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Inflação sobe além do previsto e pesa mais no bolso dos brasileiros

Brasileiros chegam a 2026 com apenas R$ 20 livres a cada R$ 100 recebidos. Entenda como inflação, dívidas e despesas básicas pressionam o orçamento.

Jessica CassanaPor Jessica Cassana··12 min de leitura
Inflação sobe além do previsto e pesa mais no bolso dos brasileiros

O orçamento das famílias brasileiras chegou a um dos níveis mais apertados dos últimos anos. Levantamento da consultoria Tendências aponta que, a cada R$ 100 recebidos, aproximadamente R$ 20 ficam disponíveis para consumo depois das despesas e compromissos financeiros.

Trata-se do menor patamar em cerca de 15 anos da série analisada pela consultoria e ajuda a explicar por que muitas famílias sentem dificuldade para transformar aumentos nominais de salário em melhora efetiva na qualidade de vida.

A pressão ocorre mesmo depois de uma desaceleração recente da inflação. Em julho de 2026, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou apenas 0,07%. Em 12 meses, porém, ainda acumula 4,44%, enquanto no ano a alta chega a 3,44%, segundo o IBGE.

Na prática, o consumidor precisa dividir a renda entre alimentação, moradia, transporte, energia, saúde, dívidas e outros compromissos antes de pensar em compras não essenciais.

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Inflação
Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

O indicador não significa que todos os brasileiros tenham exatamente 20% do salário disponível no fim do mês.

Ele funciona como uma representação do forte comprometimento da renda das famílias.

Imagine uma pessoa que receba R$ 3 mil. Aplicando a proporção de R$ 20 livres a cada R$ 100, sobrariam cerca de R$ 600 depois dos principais compromissos considerados nesse cálculo.

Para uma renda de R$ 5 mil, seriam aproximadamente R$ 1 mil.

A realidade individual pode ser muito diferente, principalmente para famílias que pagam aluguel, possuem filhos, financiamentos ou dívidas no cartão de crédito.

O dado, portanto, revela uma tendência: uma parcela cada vez maior da renda já chega ao consumidor com destino definido.

Inflação de 4,44% continua corroendo o poder de compra

A inflação ajuda a entender parte dessa pressão.

O IPCA acumulado em 12 meses caiu de 4,64% em junho para 4,44% em julho, mostrando desaceleração. Isso não significa, entretanto, que os preços voltaram ao que eram antes.

Inflação menor significa que os preços, em média, estão aumentando em velocidade mais baixa. Não significa uma queda generalizada do custo de vida.

Em julho, por exemplo, o IPCA registrou alta mensal de apenas 0,07%, mas alguns grupos continuaram pressionando o orçamento. Habitação avançou 0,99% e exerceu o maior impacto positivo sobre o índice daquele mês.

Por outro lado, Alimentação e bebidas registrou queda de 0,67% no mês.

Nos 12 meses encerrados em julho, a inflação geral continuava em 4,44%.

Supermercado continua sendo uma das maiores despesas das famílias

Para famílias de renda baixa e média, alimentação ocupa uma parcela relevante do orçamento.

Quanto menor a renda, maior tende a ser o peso proporcional das despesas básicas. Isso explica por que uma alta de poucos reais em produtos recorrentes pode provocar impacto maior para uma família que já utiliza praticamente todo o salário.

O problema fica ainda mais evidente quando a compra do supermercado precisa ser financiada.

Cartão de crédito pode proporcionar prazo e organização quando a fatura é paga integralmente. Entretanto, utilizar crédito para cobrir despesas básicas mês após mês pode indicar que o orçamento já não está comportando o padrão de gastos.

A situação fica especialmente delicada quando a família não consegue pagar integralmente a fatura.

Nesse caso, juros passam a se somar às despesas que originalmente já não cabiam na renda.

Parcelar supermercado pode virar uma bola de neve

Imagine uma família que compre R$ 1 mil em alimentos no cartão porque não possui dinheiro disponível naquele momento.

Se a fatura seguinte for paga integralmente, o cartão funcionou basicamente como meio de pagamento.

Mas se apenas parte do valor for quitada, o restante poderá gerar encargos.

No mês seguinte, a família terá de comprar comida novamente enquanto ainda paga despesas do supermercado do mês anterior.

O resultado pode ser um ciclo no qual parte do salário futuro já está comprometida antes mesmo de ser recebida.

Por isso, o problema não está necessariamente em pagar supermercado com cartão, mas em depender continuamente do crédito para comprar itens essenciais sem conseguir quitar a fatura integralmente.

Inadimplência bate recorde e mostra dimensão do problema

O comprometimento do orçamento aparece também nos indicadores de inadimplência.

Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, o Brasil chegou a 83,7 milhões de consumidores inadimplentes em junho de 2026, o maior número registrado na série histórica da instituição.

Isso significa que uma parcela expressiva da população adulta possui algum débito negativado.

A situação ajuda a mostrar que o aperto financeiro não está restrito ao consumo de produtos considerados supérfluos.

Quando renda, despesas básicas e parcelas já contratadas disputam o mesmo orçamento, contas acabam sendo adiadas.

Cartão e crédito caro reduzem ainda mais a renda disponível

O efeito das dívidas merece atenção porque existe uma diferença entre renda recebida e renda realmente disponível.

Uma pessoa pode receber R$ 4 mil por mês e, aparentemente, possuir uma renda razoável.

Mas se já começar o mês com:

  • R$ 1.200 de aluguel;
  • R$ 700 da fatura do cartão;
  • R$ 500 de financiamento;
  • R$ 300 de contas básicas;
  • R$ 800 para alimentação;

restariam apenas R$ 500 para transporte, saúde, roupas, lazer, imprevistos e formação de reserva financeira.

É exatamente esse comprometimento prévio que ajuda a explicar por que consumidores podem sentir que o salário “desaparece” poucos dias depois do pagamento.

Juros continuam elevados mesmo após redução da Selic

Outro elemento que pesa sobre o consumidor é o custo do crédito.

O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto de 2026. Apesar da redução, a taxa básica permanece em nível elevado.

Isso interfere nas condições financeiras da economia, embora as taxas cobradas diretamente do consumidor não sejam iguais à Selic.

Em modalidades como cartão rotativo, cheque especial e determinados empréstimos pessoais, o custo efetivo pode ser muito superior.

Uma família já endividada, portanto, pode gastar uma parcela considerável da renda apenas pagando juros e parcelas de compromissos anteriores.

Queda da inflação não significa alívio imediato

O IPCA de julho trouxe sinais positivos.

Além da taxa mensal de apenas 0,07%, Alimentação e bebidas recuou 0,67%, contribuindo negativamente para o índice.

Mesmo assim, o consumidor pode não perceber uma melhora imediata.

Isso ocorre porque a inflação trabalha sobre uma base acumulada.

Se um produto custava R$ 10 e subiu para R$ 12 durante um período inflacionário, uma desaceleração posterior não necessariamente fará esse preço voltar para R$ 10.

Pode significar apenas que o preço passará, por exemplo, de R$ 12 para R$ 12,10 em vez de subir rapidamente para R$ 13.

Por isso existe uma diferença entre inflação menor e deflação.

Alimentação acumula alta mesmo depois de queda em julho

O comportamento dos alimentos também ajuda a explicar essa sensação.

Embora o grupo Alimentação e bebidas tenha recuado em julho, ainda acumulava alta de 3,40% em 12 meses, segundo os dados detalhados do IBGE.

No acumulado de janeiro a julho de 2026, o grupo apresentava alta de 3,86%.

Isso significa que uma queda pontual não apaga os aumentos ocorridos anteriormente.

Para quem realiza compras toda semana, a comparação costuma ser feita com os valores vistos meses ou anos atrás, o que intensifica a percepção de perda do poder de compra.

Por que a inflação pressionou tanto em 2026?

A inflação brasileira resulta de uma combinação de fatores e não pode ser explicada por uma única causa.

Ao longo de 2026, preços administrados, energia, serviços, alimentos e impactos externos apresentaram comportamentos diferentes.

Choques internacionais sobre energia e petróleo podem chegar ao consumidor brasileiro por diferentes caminhos.

Combustíveis mais caros elevam custos diretos para motoristas e empresas e também podem pressionar transportes e cadeias de distribuição.

Energia também possui impacto amplo porque faz parte dos custos de praticamente toda atividade econômica.

Em julho, por exemplo, o grupo Habitação foi o que mais pressionou o IPCA, com avanço de 0,99%. O IBGE destacou a influência da energia elétrica residencial, inclusive com reajustes tarifários em algumas regiões e vigência da bandeira amarela.

Clima também pode afetar o preço dos alimentos

Eventos climáticos extremos são outro fator de risco para o orçamento.

Secas, excesso de chuva, ondas de calor e outros fenômenos podem afetar a produtividade agrícola, a oferta de determinados produtos e os custos logísticos.

Mas o impacto não é uniforme.

Uma condição climática desfavorável pode elevar o preço de um alimento enquanto outro produto apresenta safra maior e fica mais barato.

Por isso, previsões de alta nos alimentos precisam considerar a cultura agrícola, a região afetada, os estoques existentes e as condições futuras de produção.

Para a família, porém, o resultado final aparece de maneira simples: a cesta de compras pode variar significativamente de um mês para outro.

Renda maior não necessariamente significa poder de compra maior

Outro ponto fundamental é distinguir aumento nominal e aumento real da renda.

Um trabalhador que recebia R$ 2 mil e passa a ganhar R$ 2.100 recebeu aumento nominal de 5%.

Mas se os produtos e serviços consumidos por essa pessoa subiram em proporção semelhante, a capacidade de compra praticamente não mudou.

O ganho real aparece quando a renda cresce acima da inflação enfrentada pelo consumidor.

Ainda assim, famílias diferentes podem experimentar inflações muito distintas.

Uma pessoa que gasta grande parte do orçamento em aluguel e alimentos sentirá mais fortemente aumentos nesses grupos do que alguém cuja renda permite distribuir os gastos entre diversas categorias.

Salário mínimo maior ajuda, mas não resolve sozinho

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O salário mínimo nacional subiu para R$ 1.621 em 2026.

Reajustes desse tipo podem melhorar a renda nominal de trabalhadores e beneficiários vinculados ao piso.

Porém, seu efeito sobre o orçamento depende do comportamento dos preços.

Se alimentação, aluguel, energia, transporte e serviços avançarem rapidamente, parte do aumento será absorvida pelas próprias despesas.

Além disso, para quem possui dívidas, uma parcela do aumento da renda pode ser direcionada imediatamente ao pagamento de prestações atrasadas.

Esse é um dos motivos pelos quais indicadores de renda e emprego podem melhorar sem que a percepção das famílias acompanhe na mesma intensidade.

Famílias de baixa renda podem ter melhora e continuar pressionadas

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Não existe necessariamente contradição entre uma melhora em indicadores de renda das famílias de baixa renda e um nível elevado de dificuldades financeiras.

Mais pessoas trabalhando, valorização do salário mínimo e alterações tributárias podem elevar a renda disponível de determinados grupos.

Ao mesmo tempo, preços elevados e dívidas acumuladas nos anos anteriores continuam pressionando o orçamento.

Uma família que aumenta a renda em R$ 300, mas utiliza esses R$ 300 para pagar prestações atrasadas, melhora financeiramente sem necessariamente ampliar o consumo imediatamente.

A recuperação pode aparecer primeiro na capacidade de colocar contas em dia.

83,7 milhões de inadimplentes acendem sinal de alerta

O recorde de 83,7 milhões de inadimplentes em junho mostra o tamanho do desafio financeiro atual.

A negativação também produz consequências que vão além da própria dívida.

Ela pode dificultar:

  • aprovação de financiamentos;
  • contratação de crédito;
  • obtenção de melhores taxas;
  • parcelamentos de maior valor;
  • organização de projetos de longo prazo.

Isso cria um círculo difícil de romper.

Quem possui menor acesso a crédito barato pode acabar recorrendo justamente às modalidades mais caras quando surge uma emergência.

Como recuperar parte desses R$ 20 que sobram?

Não existe uma fórmula capaz de neutralizar inflação ou aumentar a renda instantaneamente, mas organizar o orçamento ajuda a identificar onde o dinheiro está sendo comprometido.

O primeiro passo é separar despesas essenciais, dívidas, gastos recorrentes e consumo não essencial.

Depois, vale observar especialmente pagamentos de juros.

Uma prestação pequena pode parecer inofensiva isoladamente. O problema aparece quando cinco, dez ou quinze parcelamentos coexistem na mesma fatura.

Também é importante calcular o custo total antes de renegociar uma dívida. Uma parcela menor pode aliviar o mês, mas um prazo muito longo pode aumentar significativamente o montante final pago.

Supermercado exige estratégia quando orçamento está apertado

Como alimentação é uma despesa inevitável, pequenos ajustes podem ter efeito acumulado.

Comparar preço por quilo ou litro, evitar desperdício, planejar refeições e observar promoções de produtos realmente utilizados são atitudes mais eficientes do que simplesmente escolher o item com menor preço na prateleira.

Outro cuidado é diferenciar preço da embalagem e preço proporcional.

Um pacote maior pode custar mais, mas ser mais barato por unidade. O contrário também pode acontecer quando a promoção aparentemente vantajosa não reduz o valor proporcional.

Para famílias que realizam várias compras pequenas durante o mês, registrar os gastos também pode revelar despesas que passam despercebidas.

O brasileiro está deixando de consumir?

Os dados sugerem que o espaço para consumo discricionário está cada vez mais restrito.

Isso não significa que as famílias deixaram completamente de comprar roupas, eletrodomésticos, viajar ou frequentar restaurantes.

Significa que essas decisões disputam espaço com um conjunto maior de despesas obrigatórias.

Quando apenas uma parcela pequena da renda permanece livre, uma conta inesperada — como conserto do carro, medicamento ou manutenção da casa — pode consumir todo o orçamento disponível daquele mês.

Sem reserva financeira, o cartão ou empréstimo passa a funcionar como solução imediata.

E é justamente aí que um problema temporário pode se transformar em endividamento prolongado.

Inflação desacelera, mas orçamento continuará no centro das preocupações

Os números mais recentes mostram uma combinação pouco simples para as famílias brasileiras.

De um lado, o IPCA desacelerou para 4,44% em 12 meses em julho de 2026, depois de registrar 4,64% em junho.

De outro, o país chegou a 83,7 milhões de consumidores inadimplentes, recorde da série da Serasa.

Ao mesmo tempo, a taxa Selic, mesmo após cair para 14% ao ano em agosto, continua elevada e mantém o crédito caro.

Esse conjunto ajuda a explicar por que a sensação de aperto persiste mesmo quando alguns indicadores começam a apresentar melhora.

Se a estimativa de que apenas R$ 20 permanecem disponíveis a cada R$ 100 recebidos retrata o momento das famílias, o problema não está apenas no preço de um produto específico. Está no acúmulo de despesas básicas, dívidas, juros e perda de espaço no orçamento.

Para o consumidor, a melhora dependerá principalmente da combinação entre renda real maior, inflação controlada, redução do endividamento e crédito menos oneroso. Até que esses fatores avancem juntos, grande parte das famílias continuará sentindo que o salário entra na conta já praticamente comprometido.

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