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Votação de Lula cai de 71,5% para 68,7% em cidades com forte presença do Bolsa Família

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 8 min de leitura
Bolsa Família

O reajuste do Bolsa Família anunciado 17 dias antes do primeiro turno das eleições de 2026 não foi acompanhado por um aumento da votação de Luiz Inácio Lula da Silva nos municípios onde o programa tem maior presença. Levantamento do UOL mostra que, nas cidades em que os beneficiários representam pelo menos metade da população, o petista passou de 71,5% dos votos em 2022 para 68,7% em 2026.

No mesmo grupo de municípios, os candidatos da família Bolsonaro registraram movimento contrário. Jair Bolsonaro havia obtido 23,5% em 2022, enquanto Flávio Bolsonaro chegou a 27,3% em 2026.

Os dados, porém, não permitem afirmar que o reajuste do benefício tenha provocado a queda da votação de Lula. O levantamento compara o desempenho eleitoral em municípios classificados de acordo com a presença do Bolsa Família e não identifica o comportamento individual dos beneficiários.

Ainda assim, o resultado chama atenção porque o aumento ocorreu justamente às vésperas da eleição e atingiu uma parcela importante da população de baixa renda.

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O que mudou no Bolsa Família antes da eleição

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Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

O governo federal anunciou em setembro o reajuste dos valores do Bolsa Família, com efeitos financeiros a partir de outubro. O benefício mínimo passou de R$ 600 para R$ 691, enquanto o valor médio estimado subiu de R$ 675 para R$ 777.

O reajuste representou uma alta de aproximadamente 15% no piso. A atualização ocorreu depois de mais de três anos sem correção dos valores pela inflação desde a retomada do atual formato do programa.

A proximidade entre o anúncio e o primeiro turno colocou a medida no centro do debate eleitoral. O reajuste foi divulgado 17 dias antes da votação.

O episódio também trouxe comparações com 2022, quando Jair Bolsonaro elevou o então Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 durante o período eleitoral.

Lula perdeu votos nas cidades mais dependentes do Bolsa Família

O levantamento considerou como municípios de alta dependência aqueles em que os beneficiários do programa representam pelo menos 50% da população.

Nessas cidades, Lula recebeu 68,7% dos votos em 2026. Quatro anos antes, havia alcançado 71,5%.

A diferença representa uma queda de 2,8 pontos percentuais.

Enquanto isso, o candidato da família Bolsonaro apresentou crescimento. Jair Bolsonaro havia registrado 23,5% dos votos nesses municípios em 2022. Flávio Bolsonaro chegou a 27,3% em 2026.

O resultado significa um aumento de 3,8 pontos percentuais.

Outros candidatos perderam espaço

Outro movimento observado nas cidades de alta dependência foi a redução da participação dos demais candidatos.

Em 2018, esse grupo concentrava 17% dos votos. Em 2022, a parcela caiu para 5,04% e chegou a 4% em 2026.

O resultado indica que a disputa presidencial ficou ainda mais concentrada entre os dois principais polos políticos.

Por isso, a queda dos demais candidatos não pode ser interpretada automaticamente como transferência de votos para Lula ou para Flávio Bolsonaro. O dado mostra, principalmente, o avanço da polarização eleitoral.

E nas cidades onde poucos moradores recebem o benefício?

O comportamento também apresentou mudanças nos municípios classificados como de baixa dependência do Bolsa Família, onde menos de 25% da população é beneficiária.

Nessas localidades, Jair Bolsonaro havia recebido 53,6% dos votos em 2018 e 50,3% em 2022. Em 2026, Flávio Bolsonaro alcançou 53,9%.

Lula fez o movimento contrário. O petista havia passado de 20,1% em 2018 para 40% em 2022, mas recuou para 37% em 2026.

Os números mostram que a eleição não pode ser explicada apenas pela presença do Bolsa Família. O comportamento do eleitor variou de acordo com o perfil dos municípios e com outros fatores políticos e econômicos.

O aumento do Bolsa Família garantiu votos para Lula?

Não.

O levantamento não demonstra que o reajuste tenha provocado perda de votos para Lula. Ele apenas mostra que o candidato não aumentou sua votação nos municípios onde o programa possui maior presença.

Essa diferença é fundamental.

Para estabelecer uma relação de causa e efeito, seria necessário analisar, por exemplo, o comportamento individual de beneficiários antes e depois do reajuste, além de controlar outros fatores que influenciam a decisão eleitoral.

Entre eles estão renda, inflação, emprego, preços dos alimentos, avaliação do governo, rejeição aos candidatos, identificação partidária e questões regionais.

Portanto, não é possível concluir que um beneficiário tenha deixado de votar em Lula por causa do reajuste, nem que o aumento tenha sido eleitoralmente irrelevante para todos os beneficiários.

Por que receber um benefício não significa votar no governo?

O Bolsa Família pode influenciar a avaliação que uma família faz do governo, mas isso não transforma automaticamente o benefício em voto.

Um dos fatores apontados pelo cientista político Danilo Medeiros, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é que programas de transferência de renda passaram a ser percebidos por parte da população como políticas públicas permanentes.

Nesse entendimento, o beneficiário não necessariamente interpreta o pagamento como um favor pessoal do presidente que está no poder.

Isso reduz o efeito de uma lógica segundo a qual aumentar o benefício pouco antes de uma eleição produziria, automaticamente, uma recompensa nas urnas.

Além disso, a decisão do eleitor é formada por diferentes percepções. Uma família pode estar satisfeita com o Bolsa Família e, ao mesmo tempo, desaprovar outros aspectos do governo.

Bolsonaro já havia aumentado o benefício em 2022

A comparação com a eleição anterior é importante porque Jair Bolsonaro também ampliou o principal programa de transferência de renda durante o período eleitoral.

Naquele ano, o então Auxílio Brasil passou de R$ 400 para R$ 600. O aumento de R$ 200 foi implementado entre agosto e dezembro de 2022 por meio da chamada PEC Kamikaze.

O reajuste de 2026 foi diferente. Em vez de um aumento nominal de R$ 200, houve uma atualização do piso de R$ 600 para R$ 691.

Mesmo assim, os dois episódios têm uma característica em comum: ocorreram em período próximo a uma eleição presidencial.

Como ficou o primeiro turno de 2026?

A eleição presidencial terminou o primeiro turno com uma disputa apertada.

Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), terminou na primeira colocação, com 47,03% dos votos válidos. Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), ficou com 45,16%.

A diferença entre os dois foi de 1,87 ponto percentual.

Como nenhum candidato conseguiu maioria absoluta dos votos válidos, a disputa seguiu para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.

A abstenção também teve peso significativo no resultado, com mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas.

O que os dados revelam sobre o eleitor do Bolsa Família?

A principal conclusão do levantamento é que o Bolsa Família não funciona como garantia automática de voto para o candidato responsável pelo programa.

Nas cidades onde pelo menos metade da população é beneficiária, Lula perdeu participação em relação a 2022, mesmo após o reajuste do programa.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro aumentou a votação em comparação com o resultado obtido por Jair Bolsonaro nessas mesmas localidades quatro anos antes.

Isso não significa que os beneficiários tenham abandonado Lula ou que tenham migrado em massa para o bolsonarismo. O levantamento não permite identificar esse comportamento individual.

O que os números mostram é que a presença do Bolsa Família, por si só, não foi suficiente para ampliar a vantagem eleitoral de Lula nos municípios mais dependentes do programa.

O que pode acontecer no segundo turno?

Bolsa Família
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

O comportamento desses eleitores pode ser decisivo na segunda etapa da eleição.

Com Lula e Flávio Bolsonaro concentrando praticamente toda a disputa presidencial, os votos destinados aos candidatos derrotados no primeiro turno passam a ser disputados pelos dois concorrentes.

Para Lula, recuperar parte da votação perdida nas cidades de alta dependência pode ser importante. Para Flávio Bolsonaro, manter a vantagem conquistada e ampliar o apoio entre eleitores de outras candidaturas será fundamental.

O Bolsa Família deve continuar no centro desse debate, mas os resultados do primeiro turno mostram que a política de transferência de renda não determina sozinha o comportamento eleitoral.

Conclusão

O reajuste do Bolsa Família elevou o benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 e o valor médio estimado de R$ 675 para R$ 777. A mudança ocorreu pouco antes do primeiro turno das eleições de 2026.

Mesmo assim, nas cidades em que os beneficiários representam pelo menos metade da população, Lula caiu de 71,5% dos votos em 2022 para 68,7% em 2026.

No mesmo grupo de municípios, o candidato da família Bolsonaro passou de 23,5%, obtidos por Jair Bolsonaro em 2022, para 27,3% com Flávio Bolsonaro em 2026.

Os dados não comprovam que o reajuste tenha causado a queda de Lula. Eles indicam algo mais específico: o aumento do Bolsa Família não foi suficiente, por si só, para ampliar o apoio eleitoral ao presidente justamente nas cidades onde o programa possui maior presença.

A eleição mostra, portanto, que políticas de transferência de renda podem ter peso na avaliação do governo, mas não determinam automaticamente o voto. A decisão do eleitor continua sendo influenciada por uma combinação de fatores econômicos, sociais, políticos e regionais.

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