O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu nesta terça-feira (26) um processo administrativo para investigar a venda dos ativos de níquel da Anglo American no Brasil para a MMG, subsidiária da estatal chinesa China Minmetals. A operação, avaliada em US$ 500 milhões, levanta preocupações sobre concentração de mercado e impactos geopolíticos.
Cade abre apuração sobre negociação de minas de níquel com estatal da China
Cade apura venda da Anglo American à MMG, estatal da China, que pode controlar mais de 50% do mercado de níquel no Brasil.
Segundo despacho obtido pelo Poder360, o Cade irá analisar se o negócio pode configurar ato de concentração econômica prejudicial à concorrência no setor de minerais estratégicos.
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Negócio sob suspeita

O acordo envolve os complexos de Barro Alto e Codemin (Niquelândia), em Goiás, além de projetos de exploração em Morro Sem Boné (MT) e Jacaré (PA).
Com a compra, a MMG passaria a deter:
- Mais de 50% do mercado brasileiro de níquel;
- Quase 100% do mercado nacional de ferro-níquel;
- Cerca de 60% do mercado global do insumo.
Esse domínio reforça a posição da China em um material estratégico para baterias, veículos elétricos e aço inoxidável, setores considerados essenciais para a transição energética mundial.
Proposta contestada
A transação se tornou alvo de polêmica porque a Corex Holding, ligada ao grupo turco Yildirim, alega ter apresentado uma oferta de US$ 900 milhões — quase o dobro do valor acertado com a MMG.
A Corex questiona a decisão tanto no Brasil quanto na União Europeia, afirmando que a operação ameaça a segurança de suprimento de países ocidentais.
Em nota ao Incra, a empresa declarou:
“Revela-se contraditório que o Brasil, detentor de significativa diversidade e abundância de recursos minerais estratégicos, permita a sistemática exploração dessas riquezas por agentes estrangeiros, sem o correspondente desenvolvimento de sua cadeia produtiva nacional.”
Investigação sobre terras
Além do Cade, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) também foi acionado. O órgão avalia se a venda pode violar restrições à aquisição de terras rurais por estrangeiros.
As áreas envolvidas ficam em regiões sensíveis de Goiás, Mato Grosso e Pará. Em ofício, o Incra citou riscos à soberania nacional, destacando a necessidade de avaliar impactos além do aspecto econômico.
Repercussão internacional
A polêmica ultrapassou fronteiras.
Na União Europeia, a Corex enviou petição afirmando que “este desenvolvimento contribui significativamente para reduzir a dependência da UE de capacidades de refino concentradas, particularmente em meio a desafios geopolíticos e de mercado em curso”.
Já nos Estados Unidos, o Aisi (Instituto Americano do Ferro e do Aço) pediu ao governo do presidente Donald Trump que pressione o Brasil a rever o acordo. Segundo a entidade, a venda fortalece a dependência global da China em minerais críticos, aumentando vulnerabilidades estratégicas do Ocidente.
Estratégia empresarial
A Anglo American defendeu a operação, alegando que a venda segue sua estratégia global de concentrar investimentos em cobre, minério de ferro e nutrientes agrícolas.
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Já a MMG afirmou que cumprirá todas as exigências regulatórias e que o negócio “representa uma grande realização para empregados, comunidades locais e acionistas”.
Risco de concentração de mercado

O Cade analisará se a compra compromete a concorrência no setor mineral. O órgão poderá aprovar, impor restrições ou vetar a operação.
Especialistas em regulação alertam que a concentração pode afetar não apenas preços, mas também a segurança de abastecimento de indústrias estratégicas. O níquel é considerado insumo-chave para a transição energética, já que compõe baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de energia renovável.
Contexto geopolítico
A disputa reflete a crescente rivalidade entre China e países ocidentais no controle de minerais críticos. Hoje, empresas chinesas já controlam parte significativa da produção global de lítio, cobalto e terras raras.
Se confirmada, a operação pode consolidar a China como líder mundial no fornecimento de níquel, insumo vital para indústrias do futuro.
Cade em posição estratégica
O desfecho do processo no Cade será acompanhado de perto por governos, empresas e organismos internacionais. O tribunal administrativo terá de equilibrar interesses econômicos, concorrenciais e geopolíticos.
Para o Brasil, a decisão pode significar não apenas a regulação de um mercado, mas também um posicionamento estratégico no tabuleiro global da mineração.
Com informações de: Poder360
