Um levantamento inédito da fintech Klavi, especializada em dados financeiros via Open Finance, revela uma dura realidade sobre o comportamento financeiro da população brasileira: 35% dos brasileiros gastam todo o dinheiro disponível em suas contas em até 36 horas após o recebimento do salário.
Um terço dos brasileiros gasta todo o salário em até 36 horas após receber salário
Estudo revela que 35% dos brasileiros zeram a conta em até 36h após o salário, indicando alto endividamento e pouca reserva financeira.
Os dados apontam para um cenário preocupante de consumo imediato, alta vulnerabilidade financeira e endividamento crônico.
Leia mais:
Salário mínimo 2025: aumento de 7,5% e o total que será pago aos trabalhadores
Diretora do Banco Central dos EUA vai à Justiça contra Trump
Estudo revela velocidade alarmante no uso do salário

Metodologia da pesquisa
A análise da Klavi foi realizada com base em dados reais de movimentações bancárias de mais de 7.000 brasileiros, clientes de diversas instituições financeiras.
Os números foram consolidados por meio da infraestrutura de Open Finance, que permite o compartilhamento seguro de informações financeiras dos usuários.
Os resultados mostram que:
- 18% das pessoas gastam todo o saldo em até 24 horas após o pagamento.
- 35% zeram a conta em até 36 horas.
- 42% gastam tudo logo após esse período, sem conseguir manter qualquer reserva.
- Mais da metade (56%) dos usuários deixa menos de R$ 100 disponíveis.
Esses dados sugerem que o salário, para a maioria dos brasileiros, é consumido quase instantaneamente por despesas já comprometidas.
Causas do consumo imediato do salário
Dívidas, contas fixas e ausência de planejamento
Segundo Bruno Chan, CEO da Klavi, o principal motivo dessa liquidação acelerada é a combinação de renda baixa, dívidas acumuladas e o peso das contas básicas.
“O dinheiro mal entra e já sai para cobrir despesas fixas, dívidas e gastos essenciais. A margem de manobra financeira é mínima ou inexistente”, explica.
A pesquisa evidencia o reflexo de um cotidiano marcado por compromissos financeiros imediatos. Contas de luz, água, aluguel, supermercado e financiamentos deixam o consumidor sem alternativas de poupança ou investimento.
Uso do cheque especial como “capital de giro”
Outro fator alarmante identificado pela Klavi é a utilização do cheque especial como extensão do salário. “Muitos usuários recorrem ao cheque especial como se fosse parte da renda. O saldo da conta parece ‘limpo’, mas, na verdade, foi reposto com um crédito caro e arriscado”, diz Chan.
Esse tipo de comportamento mascara a real situação financeira do usuário, ampliando o risco de endividamento crônico e dificultando a saída do ciclo de inadimplência.
O Brasil e o endividamento recorde
Dados da Serasa mostram 77,8 milhões de inadimplentes
O cenário descrito pela Klavi encontra respaldo nos números da Serasa. Em junho de 2025, o Brasil atingiu o maior número de inadimplentes da sua série histórica: 77,8 milhões de pessoas com contas em atraso.
O valor médio das dívidas por pessoa ultrapassa R$ 6.000, somando um montante impressionante de R$ 477 bilhões em débitos em aberto.
Perfil da dívida: cartão de crédito e crédito pessoal
Entre os principais tipos de dívida estão o cartão de crédito rotativo, o cheque especial e os empréstimos pessoais. Essas modalidades, quando usadas sem planejamento, têm juros elevados que tornam as dívidas impagáveis em curto prazo.
Além disso, muitos brasileiros mantêm mais de uma dívida ativa, comprometendo grande parte da sua renda mensal com parcelas e encargos.
Impactos sociais e econômicos
Desigualdade e vulnerabilidade financeira
A velocidade com que o salário é consumido reflete não apenas desorganização financeira individual, mas também desigualdade social estrutural. Em muitos casos, os brasileiros mal conseguem atender às necessidades básicas com o salário recebido.
Sem reservas ou acesso a crédito saudável, qualquer imprevisto – como uma doença, demissão ou despesa emergencial – pode levar ao colapso financeiro pessoal.
Efeitos sobre o mercado e o consumo
Com o dinheiro se esgotando em menos de três dias, o ciclo de consumo se torna instável e insustentável. Isso afeta diretamente o comércio, a indústria e os serviços, que dependem de uma economia interna aquecida.
A baixa capacidade de poupança também impede o crescimento do investimento privado em setores como habitação, educação e previdência.
A importância da educação financeira
Falta de conhecimento agrava a situação
A ausência de educação financeira básica é apontada como um dos fatores que agravam esse ciclo. Muitos brasileiros não compreendem conceitos simples como juros compostos, custo efetivo total ou reserva de emergência.
Sem esse conhecimento, tornam-se alvos fáceis de armadilhas financeiras, como créditos pré-aprovados com juros altos ou parcelamentos longos sem planejamento.
Iniciativas públicas e privadas
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Embora haja algumas iniciativas governamentais e privadas voltadas à educação financeira – como o Programa de Educação Financeira nas Escolas –, sua abrangência ainda é limitada.
Empresas de tecnologia financeira, como a própria Klavi, têm investido em soluções de planejamento e controle de gastos via aplicativos e plataformas digitais.
Contudo, o desafio permanece em escalar essas ações para atingir as camadas mais vulneráveis da população.
O papel do Open Finance na transformação financeira
Transparência e controle para o consumidor
O Open Finance pode ser uma ferramenta poderosa para enfrentar esse cenário. Ao permitir que usuários compartilhem seus dados bancários de forma segura entre diferentes instituições, o sistema abre espaço para soluções personalizadas de crédito, investimentos e renegociação de dívidas.
Com acesso facilitado a dados reais de comportamento financeiro, fintechs e bancos podem oferecer produtos mais adequados à realidade dos clientes, como limites de crédito sustentáveis, alertas de gastos e sugestões de economia.
A inteligência artificial como aliada
Outra aposta das fintechs é o uso de inteligência artificial para prever comportamentos financeiros e sugerir intervenções antes que o cliente entre no vermelho. Modelos preditivos, por exemplo, conseguem identificar padrões de gastos que levam ao endividamento e alertar o usuário com antecedência.
Caminhos para sair do ciclo

Planejamento e mudança de hábitos
Sair do ciclo de “salário que evapora” exige mudança de hábitos e consciência sobre o uso do dinheiro. Algumas dicas incluem:
- Anotar todos os gastos mensais e identificar os que podem ser reduzidos.
- Priorizar o pagamento de dívidas com juros mais altos.
- Criar uma pequena reserva de emergência, mesmo que com valores baixos.
- Evitar o uso do cheque especial e do cartão de crédito rotativo.
- Usar aplicativos de controle financeiro.
Renegociação de dívidas e apoio institucional
Programas como o Desenrola Brasil e mutirões de renegociação são importantes para permitir que o consumidor saia da inadimplência. Além disso, bancos e fintechs devem oferecer soluções menos punitivas e mais educativas, alinhando lucro com responsabilidade social.
Considerações finais
A constatação de que um terço dos brasileiros gasta todo o salário em até 36 horas revela mais do que um comportamento de consumo: expõe uma crise estrutural de renda, educação financeira e acesso ao crédito saudável.
A urgência de políticas públicas integradas, aliada à atuação ética de instituições financeiras e à disseminação da educação financeira, é essencial para mudar esse cenário. O desafio é coletivo — e precisa de soluções igualmente amplas e coordenadas.
Enquanto isso, milhões de brasileiros seguem vivendo no limite, sem espaço para o imprevisto e sem perspectivas de construir um futuro financeiro mais estável. A pergunta que fica é: até quando?
