A economia brasileira vive, ao mesmo tempo, um cenário de pleno emprego e de escassez de mão de obra, especialmente em setores que exigem baixa qualificação. Com a taxa de desocupação em apenas 5,6% em agosto de 2025 — a menor desde 2012, segundo o IBGE — empresas de diferentes segmentos relatam dificuldades crescentes para preencher vagas, mesmo com aumento da massa salarial e da informalidade.
Bolsa Família estaria influenciando escassez de mão de obra, dizem empresas
Com pleno emprego, especialistas sugerem redesenho do Bolsa Família para incentivar qualificação e formalização.
Esse contexto reacendeu o debate sobre os efeitos colaterais de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, no mercado de trabalho. Empresários e economistas reunidos na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), no final de setembro, apontaram o programa como um dos fatores que contribuem para a retração da oferta formal de mão de obra.
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Envelhecimento, baixa qualificação e encargos: um tripé estrutural do problema
A queda da taxa de natalidade e o envelhecimento acelerado da população brasileira são apontados como vetores de longo prazo que reduzem o ritmo de entrada de novos trabalhadores no mercado. A isso se somam o alto custo dos encargos trabalhistas da CLT e a baixa qualificação de grande parte da população economicamente ativa, gerando um desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda de trabalho.
Segundo o economista Marcel Solimeo, da ACSP, o problema se agrava em regiões com forte concentração de beneficiários do Bolsa Família. “Há casos em que o número de pessoas recebendo o benefício supera o total de trabalhadores com carteira assinada”, alerta.
O Bolsa Família e o desafio da “porta de saída”
Atualmente, o valor médio do Bolsa Família é de R$ 671,54, com benefícios adicionais para crianças, adolescentes, gestantes e nutrizes. Apesar de essencial para a segurança alimentar de milhões de brasileiros, o programa ainda enfrenta críticas por não oferecer mecanismos eficientes de transição do assistencialismo para a autonomia profissional.
“É necessário manter uma porta de saída para que os beneficiários consigam crescer profissionalmente”, defende Solimeo. A regra de proteção, que permite manter 50% do valor do benefício por até 12 meses após conseguir emprego formal, é vista como um passo positivo, mas insuficiente diante dos desafios atuais.
Impacto em setores com alta demanda por mão de obra
Segmentos como supermercados, padarias, construção civil, agricultura e o comércio em geral são os mais afetados pela escassez de trabalhadores. Em sua maioria, são áreas que absorvem profissionais com baixa escolaridade e oferecem vagas de entrada no mercado.
Empresários relatam que jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade estão optando por trabalhos informais ou por conta própria, o que permite conciliar renda com o recebimento do Bolsa Família. A informalidade, nesse caso, torna-se uma zona de conforto financeiramente vantajosa — embora frágil do ponto de vista da seguridade.
Flexibilidade, apps e aversão ao risco: mudanças culturais no trabalho
Segundo o economista Antonio Lanzana, da FEA-USP, o fenômeno não pode ser explicado apenas pelo Bolsa Família. “Há também uma mudança cultural entre os jovens, que não querem ficar presos a uma única empresa, preferindo atividades com mais flexibilidade, como os aplicativos de entrega e transporte.”
Ele acrescenta que a redução da população economicamente ativa, especialmente na faixa dos 18 aos 29 anos, tem impacto direto na capacidade de reposição da força de trabalho em setores que exigem presença física.
Além disso, muitos trabalhadores hesitam em aceitar um emprego formal por medo de perder o benefício. Mesmo quando o salário é maior, a instabilidade do mercado faz com que o valor fixo e garantido do Bolsa Família seja percebido como mais seguro.
Dados reveladores: estudo do Ibre-FGV aponta efeitos reais

Um estudo recente conduzido pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV) confirmou o impacto do Bolsa Família sobre a participação no mercado de trabalho. Coordenado por Daniel Duque, o levantamento mostrou que o benefício de R$ 600 representa hoje cerca de 35% da renda mediana do trabalho — um salto considerável frente aos 15% de 2019.
Esse aumento coincide com a queda na taxa de participação no mercado de trabalho, especialmente entre homens jovens de 17 a 30 anos. O estudo observou que, entre famílias que passaram a receber o Bolsa Família por conta de uma diferença mínima de renda (de R$ 218 contra R$ 219), a participação no mercado caiu 11%.
“Ou seja, a cada duas famílias que entram no programa, uma sai da força de trabalho formal ou passa à informalidade”, resume Duque.
Expansão acelerada e custo fiscal
Desde a pandemia, o número de beneficiários do Bolsa Família saltou de 14 para 21 milhões, e o orçamento do programa disparou de R$ 35 bilhões para R$ 170 bilhões anuais. Essa explosão de custos também pressiona as contas públicas, obrigando o governo a manter taxas de juros elevadas para controlar a inflação — o que impacta diretamente o crédito, os investimentos e, novamente, a geração de empregos.
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Congelamento como estratégia de transição
Em 2024 e 2025, o governo optou por congelar o valor do benefício para conter desequilíbrios no mercado de trabalho. A ideia é permitir que os salários formais recuperem atratividade frente ao benefício garantido. Com a inflação corroendo o poder de compra do Bolsa Família, a tendência é que mais beneficiários voltem a buscar empregos formais.
No entanto, essa transição exige políticas complementares, como acesso à qualificação profissional e apoio na recolocação. Sem esses pilares, o congelamento pode apenas aumentar a vulnerabilidade.
Um modelo mais eficiente: reformar sem desamparar
Economistas defendem que é possível redesenhar o Bolsa Família para mitigar seus efeitos negativos sobre o mercado de trabalho, sem abrir mão do combate à pobreza. Isso incluiria:
- Foco em mães com filhos pequenos, que enfrentam mais barreiras para acessar o mercado;
- Incentivos à permanência de jovens na escola, evitando evasão para buscar trabalhos informais;
- Benefícios condicionados a cursos de qualificação, como forma de estimular a produtividade;
- Flexibilização temporária de regras, para evitar que o medo de perder o benefício iniba o ingresso em empregos formais.
Resistência política e o dilema do custo-benefício

Apesar dos argumentos técnicos, há uma forte resistência política a mudanças no programa. O valor fixo e padronizado é bem aceito pela população e visto como direito adquirido. Qualquer tentativa de redução ou reformulação enfrenta oposição, especialmente em ano pré-eleitoral.
“O modelo per capita, mais eficiente para combater a pobreza, foi abandonado porque gerava valores diferentes para cada família e dificultava a comunicação pública”, lamenta Daniel Duque.
Segundo ele, o custo político de mexer no Bolsa Família é alto, mas a não realização da reforma pode comprometer o crescimento sustentável da economia no médio e longo prazo.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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