A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, sem restrições, a compra da Desktop pela Claro. A decisão representa um avanço importante para uma operação avaliada em R$ 4 bilhões e que amplia a presença da Claro no mercado de banda larga fixa em São Paulo.
A análise do órgão antitruste identificou sobreposição entre as duas empresas em 198 municípios paulistas. Em algumas dessas cidades, a participação conjunta será bastante elevada, mas o Cade concluiu que a presença de outros provedores e as condições de concorrência reduzem a possibilidade de exercício unilateral de poder de mercado.
A operação já havia recebido anuência prévia da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), depois de inicialmente levantar preocupações sobre seus possíveis efeitos para o setor.
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O que o Cade decidiu sobre a compra da Desktop pela Claro?

A Superintendência-Geral do Cade considerou que a aquisição pode ser realizada sem a imposição de medidas ou restrições concorrenciais.
O principal ponto da análise foi o mercado de banda larga fixa. Claro e Desktop atuam em diversas das mesmas localidades, o que poderia aumentar a concentração em determinados municípios.
Mesmo diante dessa sobreposição, o órgão avaliou que existem concorrentes locais e nacionais capazes de manter a disputa por consumidores. A infraestrutura já disponível e as condições para entrada ou expansão de outras empresas também pesaram na decisão.
Com isso, o Cade entendeu que não havia elementos suficientes para impedir a operação ou exigir medidas específicas das companhias.
Claro e Desktop atuam nas mesmas cidades
A Desktop possui aproximadamente 1,2 milhão de clientes em 198 municípios do Estado de São Paulo. Sua participação no mercado paulista é estimada em 7,6%.
A Claro, por sua vez, possui cerca de 4,5 milhões de clientes em São Paulo, com participação de 28,3%. A Vivo aparece à frente, com aproximadamente 4,9 milhões de clientes e 31% de participação.
A aquisição, portanto, fortalece a posição da Claro em um mercado no qual a empresa já está entre as principais operadoras.
O impacto, porém, não será igual em todas as cidades. A concentração tende a ser mais relevante nos municípios em que as duas companhias já possuem uma presença significativa.
Por que o Cade não viu risco suficiente para barrar a operação?
A participação de mercado elevada em algumas cidades foi considerada pelo Cade, mas não foi analisada isoladamente.
O órgão avaliou fatores como a existência de provedores regionais, a infraestrutura de redes e a possibilidade de outras empresas ampliarem sua atuação.
Na prática, a lógica é que uma empresa pode ter uma participação relevante sem necessariamente conseguir agir de maneira independente dos concorrentes. Se consumidores tiverem alternativas e outras operadoras conseguirem disputar esse mercado, o poder de mercado da companhia pode ser limitado.
O Cade também considerou a chamada contestabilidade do mercado, ou seja, a possibilidade de concorrentes existentes ou novos participantes pressionarem a empresa adquirente.
O que acontece com as redes das duas empresas?
Outro aspecto analisado foi a infraestrutura.
Como Claro e Desktop possuem redes que se sobrepõem em determinadas regiões, a aquisição poderá levar à utilização de uma estrutura única em locais onde manter duas redes seja economicamente desnecessário.
Segundo a análise do Cade, a Claro terá incentivos econômicos para desocupar gradualmente infraestruturas consideradas redundantes.
Isso não significa que todas as redes da Desktop serão imediatamente desligadas. A integração dependerá de decisões técnicas e comerciais tomadas durante o processo de incorporação das operações.
A Anatel já tinha aprovado a compra?
Sim. A operação recebeu anuência prévia da Anatel em maio.
A atuação da Anatel e a do Cade são diferentes. Enquanto a agência reguladora acompanha questões relacionadas ao funcionamento do setor de telecomunicações, o Cade avalia especificamente os efeitos de operações empresariais sobre a concorrência.
A aprovação da Anatel foi precedida por uma fase de maior preocupação regulatória.
Por que a Anatel chegou a demonstrar preocupação?
Em outubro de 2025, quando surgiram informações sobre as negociações entre Claro e Desktop, uma análise preliminar da Anatel apontou possíveis efeitos negativos sobre a concorrência e a entrada de novos competidores.
A preocupação estava relacionada principalmente à concentração de clientes e infraestrutura em determinados municípios.
O mercado brasileiro de banda larga fixa possui, além das grandes operadoras, centenas de provedores regionais. Em algumas cidades, essas empresas têm papel importante na disputa por consumidores.
Após análises posteriores, entretanto, a operação avançou e recebeu a anuência da agência.
Quanto a Claro vai pagar pela Desktop?
A operação foi anunciada por R$ 4 bilhões.
Desse total, R$ 2,4 bilhões correspondem aos ativos envolvidos na transação. Outros R$ 1,6 bilhão estão relacionados à dívida líquida que será assumida.
A Claro ficará inicialmente com 84 milhões de ações ordinárias da Desktop, equivalentes a aproximadamente 73% da operadora.
Os vendedores incluem o fundo Makalu Brasil Partners, controlado pela gestora norte-americana HIG Capital, além de um grupo de pessoas físicas, entre elas o fundador da Desktop, Denio Alves Lindo.
Claro pretende comprar os 27% restantes
A aquisição não termina na compra dos 73% inicialmente previstos.
Em uma segunda etapa, a Claro deverá realizar uma oferta para adquirir os 27% restantes das ações da Desktop que permanecem no mercado.
Caso a operação seja concluída conforme planejado, a participação da Claro poderá avançar para o controle integral da companhia.
Quem é a Desktop?
A Desktop nasceu em 1997, em Sumaré, no interior de São Paulo.
A empresa ganhou velocidade de expansão depois de receber, em 2020, um aporte da HIG Capital. No ano seguinte, abriu capital e passou a ter suas ações negociadas em Bolsa.
Antes de chegar a um acordo com a Claro, a Desktop também manteve conversas com a Vivo. As negociações, porém, não avançaram porque as empresas não chegaram a um acordo sobre o preço.
Desde o fim de 2025, a companhia vinha conversando com a Claro sobre a transação que acabou sendo anunciada oficialmente em março.
O que muda para os clientes da Desktop?
A aprovação do Cade não significa que os clientes terão mudanças imediatas nos planos de internet.
Contratos, velocidades, preços, canais de atendimento e condições comerciais podem continuar normalmente enquanto o processo de integração é realizado.
Caso a Claro decida alterar algum serviço ou condição contratual, os consumidores deverão ser informados de acordo com as regras aplicáveis às relações de consumo e ao setor de telecomunicações.
Também é possível que, ao longo da integração, ocorram mudanças na utilização da infraestrutura e na forma de atendimento aos clientes.
A internet pode ficar mais cara depois da aquisição?
A aprovação do Cade não determina qualquer aumento de preços.
O efeito sobre as mensalidades dependerá das estratégias comerciais adotadas pela Claro e das condições de concorrência existentes em cada município.
A presença de outros provedores é justamente um dos fatores que podem limitar a capacidade de uma operadora elevar preços sem considerar a reação dos consumidores e dos concorrentes.
Por isso, não é possível afirmar que a aquisição resultará automaticamente em internet mais cara.
A compra reduz a concorrência em São Paulo?
A operação aumenta a concentração em algumas localidades, mas o Cade concluiu que isso não seria suficiente para comprometer a concorrência de maneira significativa.
A análise considerou a atuação de empresas nacionais e provedores locais capazes de disputar clientes com a Claro.
O cenário, contudo, poderá ser diferente entre os 198 municípios onde existe sobreposição. A quantidade de concorrentes, a cobertura de cada rede e a participação das empresas variam de uma cidade para outra.
O que a aquisição representa para a Claro?
A compra da Desktop fortalece a presença da Claro em São Paulo e amplia sua base de clientes de banda larga fixa.
A operação também permite à companhia incorporar uma empresa que construiu uma forte presença regional, especialmente no interior paulista.
Para a Claro, o negócio representa uma oportunidade de ampliar escala e consolidar sua posição em um dos mercados mais importantes do país.
Para o setor, a transação reforça um movimento de consolidação entre empresas de telecomunicações, ao mesmo tempo em que mantém sob análise a capacidade dos provedores regionais de competir em seus mercados.
O que falta para a operação ser concluída?
A aprovação da Superintendência-Geral do Cade elimina uma das principais etapas regulatórias da operação.
Como a transação também já recebeu anuência prévia da Anatel, o negócio avançou significativamente em seu processo de implementação.
Ainda permanecem os procedimentos societários e operacionais necessários para a conclusão da aquisição e, posteriormente, a oferta destinada aos acionistas que detêm os 27% restantes da Desktop.
O que o consumidor deve acompanhar?

Para quem é cliente da Desktop, não há necessidade de tomar uma medida específica apenas por causa da aprovação do Cade.
O mais importante é acompanhar eventuais comunicados oficiais sobre mudanças em planos, contratos, atendimento ou infraestrutura.
Já consumidores que estão avaliando planos de internet devem continuar comparando preço, velocidade, estabilidade, cobertura e qualidade do atendimento entre as opções disponíveis em sua cidade.
A decisão do Cade preserva, segundo a avaliação do órgão, condições suficientes para a concorrência. Na prática, o comportamento dos demais provedores será fundamental para determinar como o mercado ficará após a integração das empresas.
Conclusão
A compra da Desktop pela Claro foi aprovada sem restrições pela Superintendência-Geral do Cade, mesmo com a identificação de sobreposição entre as empresas em 198 municípios de São Paulo.
O órgão concluiu que a presença de concorrentes, a infraestrutura disponível e as condições de entrada e expansão do mercado são suficientes para reduzir os riscos concorrenciais.
A operação de R$ 4 bilhões representa uma expansão importante para a Claro, que poderá incorporar cerca de 1,2 milhão de clientes da Desktop. Para os consumidores, os efeitos mais concretos ainda dependerão da integração das empresas e das decisões comerciais que serão tomadas nos próximos meses.
