A montadora chinesa BYD, considerada a maior fabricante de veículos elétricos e híbridos plug-in do mundo, divulgou seu resultado financeiro do segundo trimestre de 2025 e confirmou o que o mercado temia: queda de 30% no lucro líquido, redução da produção por dois meses consecutivos e queda nas vendas domésticas em plena guerra de preços no setor automotivo da China.
Bolsa em alerta: BYD registra queda significativa no lucro e nas ações
Lucro da BYD cai 30% no 2º trimestre e produção recua; ações despencam com guerra de preços e restrições do governo chinês.
As ações da companhia recuaram fortemente nas bolsas de Hong Kong (-5,2%) e Shenzhen (-3,8%), refletindo a desconfiança dos investidores com o novo momento da montadora, que até pouco tempo liderava a expansão agressiva dos eletrificados no país.
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Resultados trimestrais decepcionam após anos de crescimento acelerado
Primeira queda de lucro em mais de três anos
A BYD registrou lucro líquido de 6,4 bilhões de iuans (US$ 895 milhões) no segundo trimestre, queda de 30% em relação ao mesmo período do ano passado. A desaceleração marca a primeira retração no lucro em mais de três anos, depois de uma performance surpreendente no primeiro trimestre, quando a empresa dobrou seus lucros.
A mudança de ritmo preocupa analistas, que apontam para o fim de um ciclo de crescimento acelerado, alimentado por cortes de preços agressivos e expansão da produção.
Produção em queda pelo segundo mês consecutivo
Em agosto, a BYD produziu 353.090 veículos eletrificados (elétricos e híbridos plug-in) em todo o mundo, representando uma queda de 3,78% em relação a agosto de 2024. No mês anterior, a retração havia sido de 0,9%.
A sequência de dois meses negativos marca um alerta para a montadora, que até então vinha crescendo em ritmo constante, impulsionada por sua cadeia de produção verticalmente integrada e alta capacidade de escalar a fabricação.
Vendas em queda e guerra de preços sob pressão estatal
Vendas domésticas recuam 14,3% em agosto
A BYD também informou que suas vendas na China recuaram 14,3% em comparação com o mesmo mês do ano passado, resultado atribuído ao esfriamento do mercado interno e ao impacto das políticas do governo chinês que visam controlar a guerra de preços no setor.
Pressão do governo chinês para conter cortes de preços
Após anos de guerra de preços desenfreada, o governo da China demonstrou preocupação com a sustentabilidade do setor automotivo e ordenou que as montadoras freassem os descontos excessivos, temendo o colapso financeiro de empresas menores e o desequilíbrio do mercado.
Como consequência, a BYD — uma das mais agressivas no corte de preços — perde parte de sua vantagem competitiva.
Analistas reagem: o “trem da alegria” perdeu força

Avaliação da Jefferies: competitividade corroída
A corretora Jefferies, em nota a clientes, descreveu o desempenho da BYD como um reflexo de “brigas de vendas e ventos contrários estruturais” que comprometem sua posição de liderança.
“O trem da alegria da BYD – alimentado por escala, cortes de custos e liderança tecnológica – perdeu velocidade. Até que recupere o ímpeto, parece provável um desempenho inferior”, afirma o relatório.
A expressão simboliza o fim de um ciclo de exuberância no qual a empresa parecia imune a choques externos.
Perda de confiança no curto prazo
Para o mercado financeiro, o alerta é claro: a BYD pode não manter a liderança sem ajustar sua estratégia. Investidores se mostram preocupados com a erosão de margens de lucro, o excesso de oferta no mercado chinês e a possibilidade de uma consolidação no setor em que empresas menores serão absorvidas ou forçadas a sair do mercado.
Meta ambiciosa em risco: 5,5 milhões de carros em 2025
Vendas até julho representam apenas 45% da meta
A BYD estabeleceu como meta vender 5,5 milhões de veículos eletrificados em 2025, mas até o fim de julho havia comercializado apenas 2,49 milhões, o que representa 45% da meta anual.
Com a desaceleração das vendas nos últimos meses, analistas já duvidam da capacidade da empresa de atingir o objetivo sem adotar novas estratégias ou ampliar mercados externos com rapidez.
Fatores estruturais que ameaçam a BYD
Saturação do mercado doméstico
A China, maior mercado de veículos elétricos do mundo, está se aproximando da saturação em determinadas faixas de preços, especialmente nos modelos de entrada, onde a BYD domina. Isso significa que o crescimento futuro dependerá da expansão internacional e inovação em modelos premium.
Concorrência acirrada e novas montadoras
A entrada de novas startups automotivas chinesas, como Nio, Li Auto, Leapmotor e até Xiaomi, além da presença de gigantes como Tesla e Geely, impõe um ambiente cada vez mais competitivo.
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Com o freio nos subsídios governamentais e pressão regulatória, as margens de lucro tornam-se cada vez mais apertadas.
Internacionalização como alternativa
A empresa já iniciou expansão em mercados como América Latina, Europa e Sudeste Asiático, com destaque para a fábrica em construção na Bahia, Brasil. No entanto, os desafios logísticos e regulatórios fora da China ainda são grandes e podem frear o ritmo.
Ações da BYD: desempenho em bolsa após a divulgação
Queda nos mercados asiáticos
Após a divulgação dos resultados, os papéis da BYD listados em Hong Kong fecharam em queda de 5,2%, enquanto as ações em Shenzhen recuaram 3,8%.
A reação negativa é explicada pela frustração das expectativas dos investidores, que esperavam um crescimento sustentado após os fortes resultados do primeiro trimestre.
Preocupação com margens e guidance
A BYD ainda não revisou oficialmente sua projeção anual, mas a combinação de queda nas vendas, desaceleração na produção e margem pressionada aumenta a incerteza sobre os próximos trimestres.
O que esperar para o futuro?
Necessidade de ajustes estratégicos
Para voltar a crescer, a BYD deve:
- Redefinir sua estratégia de preços, sem depender exclusivamente de descontos agressivos;
- Acelerar a inovação tecnológica, com foco em baterias, software e experiência do usuário;
- Expandir presença em mercados internacionais, com abordagem local e parcerias estratégicas;
- Diversificar portfólio de produtos, apostando em veículos de médio e alto padrão.
Investidores devem ficar atentos

No curto prazo, os analistas recomendam cautela com os papéis da BYD, diante do cenário macroeconômico desafiador e das incertezas regulatórias na China.
Contudo, no longo prazo, a empresa ainda é vista como referência em verticalização, eficiência e escala, o que pode sustentar uma retomada se as condições de mercado forem ajustadas.
Imagem: LewisTsePuiLung / iStock
