Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

Corte do GPS dos EUA para o Brasil: riscos e possíveis desdobramentos

Brasil avalia criar sistema próprio de GPS após alerta de dependência global. Entenda impactos econômicos e quem já tem sistema independente.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes5 min de leitura
Intel sofre queda de 3% após Trump pedir saída de CEO por ligações com empresas chinesas

O sistema de navegação por satélite conhecido como GPS (Global Positioning System) está tão presente no cotidiano que sua ausência pode parecer improvável. No entanto, em meio a tensões geopolíticas crescentes, o Brasil começa a se preocupar com sua dependência quase total do sistema controlado pelos Estados Unidos. Uma eventual interrupção do sinal, ainda que improvável, poderia causar um verdadeiro colapso em setores cruciais da economia nacional.

Leia mais:

Governo pode criar GPS brasileiro; entenda os planos

GPS
Imagem: Freepik

Setores vulneráveis ao colapso do GPS

A dependência silenciosa

Durante participação no Venus Podcast, o divulgador científico Sérgio Sacani destacou que grande parte da economia global gira em torno do GPS. No Brasil, não seria diferente. Ele explicou que setores como petróleo, mineração, agricultura de precisão, sistema bancário e aviação seriam imediatamente afetados com a perda do sinal.

Segundo Sacani, os dados são alarmantes:

  • 99% da produção de petróleo depende do GPS;
  • 85% da mineração mundial utiliza o sistema;
  • 70% da agricultura funciona com base em agricultura de precisão alimentada por GPS.

“A produção para na hora. A agricultura, a mineração e até mesmo o sistema financeiro. É uma cadeia altamente conectada”, alertou o especialista.

Segurança pública também seria impactada

O professor Jorge Ferreira dos Santos Filho, da ESPM, acrescentou que as consequências iriam além da economia. Segundo ele, a segurança pública brasileira também é dependente do GPS. “As implicações tomam uma proporção que passam a ser uma discussão diplomática”, afirmou em entrevista à Gazeta do Povo.

GPS e a vida moderna

Além dos grandes setores produtivos, o GPS é essencial para:

  • Aplicativos de transporte e logística;
  • Navegação veicular;
  • Sistemas de emergência (SAMU, Bombeiros, Polícia);
  • Transações bancárias com registro geolocalizado;
  • Operações militares e defesa nacional.

É possível bloquear o GPS no Brasil?

Um desafio técnico e político

Diante dos rumores sobre uma possível interrupção do sinal por parte dos EUA, muitos se perguntam: é tecnicamente viável cortar o GPS apenas no Brasil? Especialistas afirmam que não.

Eduardo Tude, presidente da consultoria de telecomunicações Teleco, explicou à BBC que os satélites transmitem o sinal continuamente para toda a superfície terrestre. Os dispositivos em solo apenas recebem o sinal e calculam a posição. “É muito difícil bloquear isso para um país. O sinal é global”, explicou.

Para que os EUA conseguissem desligar o sinal seletivamente, seria necessário mudar completamente a estrutura do sistema, o que seria “praticamente inviável, ainda mais no curto prazo”, segundo Tude.

Comparação com TV aberta

O especialista ainda comparou o sistema a uma transmissão de TV aberta: “Eu só conseguiria bloquear se cada aparelho tivesse um código de acesso, como a TV por assinatura. Mas o GPS não funciona assim, ele é livre, qualquer dispositivo pode captar o sinal.”

Um risco mais simbólico que técnico

Apesar das limitações técnicas, o receio do uso do GPS como “arma diplomática” preocupa autoridades. O coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Rio, Luca Belli, afirmou que os EUA nunca utilizaram o GPS como instrumento de retaliação política ou econômica. Porém, em um cenário de tensão internacional, o simples fato de um país depender completamente de um sistema estrangeiro é motivo de alerta.

Iniciativa brasileira: rumo a um GPS nacional

motorista seguindo o GPS de um aplicativo de transporte
Imagem: structuresxx / shutterstock.com

Grupo de trabalho criado

Diante das incertezas e com o objetivo de reduzir a dependência, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) criou, em 1º de julho de 2025, um grupo de trabalho para avaliar a criação de um sistema brasileiro de navegação por satélite.

Com prazo de 180 dias para apresentar um diagnóstico, a equipe deverá:

  • Mapear o grau de dependência do Brasil em relação a sistemas estrangeiros;
  • Estudar a viabilidade de um sistema nacional com cobertura regional;
  • Avaliar custos, infraestrutura necessária e impactos econômicos;
  • Propor uma política pública de soberania tecnológica em navegação.

O Brasil precisa de cobertura global?

Segundo fontes do GSI, não seria necessário, ao menos inicialmente, desenvolver um sistema de alcance mundial como o GPS americano. Um sistema regional, cobrindo o território nacional e países vizinhos estratégicos, já atenderia a maioria das demandas civis e militares do país.

Essa abordagem reduziria significativamente os custos e permitiria maior agilidade na implementação.

Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.

+311 mil seguidores

Seguir no Google

Países com sistemas de navegação próprios

Sistemas com cobertura global

Atualmente, apenas quatro grandes blocos têm sistemas de navegação por satélite com cobertura mundial:

  • Estados Unidos: GPS (Global Positioning System);
  • Rússia: GLONASS (Global Navigation Satellite System);
  • China: BeiDou;
  • União Europeia: Galileo.

Sistemas regionais em expansão

Outros países, como Índia e Japão, optaram por sistemas regionais:

  • Índia: NavIC (Navigation with Indian Constellation), com foco no sul da Ásia;
  • Japão: QZSS (Quasi-Zenith Satellite System), complementando o GPS na Ásia-Pacífico;
  • Coreia do Sul: planeja lançar seu sistema regional em 2035.

Esses modelos servem de referência para o Brasil, que poderia desenvolver uma versão nacional voltada para as necessidades agrícolas, industriais e de defesa, sem depender totalmente de infraestrutura externa.

O custo da soberania tecnológica

gps
Imagem: rawpixel.com – freepik

Investimento pesado, mas estratégico

Criar um sistema de navegação próprio exige bilhões em investimentos, além de infraestrutura de satélites, estações de controle, tecnologia embarcada e formação de profissionais especializados. No entanto, os especialistas consideram que os custos seriam compensados por:

  • Maior segurança nacional;
  • Independência estratégica;
  • Estímulo ao desenvolvimento tecnológico nacional;
  • Redução de vulnerabilidades externas.

Parcerias podem acelerar o projeto

Especialistas apontam que o Brasil poderia buscar parcerias com países como Índia, Japão ou mesmo a União Europeia, que já possuem sistemas robustos, para transferir tecnologia ou mesmo integrar um consórcio regional.

Além disso, a Agência Espacial Brasileira (AEB) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) poderiam liderar o desenvolvimento do projeto, com apoio de universidades, Forças Armadas e empresas de tecnologia.

Imagem: Freepik

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

Topicos relacionados