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Expansão do Bolsa Família reduziu busca por trabalho, diz FGV

FGV aponta que a cada duas famílias no Bolsa Família, uma deixa a força de trabalho, mostrando o desafio entre assistência e emprego.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
bolsa familia

A expansão do Bolsa Família, especialmente após a pandemia da Covid-19, trouxe inegáveis avanços sociais. Contudo, um estudo recente do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) revelou um efeito colateral preocupante: para cada duas famílias que recebem o benefício, uma deixa de participar da força de trabalho. A constatação reacende o debate sobre os limites e o papel de políticas públicas de transferência de renda em um país ainda marcado por desigualdades profundas.

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Imagem: Freepik e Canva

A transformação do Bolsa Família: de auxílio modesto a gigante orçamentário

Evolução histórica e aumento do valor médio

Lançado nos anos 2000, o Bolsa Família era um programa com orçamento limitado, voltado para famílias em situação de vulnerabilidade extrema. Em 2019, o benefício médio era de cerca de R$ 190. A pandemia alterou essa estrutura: com o Auxílio Emergencial, o valor saltou e chegou à casa dos R$ 600. No governo Lula, o nome original foi retomado, mas o valor médio seguiu elevado, alcançando R$ 670 em 2025 — um aumento de 253% em relação a seis anos atrás.

A escalada dos números

  • Famílias beneficiadas em 2017: 14 milhões
  • Famílias beneficiadas em 2025: 21 milhões
  • Orçamento anual em 2019: R$ 35 bilhões
  • Orçamento anual em 2025: R$ 170 bilhões

Redução da participação na força de trabalho: dados preocupantes

Níveis ainda abaixo do pré-pandemia

Embora o desemprego esteja em baixa — 5,8% em junho de 2025, segundo o IBGE, a menor taxa da série histórica —, a taxa de participação na força de trabalho ainda não voltou aos patamares de 2019. Em dezembro daquele ano, 63,4% dos brasileiros com 14 anos ou mais estavam ativos no mercado. Em junho de 2025, esse índice era de 62,4%.

Segundo o pesquisador Daniel Duque, autor do estudo do FGV Ibre, a causa está na própria estrutura do Bolsa Família:

“Para cada duas famílias que recebem o Bolsa Família, uma sai da força de trabalho”, afirma. “A probabilidade de o indivíduo estar ocupado cai 12%, e a de ter emprego formal, 13%.”

Impacto por região e perfil demográfico

Fachada de prédio com logo da FGV
Imagem: Jo Galvao / shutterstock.com

Norte e Nordeste: onde o efeito é mais visível

As regiões Norte e Nordeste, mais dependentes do programa, foram as que mais apresentaram queda na taxa de participação. No Nordeste, por exemplo:

  • Participação em 2019: 56%
  • Participação em 2025: 54,1%

A única região com leve aumento foi o Sul, que passou de 66,8% para 66,9%.

Jovens homens são os mais impactados

O efeito negativo do programa sobre o emprego não é uniforme. Entre homens jovens (14 a 30 anos), a queda na ocupação e formalização foi mais acentuada. No caso da formalidade, a queda se estende a homens de todas as idades. Entre as mulheres, o efeito é menos significativo, em parte porque o programa é frequentemente voltado para mães chefes de família.

A lógica econômica por trás da informalidade e da inatividade

Quando o benefício se torna mais atraente que o trabalho formal

Do ponto de vista do beneficiário, faz sentido. Um jovem com baixa qualificação e poucas oportunidades encontra no Bolsa Família uma renda garantida e isenta de impostos, enquanto um emprego com carteira assinada pode representar menos dinheiro no bolso e mais responsabilidades.

Mesmo com a “regra de proteção”, que permite manter 50% do benefício por dois anos após conseguir um emprego formal, a equação nem sempre compensa. O emprego precisa superar não apenas a perda parcial do benefício, mas também os ganhos informais que muitos já possuem.

Capital humano em risco: o dilema para os jovens

Efeitos de longo prazo

Ao desestimular a entrada precoce no mercado, o Bolsa Família também pode estar afetando a formação do capital humano do país. Jovens fora do mercado deixam de adquirir experiência, habilidades e contatos — fatores decisivos para ascensão profissional futura.

“O Bolsa Família atual é muito diferente do original, e questões antes resolvidas sobre seus efeitos no trabalho voltaram a ser debatidas”, analisa Fernando de Holanda Barbosa Filho, também do FGV Ibre.

Educação como caminho: o lado promissor do programa

Jovens com alto desempenho priorizam os estudos

Apesar dos problemas, o programa também mostra efeitos positivos em relação à educação. Segundo Daniel Duque, entre os jovens de “maior habilidade”, a probabilidade de estarem matriculados em instituições de ensino aumenta após entrarem no programa.

“A saída do mercado não é problema se for acompanhada por qualificação”, afirma Flávio Ataliba, do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste do FGV Ibre.

A proposta de redesenho do Bolsa Família

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Reequilibrando estímulos e protegendo os mais vulneráveis

Diante do diagnóstico, Daniel Duque propõe um redesenho estratégico do programa:

Redução do benefício básico

  • Objetivo: evitar que jovens sem intenção de estudar ou trabalhar permaneçam inativos apenas pelo valor do benefício.

Redirecionamento de recursos

  • Para quem: mães com filhos pequenos e jovens que deixaram os estudos por necessidade financeira.
  • Como: articulação com programas como o Pé-de-Meia, que incentiva a permanência na escola.

Integração com outras políticas públicas

A proposta inclui integração com áreas como educação, saúde e qualificação profissional, para que o Bolsa Família deixe de ser apenas uma ferramenta de assistência e se torne um trampolim para a mobilidade social.

Possibilidades:

  • Cursos técnicos gratuitos alinhados ao mercado regional
  • Estímulo ao empreendedorismo formal
  • Benefícios complementares para jovens em formação

Um programa em transição: entre a inclusão e o risco de dependência

Imagem: Kwangmoozaa / shutterstock – Edição: Seu Crédito Digital

O equilíbrio delicado

O desafio é manter o caráter distributivo e inclusivo do Bolsa Família, sem criar incentivos adversos à produtividade e ao desenvolvimento profissional dos beneficiários. É preciso garantir que o programa não desestimule o esforço individual, especialmente entre os mais jovens, que deveriam estar construindo sua trajetória de forma ativa.

Política pública como trampolim, não como âncora

A reflexão central passa a ser: o Bolsa Família está promovendo inclusão produtiva ou sustentando a inatividade? A resposta pode estar no redesenho das regras e na capacidade do Estado de integrar políticas sociais com políticas econômicas, educacionais e de desenvolvimento regional.

Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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