O mês de abril começou turbulento para o Bitcoin, abalado por declarações do presidente Donald Trump sobre tarifas comerciais que reacenderam a tensão entre Estados Unidos e China. Inicialmente, a principal criptomoeda do mercado reagiu como outros ativos de risco, despencando com o aumento da aversão ao risco.
Bitcoin se recupera após Tarifaço de Trump: Perspectivas, riscos e oportunidades
Após forte queda com anúncio de tarifas por Trump, o Bitcoin surpreende e fecha abril em alta. Analistas avaliam riscos geopolíticos, juros nos EUA e o futuro da criptomoeda como reserva de valor.
No entanto, ao longo das semanas seguintes, o BTC não apenas apagou as perdas como encerrou o mês em franca valorização, superando até mesmo o desempenho do ouro — ativo tradicionalmente buscado como proteção em tempos de incerteza.
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O impacto das tarifas: um começo difícil para o BTC
No dia 2 de abril de 2025, Donald Trump surpreendeu ao anunciar um novo pacote tarifário com foco na China, reacendendo uma guerra comercial que parecia adormecida desde o fim de seu mandato anterior. A reação dos mercados foi imediata: ações globais caíram, o dólar perdeu força e o Bitcoin despencou.
O pior momento veio em 7 de abril, quando a criptomoeda tocou a mínima de US$ 74.508, segundo dados da CoinGecko — o menor nível desde novembro de 2024.
No mesmo período, o S&P 500 recuou 2,5%, a Nasdaq cedeu 1,34% e o índice do dólar DXY teve queda de 4,6%. Já o ouro, visto como porto seguro, subiu 5,4%, chegando a renovar seu recorde histórico no dia 21 de abril.
A surpreendente virada: Bitcoin se descola dos ativos de risco

Apesar do susto inicial, o Bitcoin mostrou resiliência e iniciou uma recuperação consistente a partir da segunda semana do mês. No fechamento de 28 de abril, a criptomoeda era negociada a US$ 94.908 — um salto de mais de 27% desde a mínima do mês e uma valorização de 12,2% em relação ao preço do início do tarifaço.
Esse comportamento divergente em relação a outros ativos de risco reforça a visão de que o Bitcoin transita entre ser uma aposta especulativa e um ativo de proteção contra choques econômicos e geopolíticos. Para muitos analistas, essa oscilação é parte natural do amadurecimento da moeda digital.
Entre o risco e a proteção: a identidade ambígua do Bitcoin
De um lado, o Bitcoin sofre com choques de liquidez, como qualquer ativo de risco. De outro, é cada vez mais percebido como uma alternativa de reserva de valor, especialmente quando moedas fiduciárias como o dólar enfrentam desvalorização e incertezas fiscais.
Segundo Matheus Gutierrez, analista da Levante Investimentos, isso explica por que o Bitcoin e o ouro subiram simultaneamente nas últimas semanas:
“O mercado busca proteção diante da expectativa de que o dólar perca valor, tanto por conta da inflação persistente quanto pelas fragilidades fiscais dos EUA. Nesse contexto, ouro e Bitcoin cumprem funções complementares como instrumentos de hedge”, analisa.
Criptomoeda se descola de fatores externos?
Para Theodoro Fleury, diretor da QR Asset, a reação positiva do BTC após o baque inicial evidencia sua maturação como ativo independente:
“O Bitcoin caiu com a aversão ao risco, mas logo voltou a subir. Isso é um comportamento saudável. Como uma moeda descentralizada, ele não deveria ser diretamente afetado por tarifas comerciais. O mercado parece entender isso cada vez mais.”
Perspectivas de curto prazo: consolidação à vista
De acordo com a analista técnica Ana de Mattos, parceira da plataforma Ripio, o Bitcoin deve entrar em uma fase de consolidação, testando níveis de resistência e suporte em uma faixa mais estável de preço.
“O movimento atual indica que o BTC está formando uma base sólida, o que pode abrir caminho para uma nova perna de alta nas próximas semanas, desde que o cenário macro permita”, afirma.
Três fatores que podem afetar o preço do Bitcoin
Segundo especialistas consultados, três elementos principais devem influenciar o comportamento do BTC no curto prazo:
1. Tensões geopolíticas
A continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia e os desdobramentos diplomáticos entre EUA e China continuam no radar dos investidores. Qualquer escalada pode impactar negativamente o apetite ao risco global.
2. Política comercial dos EUA
Embora o tarifaço de Trump não tenha sido tão agressivo quanto o esperado, a retórica protecionista segue gerando instabilidade nos mercados. Eventuais represálias da China podem criar novas ondas de volatilidade.
3. Política monetária do Fed
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A decisão do Federal Reserve, marcada para 7 de maio, será crucial. Caso os cortes de juros sejam adiados — em razão da inflação ainda elevada — ativos como o Bitcoin podem sofrer pressão. Rony Szuster, diretor de pesquisa da Mercado Bitcoin, explica:
“Juros altos por mais tempo mantêm os ativos de risco sob pressão. Se o Fed sinalizar continuidade do aperto monetário, a valorização do BTC pode perder fôlego temporariamente.”
Perspectiva de longo prazo: fundamentos continuam sólidos
Um dos principais fundamentos que sustentam o otimismo de longo prazo com o Bitcoin é sua política monetária rígida. Com emissão limitada a 21 milhões de unidades e eventos periódicos de halving — o último deles ocorrido em abril de 2024 — a escassez da moeda se intensifica com o tempo, favorecendo seu valor.
Adoção institucional e ETFs impulsionam legitimidade
Outro fator relevante é o avanço da adoção institucional. Desde o lançamento dos ETFs à vista de Bitcoin nos EUA, em janeiro de 2024, o mercado ganhou profundidade e liquidez.
De acordo com a plataforma SoSoValue, esses fundos já acumulam US$ 103,34 bilhões em ativos líquidos, representando 5,71% de todo o valor de mercado do BTC, estimado em cerca de US$ 1,8 trilhão.
O Bitcoin como o “novo ouro”?
Para Guilherme Prado, diretor da corretora Bitget no Brasil, a percepção do Bitcoin como uma reserva alternativa ao ouro está se consolidando:
“O ouro ainda é o porto seguro clássico, mas o Bitcoin vem ganhando espaço entre os investidores mais jovens e tecnologicamente orientados. Em momentos de instabilidade, ele passa a ser visto como um ativo resiliente, sobretudo pela sua independência de políticas estatais.”
Conclusão: onde está o Bitcoin no jogo global?

O mês de abril mostrou, mais uma vez, que o Bitcoin não é um ativo para os fracos de coração. Ele balança com o vento da macroeconomia, mas se recupera com a força dos fundamentos. A oscilação observada após o tarifaço de Trump reforça tanto sua vulnerabilidade de curto prazo quanto seu potencial de longo prazo como reserva de valor.
Com a inflação ainda ameaçando a estabilidade do dólar, tensões geopolíticas em ebulição e uma adoção institucional crescente, o Bitcoin está posicionado para desempenhar um papel cada vez mais relevante no sistema financeiro global.
Se o passado recente servir de guia, o investidor atento deve olhar para além da volatilidade e entender o BTC como uma peça estratégica em tempos de incerteza.
