Chegar à aposentadoria deveria significar mais tranquilidade. Para milhões de brasileiros, porém, esse momento pode vir acompanhado de uma descoberta difícil: o benefício do INSS talvez não seja suficiente para manter o mesmo padrão de vida construído durante os anos de trabalho.
Um levantamento do SPC Brasil e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, a CNDL, estimou que 104,7 milhões de brasileiros adultos não se preparavam financeiramente para a aposentadoria. O equivalente a oito em cada dez pessoas ouvidas não formava uma reserva para complementar a renda futura.
O número merece uma ressalva importante: a pesquisa “O Preparo para Aposentadoria no Brasil” foi publicada originalmente em abril de 2018. Portanto, os 104,7 milhões não representam uma contagem atualizada de 2026.
Ainda assim, as dificuldades identificadas no estudo permanecem atuais: orçamento apertado, desemprego, informalidade e falta de conhecimento financeiro continuam dificultando o planejamento de longo prazo. Ao mesmo tempo, o Brasil envelhece rapidamente, aumentando a urgência do debate.
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O que o estudo revelou sobre a aposentadoria

A pesquisa do SPC Brasil e da CNDL mostrou que 78% dos brasileiros adultos ainda não aposentados não se preparavam financeiramente para essa fase da vida.
Apenas 19% disseram tomar alguma medida para formar uma renda complementar. O percentual subia para 25% entre os homens, 26% entre os entrevistados mais velhos e 30% nas classes A e B.
A estimativa de 104,7 milhões foi calculada a partir da população adulta existente na época. Ela não significa que todas essas pessoas necessariamente chegarão à velhice sem renda, pois parte poderá passar a economizar, contribuir com o INSS ou contratar uma previdência complementar posteriormente.
O dado mostra, sobretudo, quantos brasileiros estavam sem um planejamento específico naquele momento. A pesquisa original pode ser consultada no material divulgado pela CNDL e pelo SPC Brasil.
Por que os brasileiros não conseguem se preparar?
A falta de planejamento não acontece apenas porque as pessoas ignoram a importância da aposentadoria. Em muitos casos, o problema é mais imediato: não há dinheiro disponível depois do pagamento das despesas mensais.
Entre aqueles que não se preparavam, 47% afirmaram que não sobrava dinheiro no orçamento. Outros 22% estavam desempregados.
O estudo também encontrou pessoas que tentaram começar, mas precisaram interromper:
- 19% começaram a guardar, mas pararam devido a problemas financeiros;
- 15% tinham outras prioridades e planos;
- Uma parcela não sabia como organizar uma reserva;
- Outros acreditavam que ainda era cedo para pensar no assunto.
Essas respostas mostram que o comportamento não pode ser explicado simplesmente como falta de responsabilidade. Uma família que precisa escolher entre pagar o aluguel, comprar alimentos ou guardar para daqui a 30 anos tende a priorizar as necessidades atuais.
A informalidade cria outro obstáculo
Trabalhadores com carteira assinada têm a contribuição ao INSS descontada do salário. Para autônomos, profissionais informais e pessoas temporariamente sem emprego, o recolhimento depende de iniciativa própria.
Quando a contribuição é interrompida por longos períodos, o trabalhador pode demorar mais para cumprir os requisitos da aposentadoria. Também corre o risco de perder a qualidade de segurado, situação que pode afetar o acesso a benefícios como auxílio por incapacidade e pensão por morte para os dependentes.
Quem trabalha por conta própria pode contribuir como segurado individual. Quem não exerce atividade remunerada, mas deseja manter a proteção previdenciária, pode recolher como segurado facultativo.
Em 2026, o plano simplificado utiliza uma alíquota de 11% sobre o salário mínimo. Há ainda a contribuição de 5% para o microempreendedor individual e para o segurado facultativo de baixa renda que cumpra as condições exigidas.
Essas modalidades garantem proteção previdenciária, mas possuem regras próprias. O plano simplificado, por exemplo, normalmente limita o benefício ao salário mínimo e pode exigir complementação para determinadas finalidades.
Receber aposentadoria não é o mesmo que manter o padrão de vida
O INSS funciona como uma proteção social. Ele paga aposentadorias e também cobre riscos como incapacidade, maternidade e morte do segurado.
Entretanto, o benefício não garante automaticamente a manutenção da renda que a pessoa possuía durante a vida profissional.
Em 2026, o piso previdenciário é de R$ 1.621, equivalente ao salário mínimo. O teto dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social é de R$ 8.475,55, conforme a Portaria Interministerial MPS/MF nº 13.
O teto é o maior valor que pode ser pago pelo INSS nas condições regulares, mas contribuir sobre o limite máximo não significa receber automaticamente esse montante. O cálculo considera o histórico de contribuições e as regras aplicáveis ao segurado.
Uma pessoa que ganhava R$ 7 mil por mês, por exemplo, pode se aposentar com valor inferior à remuneração habitual. Se não tiver reduzido suas despesas ou formado outra fonte de renda, enfrentará uma queda no padrão de vida.
Despesas podem aumentar durante a velhice
Muitos brasileiros imaginam que gastarão menos depois de parar de trabalhar. Algumas despesas realmente podem diminuir, como transporte diário, roupas profissionais e alimentação fora de casa.
Outros custos, porém, podem aumentar. Medicamentos, consultas, planos de saúde, cuidadores e adaptações na residência costumam pesar mais no orçamento conforme a idade avança.
Também é comum que aposentados continuem ajudando filhos, netos ou outros familiares. Há ainda despesas que não desaparecem, como moradia, energia, alimentação, impostos e manutenção da casa.
Por isso, o planejamento não deve considerar apenas quanto será necessário para sobreviver. É preciso pensar na renda capaz de sustentar uma vida digna, inclusive diante de imprevistos.
Brasil terá cada vez mais idosos
A preocupação se torna maior quando analisada junto ao envelhecimento da população.
Segundo as projeções atualizadas do IBGE, a população brasileira deve parar de crescer em 2041. A partir de 2042, o país começará a registrar redução no número total de habitantes.
Enquanto isso, a população idosa continuará aumentando. Em 2070, o Brasil deverá ter aproximadamente 75,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 37,8% da população.
Isso significa que quase quatro em cada dez habitantes serão idosos. Os números fazem parte das Projeções da População divulgadas pelo IBGE.
Menos trabalhadores para mais beneficiários
O sistema público brasileiro funciona principalmente pelo regime de repartição. Na prática, as contribuições recolhidas pelos trabalhadores e pelas empresas ajudam a financiar os benefícios pagos no mesmo período.
Não é uma conta individual em que todo o dinheiro depositado fica guardado exclusivamente para o próprio trabalhador.
Quando a quantidade de idosos cresce e o número de pessoas em idade ativa diminui, a relação entre contribuintes e beneficiários fica mais apertada. Esse cenário aumenta a pressão sobre as contas previdenciárias e exige ajustes nas políticas públicas.
Isso não significa que o INSS esteja prestes a acabar ou que os benefícios deixarão de ser pagos. O sistema é garantido por lei e integra a seguridade social brasileira. O envelhecimento, contudo, torna necessário discutir financiamento, regras de acesso e sustentabilidade.
A aposentadoria do INSS continua sendo fundamental
A preocupação com o futuro da Previdência não deve levar o trabalhador a abandonar as contribuições.
O INSS não oferece apenas uma renda na velhice. Dependendo do cumprimento dos requisitos, o segurado também pode ter acesso a:
- Benefício por incapacidade temporária;
- Aposentadoria por incapacidade permanente;
- Salário-maternidade;
- Auxílio-acidente;
- Pensão por morte para os dependentes;
- Auxílio-reclusão para dependentes de segurado de baixa renda.
Uma aplicação financeira particular não substitui essas proteções. Por outro lado, o INSS também não deve ser confundido com uma reserva de investimento destinada a manter integralmente o padrão de consumo.
As duas estratégias podem trabalhar juntas: a Previdência Social oferece a proteção básica, enquanto a reserva pessoal ajuda a complementar a renda.
Como descobrir quanto falta para se aposentar
O primeiro passo é consultar o Cadastro Nacional de Informações Sociais, conhecido como CNIS. Esse documento reúne vínculos de emprego, salários e contribuições registradas no nome do trabalhador.
A consulta pode ser feita pelo site ou aplicativo Meu INSS. Na plataforma, também está disponível o serviço “Simular Aposentadoria”.
A simulação utiliza os dados existentes no sistema para indicar quanto tempo falta nas diferentes regras. O resultado é apenas uma projeção e não garante a concessão, pois os documentos serão analisados quando o pedido for apresentado.
O trabalhador deve procurar possíveis falhas, como:
- Empregos que não aparecem;
- Salários registrados com valor incorreto;
- Contribuições pagas que não foram reconhecidas;
- Períodos trabalhados sem recolhimento;
- Dados pessoais divergentes;
- Atividade rural ou especial ainda não comprovada.
Quanto mais cedo o erro for identificado, maior será o tempo disponível para localizar carteiras de trabalho, comprovantes, carnês e outros documentos.
Como começar uma reserva mesmo ganhando pouco
Formar uma reserva não exige começar com grandes valores. A primeira meta pode ser simplesmente criar regularidade.
Uma pessoa que guarda R$ 20 ou R$ 50 por mês já está construindo o hábito. Quando a renda melhorar ou uma dívida terminar, o valor poderá ser aumentado.
Organize o orçamento antes de investir
O trabalhador precisa conhecer quanto ganha, quanto gasta e quais despesas podem ser ajustadas.
Durante pelo menos um mês, vale anotar:
- Renda líquida;
- Gastos fixos;
- Compras parceladas;
- Dívidas;
- Despesas variáveis;
- Gastos que poderiam ser reduzidos.
Antes de pensar na aposentadoria, normalmente é recomendável criar uma reserva de emergência. Esse dinheiro serve para situações como desemprego, doença ou reparos inesperados e evita que a pessoa resgate investimentos de longo prazo.
Comece com um valor possível
Um percentual fixo pode funcionar para quem possui renda estável. Guardar 5%, 10% ou 15% todos os meses, por exemplo, ajuda a transformar a contribuição em parte do orçamento.
Para quem tem renda variável, pode ser mais realista separar uma parcela de cada pagamento recebido.
O importante é não definir uma meta impossível. Um plano que exige R$ 500 por mês, mas é abandonado depois de três meses, pode ser menos eficiente do que guardar R$ 100 de forma contínua.
Aumente a reserva aos poucos
Uma estratégia prática é direcionar parte de qualquer aumento de renda para o futuro.
Isso pode ser feito quando houver:
- Reajuste salarial;
- Pagamento do décimo terceiro;
- Trabalho extra;
- Restituição do Imposto de Renda;
- Quitação de uma dívida;
- Redução de uma despesa recorrente.
Se uma prestação de R$ 200 terminou, por exemplo, parte desse valor pode passar a ser destinada automaticamente à aposentadoria.
Onde guardar dinheiro para a aposentadoria
Não existe um investimento único indicado para todas as pessoas. A escolha depende do prazo, da renda, da tolerância a oscilações e da necessidade de acesso ao dinheiro.
Entre as alternativas normalmente usadas estão títulos públicos, produtos bancários de renda fixa, fundos de investimento, previdência privada e, para perfis compatíveis, investimentos com maior oscilação.
Tesouro Direto
Os títulos públicos são emitidos pelo Governo Federal. Entre eles, existem opções ligadas à inflação, usadas por alguns investidores em objetivos de longo prazo.
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O preço pode oscilar se o título for vendido antes do vencimento. Por isso, é necessário entender o prazo e as regras antes de investir.
CDB, LCI e LCA
Esses produtos são emitidos por instituições financeiras. O investidor deve observar rentabilidade, vencimento, possibilidade de resgate e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos quando aplicável.
Não basta escolher o investimento que anuncia o maior percentual. Liquidez e segurança também precisam ser consideradas.
Previdência privada
Os planos privados são divididos principalmente entre PGBL e VGBL. Eles podem ser úteis em planejamentos de longo prazo, sucessão patrimonial e organização tributária.
Antes da contratação, é importante comparar taxa de administração, taxa de carregamento, regime de tributação, qualidade do fundo e condições de resgate.
Previdência privada não é sinônimo de retorno garantido. O desempenho depende dos investimentos feitos pelo fundo, e custos elevados podem reduzir bastante o resultado.
Quanto é preciso juntar?
O valor necessário depende de três perguntas:
- Qual renda mensal a pessoa deseja ter?
- Quanto provavelmente receberá do INSS?
- Por quanto tempo a reserva precisará durar?
Imagine, em um exemplo hipotético, que um trabalhador queira receber R$ 4 mil por mês e estime uma aposentadoria de R$ 2.500 pelo INSS. Ele precisará construir uma fonte complementar próxima de R$ 1.500 mensais.
O cálculo deve considerar inflação, rentabilidade, expectativa de vida, impostos e possíveis despesas médicas.
Ferramentas de simulação podem ajudar, mas projeções de várias décadas não são exatas. Por isso, o planejamento precisa ser revisado periodicamente.
Quem começou tarde ainda consegue se preparar?
Sim, embora o esforço mensal provavelmente seja maior.
Quem começa aos 25 anos tem décadas para acumular recursos e aproveitar os rendimentos. Quem inicia aos 50 possui menos tempo e pode precisar guardar uma parcela maior da renda, adiar a aposentadoria ou ajustar o padrão de vida esperado.
Começar tarde não é motivo para desistir. Algumas medidas possíveis são:
- Organizar e quitar dívidas caras;
- Regularizar contribuições ao INSS;
- Reduzir despesas permanentes;
- Criar uma reserva de emergência;
- Aumentar gradualmente os aportes;
- Considerar uma renda complementar na aposentadoria;
- Rever a idade planejada para parar de trabalhar.
Também é importante evitar soluções milagrosas. A promessa de recuperar o tempo perdido rapidamente costuma vir acompanhada de riscos elevados ou golpes.
O que o trabalhador deve fazer agora
O número de 104,7 milhões de brasileiros sem preparo financeiro vem de uma pesquisa publicada em 2018 e não deve ser apresentado como uma estimativa produzida em 2026. Mesmo assim, o alerta continua válido.
O Brasil está envelhecendo, e uma parcela expressiva da população enfrenta dificuldade para guardar dinheiro. Ao mesmo tempo, depender apenas do benefício previdenciário pode provocar uma queda relevante na renda após a aposentadoria.
O próximo passo não precisa ser complicado. O trabalhador pode começar consultando o CNIS, realizando a simulação no Meu INSS e levantando suas despesas mensais.
Depois, deve formar uma reserva possível, ainda que pequena. O planejamento pode mudar ao longo do tempo, mas adiá-lo continuamente aumenta o risco de chegar à velhice sem recursos suficientes para parar de trabalhar.
Perguntas frequentes
Mais de 100 milhões de brasileiros não se preparam para a aposentadoria?
O SPC Brasil e a CNDL estimaram que 104,7 milhões de adultos não se preparavam financeiramente. O levantamento, porém, foi publicado em 2018 e não representa uma contagem atualizada de 2026.
O INSS será suficiente para viver na aposentadoria?
Isso depende do valor do benefício e das despesas de cada pessoa. Muitos trabalhadores podem sofrer redução de renda ao se aposentar, especialmente aqueles que ganhavam acima do valor calculado pelo INSS.
Qual é o valor máximo da aposentadoria do INSS em 2026?
O teto do INSS em 2026 é de R$ 8.475,55. Esse é o limite máximo, mas o segurado não recebe esse valor automaticamente. O cálculo considera seu histórico contributivo e a regra de aposentadoria.
Quem está desempregado pode contribuir para o INSS?
Sim. Quem não exerce atividade remunerada pode contribuir como segurado facultativo. É necessário escolher corretamente o plano e o código de pagamento.
É possível se aposentar apenas com previdência privada?
A previdência privada pode gerar renda complementar, mas não oferece todas as proteções do INSS. O ideal é avaliar as duas alternativas como partes diferentes do planejamento.
Quanto devo guardar por mês para a aposentadoria?
Não existe um valor igual para todos. A quantia depende da idade, renda desejada, prazo disponível, patrimônio atual e benefício estimado do INSS. O mais importante é começar com um valor compatível com o orçamento e aumentá-lo gradualmente.
Como saber quanto tempo falta para minha aposentadoria?
O trabalhador pode consultar o CNIS e utilizar o serviço “Simular Aposentadoria” no site ou aplicativo Meu INSS. A simulação é apenas orientativa.



