A redução no uso de fertilizantes em importantes regiões agrícolas do mundo começa a despertar preocupação sobre o futuro da produção de alimentos. O alerta ganhou força após declarações de Svein Tore Holsether, CEO da Yara International, que apontou o aumento dos custos dos insumos como um dos principais motivos para produtores diminuírem a aplicação de nutrientes nas lavouras.
O problema não necessariamente aparece de imediato. Uma safra pode manter resultados próximos do esperado mesmo quando o produtor reduz a quantidade de nutrientes utilizada. Porém, a manutenção dessa estratégia por várias temporadas pode comprometer a fertilidade do solo e limitar o potencial produtivo das culturas.
Segundo Holsether, cerca de metade da produção mundial de alimentos está relacionada diretamente ao uso de fertilizantes. A avaliação reforça a importância do insumo para a agricultura moderna, embora a quantidade adequada varie conforme o solo, a cultura, o clima e as condições de cada propriedade.
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Por que a redução de fertilizantes preocupa?

Os fertilizantes fornecem nutrientes fundamentais para o desenvolvimento das plantas, principalmente nitrogênio, fósforo e potássio. Quando a reposição fica abaixo da necessidade da cultura, o solo pode perder parte de sua capacidade de sustentar elevados níveis de produtividade.
A Embrapa destaca que a fertilidade do solo é um dos fatores que podem ser manejados para melhorar as condições de produção agrícola. O órgão também ressalta a importância dos fertilizantes, corretivos e condicionadores para a construção de um ambiente adequado ao desenvolvimento das culturas.
Isso não significa, entretanto, que aumentar indiscriminadamente a quantidade de fertilizante seja a solução. A recomendação agronômica busca justamente equilibrar produtividade, custo e eficiência no aproveitamento dos nutrientes.
Na prática, o produtor precisa decidir quanto aplicar considerando análise do solo, expectativa de produtividade, cultura plantada e relação entre o preço do fertilizante e o valor esperado da produção.
O efeito pode aparecer somente depois
A principal preocupação apontada pela Yara é que a economia feita hoje pode produzir consequências em safras futuras. Quando a reposição de nutrientes permanece abaixo da necessidade da lavoura, o impacto sobre a produtividade pode se tornar mais evidente com o passar do tempo.
Além disso, fertilizantes não são o único fator determinante para uma boa colheita. Chuvas, temperatura, ocorrência de pragas, doenças, qualidade das sementes e manejo também interferem diretamente no resultado.
Por isso, uma eventual queda na produção mundial não pode ser atribuída exclusivamente à menor aplicação de fertilizantes. O risco aumenta quando diferentes problemas aparecem simultaneamente.
Brasil está especialmente exposto ao problema
O cenário merece atenção especial no Brasil devido à dependência do país em relação aos fertilizantes importados. A Embrapa estima que aproximadamente 85% dos fertilizantes consumidos nacionalmente são provenientes do exterior.
Essa característica deixa o agronegócio brasileiro mais vulnerável a variações cambiais, custos de energia, fretes internacionais, problemas logísticos e conflitos geopolíticos.
Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) mostram a dimensão desse mercado. Entre janeiro e outubro de 2025, foram entregues ao mercado brasileiro cerca de 40,95 milhões de toneladas de fertilizantes, volume 8,4% superior ao registrado no mesmo período de 2024.
Mesmo com uma demanda elevada, o Brasil continua dependente do mercado internacional para garantir o abastecimento de nutrientes utilizados nas lavouras.
Preços e geopolítica aumentam a pressão
A indústria de fertilizantes é particularmente sensível aos custos de energia e às condições do comércio internacional. Matérias-primas, gás natural, transporte marítimo e disponibilidade de determinados minerais podem alterar significativamente o preço final pago pelo produtor.
Esse cenário ganha complexidade quando conflitos ou interrupções em rotas estratégicas afetam o comércio mundial. O resultado pode ser uma combinação de fertilizantes mais caros, crédito agrícola pressionado e produtores reduzindo ou adiando compras.
Para o agricultor, a decisão é essencialmente econômica: se o custo do insumo aumenta muito em relação à receita esperada da safra, existe maior incentivo para reduzir despesas.
O que isso pode significar para os alimentos?

Uma queda persistente na produtividade agrícola pode afetar a oferta de commodities e, dependendo da cultura e das condições internacionais, contribuir para pressões sobre os preços dos alimentos.
O efeito não é automático. Estoques, importações, produtividade, clima, câmbio e demanda também interferem na formação dos preços. Ainda assim, uma combinação de menor uso de nutrientes, eventos climáticos extremos e dificuldades de abastecimento poderia aumentar a vulnerabilidade do sistema alimentar.
A FAO, por exemplo, apontou recentemente que fatores climáticos e geopolíticos continuam influenciando os preços internacionais dos alimentos.
Produtividade será ponto central
No caso brasileiro, manter a produtividade sem ampliar proporcionalmente a área cultivada é estratégico tanto para o agronegócio quanto para a segurança alimentar.
A própria Embrapa ressalta que a agricultura brasileira possui histórico de solos com limitações naturais de fertilidade e que a adubação adequada contribuiu para elevar e estabilizar a produtividade das culturas.
Por isso, o desafio não está simplesmente em usar mais fertilizantes, mas em utilizar os nutrientes necessários de maneira eficiente.
Tecnologias de agricultura de precisão, análise de solo, aplicação localizada, manejo adequado e alternativas como fertilizantes organominerais podem ajudar o produtor a melhorar a eficiência do investimento.
Dependência externa continua sendo desafio estratégico
A vulnerabilidade brasileira também explica a importância de políticas destinadas a ampliar a produção nacional e desenvolver novas tecnologias.
O Plano Nacional de Fertilizantes estabeleceu estratégias para reduzir a dependência externa até 2050, enquanto a Embrapa aponta investimentos em pesquisa, desenvolvimento e tecnologias adaptadas às condições brasileiras como parte da resposta ao problema.
No curto prazo, porém, o produtor continuará exposto às condições do mercado internacional.
O alerta da Yara, portanto, não significa que uma crise global de alimentos seja inevitável. A principal questão é o risco de uma combinação de fatores — fertilizantes mais caros, menor aplicação de nutrientes, clima adverso e problemas de oferta — reduzir a capacidade produtiva justamente quando a demanda mundial por alimentos continua elevada.
Para o Brasil, acompanhar esse movimento será fundamental. O país está entre os grandes produtores agrícolas do mundo, mas sua forte dependência de fertilizantes importados faz com que decisões tomadas no mercado internacional possam chegar rapidamente ao custo de produção e, posteriormente, ao preço dos alimentos.
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