anterior. Na comparação de 12 meses, porém, ainda registrava crescimento de 1,5%.
Isso significa que a economia não deixou de crescer em todas as medidas, mas alguns indicadores recentes apontam perda de velocidade.
O que muda para o consumidor?
A queda da Selic pode melhorar gradualmente as condições financeiras, mas não significa que empréstimos e financiamentos ficarão imediatamente mais baratos.
O consumidor deve observar a taxa efetivamente cobrada pela instituição financeira, principalmente o Custo Efetivo Total (CET), que reúne juros, tarifas, impostos e outros encargos.
Para quem pretende contratar um financiamento, por exemplo, uma pequena redução na taxa pode representar economia ao longo de vários anos. Porém, é necessário comparar diferentes instituições antes de fechar o contrato.
Já para quem possui dinheiro aplicado em investimentos de renda fixa atrelados à Selic ou ao CDI, novas reduções podem diminuir a rentabilidade dessas aplicações.
E para as empresas?
Para as empresas, juros menores podem reduzir gradualmente o custo de financiamento e facilitar decisões de investimento.
O impacto tende a ser maior caso o Banco Central mantenha uma trajetória de cortes por um período prolongado. Uma redução isolada, entretanto, produz um efeito mais limitado.
Empresas também podem se beneficiar de um eventual aumento do consumo, caso condições de crédito mais favoráveis estimulem as compras das famílias.
Por outro lado, o ritmo dessa transmissão depende das condições do mercado financeiro e da confiança dos empresários e consumidores.
A Selic pode cair novamente?

O Banco Central não estabeleceu antecipadamente uma trajetória para os próximos cortes. As decisões continuarão sendo tomadas conforme os novos dados de inflação, atividade econômica e expectativas.
Projeções de mercado podem apontar diferentes possibilidades para a taxa no fim do ano, mas elas não representam uma decisão oficial do Banco Central e podem mudar com a divulgação de novos indicadores.
Por isso, o próximo movimento da Selic dependerá das condições econômicas observadas nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).
Conclusão
A redução da Selic para 13,75% representa a continuidade do ciclo de cortes iniciado em 2026, mas os juros ainda permanecem elevados para setores como indústria, comércio e construção civil.
Para as empresas, o principal desafio continua sendo o custo do crédito, que pode limitar investimentos e projetos de longo prazo. Para os consumidores, uma eventual sequência de cortes pode melhorar gradualmente as condições de financiamento, mas não garante redução imediata das taxas bancárias.
Os próximos dados de inflação e atividade econômica serão fundamentais para determinar o ritmo da política monetária. Até lá, a Selic continua sendo um dos principais indicadores para acompanhar o custo do dinheiro no país.
