A Shell, uma das principais multinacionais de energia em atuação no Brasil, acendeu um alerta sobre o futuro da produção nacional de petróleo.
Brasil pode deixar de ser autossuficiente em petróleo até 2035, segundo Shell
Shell alerta que Brasil pode se tornar importador de petróleo até 2035 sem novos leilões. Saiba causas, riscos e soluções apontadas por executivo.
Em projeção recente, a companhia afirmou que o país pode voltar à condição de importador líquido de petróleo até 2035, caso não sejam abertas novas frentes de exploração.
Essa avaliação foi apresentada por Cristiano Pinto da Costa, presidente da Shell Brasil, durante coletiva em Brasília. O executivo apontou a redução significativa na atividade exploratória como um dos principais fatores para essa possível reversão da balança comercial energética.
“É um cenário que me preocupa”, declarou Costa. “Se não revertermos esse declínio, a tendência é de esgotamento.”
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Queda acentuada na perfuração de poços

Durante os anos 2000, o Brasil mantinha uma média anual de mais de 150 poços perfurados. Em 2024, esse número caiu drasticamente para apenas seis novas perfurações — um recuo de mais de 95%.
Fatores que contribuíram para a queda:
- Redução dos leilões promovidos pela ANP;
- Insegurança regulatória e fiscal para investidores estrangeiros;
- Pressão por fontes de energia mais limpas, inibindo investimentos em fósseis;
- Falta de incentivo à abertura de novas bacias exploratórias.
Essa desaceleração ocorre justamente quando as bacias de Campos e de Santos — principais fontes do pré-sal — começam a apresentar sinais de maturação e queda na produtividade.
A urgência de novas fronteiras exploratórias
A Shell defende que o Brasil precisa urgentemente expandir sua atuação em regiões menos exploradas, como a Margem Equatorial e áreas profundas do Atlântico Sul.
Ações sugeridas pela Shell:
- Realização de “um ou dois leilões por ano” pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP);
- Melhoria do ambiente regulatório para investidores;
- Incentivo à pesquisa geológica e tecnológica.
Cristiano Pinto da Costa ressaltou que, mesmo diante da transição energética global, é fundamental garantir a segurança do suprimento de petróleo — especialmente para economias em crescimento.
Consumo global de petróleo continuará subindo
Ao contrário do que muitos imaginam, a Shell projeta que o consumo global de petróleo e gás não deve cair nas próximas décadas. Três fatores sustentam essa previsão:
1. Crescimento populacional
A população mundial deve saltar de 8 para 10 bilhões de pessoas até 2050. O aumento populacional, por si só, implicará maior demanda por energia.
2. Ascensão do Hemisfério Sul
Atualmente, o consumo per capita de energia no Hemisfério Sul é apenas um terço do registrado no Hemisfério Norte. À medida que o padrão de vida melhora em países da África, América Latina e Sudeste Asiático, a demanda por energia aumentará exponencialmente.
3. Expansão da inteligência artificial
Segundo Costa, empresas de tecnologia estão em busca crescente por fontes de energia para alimentar data centers e supercomputadores. Meta, Alphabet e OpenAI já procuram ativamente a Shell para garantir fornecimento estável — mesmo que não seja renovável.
“Antes, elas perguntavam se tínhamos energia renovável. Depois, se era energia segura. Hoje, perguntam apenas se temos energia, qualquer que seja”, afirmou.
Transição energética segue no radar
A Shell garante que continua comprometida com a transição energética e a redução das emissões de gases de efeito estufa. No entanto, reforça que isso não exclui a importância do petróleo no mix energético global das próximas décadas.
Iniciativas da empresa incluem:
- Investimento em projetos de captura e armazenamento de carbono (CCS);
- Atuação no mercado de créditos de carbono;
- Parcerias com governos e universidades em inovação energética.
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A companhia vê o mercado de carbono como uma ferramenta essencial para equilibrar crescimento energético e sustentabilidade. “Não se trata de um mundo com menos petróleo, mas com petróleo menos emissivo”, explicou Costa.
Riscos geopolíticos e concorrência internacional
Outro fator preocupante para a Shell é o ambiente de concorrência global. Caso o Brasil não crie condições atrativas para o capital estrangeiro, empresas internacionais devem priorizar outras regiões — como o Golfo do México, África Ocidental e Oriente Médio.
Além disso, a crescente tensão geopolítica, como os conflitos entre Israel e Irã ou a nova postura tarifária dos Estados Unidos, pode afetar cadeias de suprimento e aumentar ainda mais os custos de importação.
Oportunidade histórica ou retrocesso energético?
O Brasil, ao descobrir o pré-sal em meados dos anos 2000, passou de importador para exportador líquido de petróleo em cerca de uma década. Hoje, figura entre os dez maiores produtores globais e é considerado uma potência energética.
Perder essa condição por falta de planejamento, alerta a Shell, representaria um retrocesso com grandes implicações:
- Aumento da dependência externa: sujeitando o país à volatilidade dos preços internacionais;
- Impacto na balança comercial: reduzindo superávits que vêm do setor de óleo e gás;
- Risco fiscal: menor arrecadação com royalties e participações especiais.
O papel estratégico da ANP e do governo federal

A ANP, segundo especialistas, precisará reforçar seu papel como indutora de novos investimentos. Leilões mais frequentes e com regras estáveis são vistos como essenciais para garantir o futuro do setor.
Já o governo federal terá que equilibrar a agenda climática com a segurança energética. Para muitos analistas, isso não significa abandonar a transição, mas conduzi-la com responsabilidade e base técnica.
Conclusão
O alerta da Shell sobre o futuro da produção de petróleo no Brasil traz à tona uma discussão crucial: como garantir segurança energética sem ignorar os compromissos climáticos?
Com o consumo global em alta e as reservas brasileiras dando sinais de maturação, o país está diante de uma encruzilhada. A decisão entre estagnar ou expandir sua capacidade produtiva vai definir não apenas sua posição internacional, mas o bem-estar de sua economia nas próximas décadas.
Para evitar que o Brasil volte a ser um importador líquido de petróleo, será necessário agir agora — com visão estratégica, transparência regulatória e ousadia exploratória.
