Brasil registra queda nos preços dos alimentos depois de 9 meses em alta
Após um longo ciclo de alta que se estendeu por nove meses, os preços dos alimentos consumidos no domicílio finalmente apresentaram alívio.
Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 15 de julho de 2025, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou queda de 0,43% para o grupo de alimentos em junho.
Essa redução é atribuída principalmente a dois fatores: o fortalecimento da produção agrícola graças a condições climáticas mais favoráveis, e a desvalorização do dólar frente ao real.
No entanto, um novo componente de risco ameaça reverter essa melhora: a promessa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros exportados ao país.
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Entenda os motivos da recente queda nos preços

Condições climáticas favorecem produção agrícola
A safra brasileira de grãos em 2025 caminha para bater recordes históricos. Após um 2024 marcado por perdas provocadas por eventos climáticos extremos, como chuvas intensas e estiagens pontuais, o clima mais estável dos últimos meses contribuiu para uma colheita mais robusta e bem distribuída.
O bom desempenho da agricultura impactou diretamente produtos essenciais da cesta básica, como arroz, feijão e frutas, contribuindo para o alívio inflacionário observado em junho.
Dólar mais fraco reduz pressão sobre importados
Outro fator-chave foi a valorização do real frente ao dólar. Essa movimentação cambial barateia a importação de insumos e fertilizantes, além de conter o preço de alimentos que dependem do mercado internacional, como trigo e milho.
Segundo o economista Leandro Gilio, do Insper Agro Global, esse cenário ajuda a conter custos no setor agrícola e, consequentemente, reduz os preços no varejo. “Com a desvalorização do dólar, os insumos ficam mais baratos e há menor pressão inflacionária nos alimentos”, afirma.
Itens com maior queda e produtos que ainda pressionam
Entre os itens com maior queda de preço no mês de junho, destacam-se:
- Ovo de galinha: -6,58%
- Arroz: -3,23%
- Frutas: -2,22%
Já o tomate seguiu na contramão da tendência, com aumento de 3,25%, puxando a média de hortaliças para cima. Produtos com oferta mais sensível ao clima ou à logística ainda sofrem oscilações pontuais.
A ameaça da sobretaxa dos EUA e os riscos para o Brasil
Trump anuncia tarifa de 50% sobre exportações brasileiras
A tranquilidade recente, no entanto, pode ser passageira. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a intenção de impor uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros exportados ao mercado norte-americano. Entre os itens afetados estão:
- Café
- Carne bovina
- Suco de laranja
Efeitos possíveis: da queda nos preços à disparada do câmbio
Em um primeiro momento, a restrição de embarques para os EUA pode aumentar a oferta interna desses produtos, provocando novas quedas de preços. Contudo, especialistas alertam para uma consequência mais ampla e perigosa: o impacto cambial.
“O dólar tende a se valorizar em momentos de incerteza”, alerta Leandro Gilio. E um câmbio mais alto encarece tanto produtos importados quanto insumos agrícolas, como defensivos, fertilizantes e combustíveis.
Um cenário de incerteza no segundo semestre
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, alerta que ainda é cedo para prever os desdobramentos da medida norte-americana. “Ainda não sabemos se a sobretaxa vai ser mantida, reduzida ou até negociada”, diz.
Ele aponta que, caso o Brasil decida retaliar na mesma proporção, o câmbio poderá sofrer pressão significativa. “Um real mais fraco, mesmo diante de queda em alguns alimentos, pode anular os ganhos recentes e reacender a inflação.”
Inflação acumulada ainda pesa no bolso do consumidor
Apesar da queda registrada em junho, os alimentos consumidos no domicílio acumulam alta de 6,23% nos últimos 12 meses, número superior ao IPCA geral, que ficou em 5,35% no mesmo período. Em 2024, o grupo encerrou o ano com avanço de 8,23%, pressionado por fatores climáticos e custos globais.
Essa inflação alimentar elevada contribuiu para o desgaste da imagem do governo Lula, principalmente entre as camadas mais vulneráveis, onde o peso dos alimentos no orçamento familiar é maior.
Projeções para o fim de 2025: cautela com otimismo
Estimativa de alta menor nos preços dos alimentos
Analistas mantêm a projeção de uma alta moderada nos alimentos para o final de 2025. A previsão atual gira em torno de 5,5%, abaixo do observado no ano anterior, mas ainda em um patamar elevado para padrões históricos.
A continuidade dessa tendência depende de múltiplos fatores:
- Manutenção das boas condições climáticas
- Estabilidade cambial
- Decisões geopolíticas envolvendo Brasil e EUA
Retomada das exportações pode evitar crise
Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, lembra que os efeitos diretos da medida prometida por Trump atingiriam uma gama “relativamente limitada” de produtos. O risco real, segundo ele, é o reflexo sobre o câmbio e a confiança do investidor externo.
“O cenário mais preocupante seria um movimento abrupto no dólar, que traria impactos indiretos em toda a cadeia de alimentos, mesmo aqueles com baixa exposição internacional”, analisa.
Estratégia de negociação pode evitar colapso
EUA dependem de produtos brasileiros
Há espaço para negociação, especialmente em setores onde os Estados Unidos dependem fortemente do Brasil. É o caso do suco de laranja, onde não há fornecedores com escala equivalente. “Seria uma estratégia perde-perde para os dois lados”, avalia Serigati.
Diplomacia pode evitar agravamento da crise
Diplomatas brasileiros e norte-americanos já sinalizaram disposição para diálogo. Caso o governo Lula consiga demonstrar os prejuízos mútuos que uma escalada tarifária provocaria, há expectativa de que a medida seja revista ou flexibilizada.
Conclusão: alívio pontual, mas riscos permanecem
A queda nos preços dos alimentos registrada em junho é uma boa notícia para os brasileiros, especialmente os mais afetados pela alta acumulada nos últimos meses. Porém, o cenário ainda exige atenção.
O futuro da inflação alimentar no Brasil em 2025 dependerá de decisões políticas e diplomáticas, além de fatores climáticos e cambiais.
Enquanto isso, o consumidor deve manter cautela e acompanhar os desdobramentos das negociações com os Estados Unidos. A recuperação da produção agrícola é um trunfo importante, mas pode ser anulada por instabilidades externas.