Após seis meses afastado do cenário público por conta do período de quarentena após deixar a presidência do Banco Central, Roberto Campos Neto reapareceu em nova posição: vice-chairman e chefe global de Políticas Públicas do Nubank.
Campos Neto afirma que esquerda quer igualdade e ignora redução da pobreza
Para Campos Neto, governo prioriza igualdade em vez de reduzir a pobreza, gerando danos à economia.
Em sua primeira entrevista desde então, concedida à Folha de S.Paulo, o economista fez duras críticas à condução econômica do governo Lula, acusando a esquerda de priorizar a igualdade em detrimento da redução da pobreza e advertindo para os riscos fiscais e produtivos do atual modelo.
Ao longo da conversa, Campos Neto abordou temas como o peso dos programas sociais no orçamento, a divisão entre “ricos e pobres” no discurso político, a alta dívida pública brasileira e a necessidade urgente de credibilidade fiscal para que o país retome o crescimento.
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Nova fase no setor privado, mas com a mesma voz crítica

Após comandar o Banco Central de 2019 a 2024 e ser eleito três vezes o melhor presidente de bancos centrais da América Latina pela LatinFinance, Campos Neto assumiu este mês um posto de destaque no Nubank. Apesar da guinada para o setor privado, manteve o tom crítico sobre políticas econômicas que, segundo ele, prejudicam a produtividade e o investimento privado.
Para o economista, o governo atual tem uma “obsessão com igualdade” que não é acompanhada de estratégias concretas para reduzir a pobreza. “Como a igualdade não é um fenômeno natural, o governo se vende como necessário para corrigir este erro”, disse.
Os riscos do atual modelo econômico, segundo Campos Neto
Campos Neto argumenta que a busca por maior igualdade social por meio do aumento de transferências de renda e de impostos acaba diminuindo o espaço para investimentos privados, prejudicando a produtividade no longo prazo e gerando inflação e juros altos.
Ele explicou que esse modelo leva a um “Estado maior, setor privado atrofiado, dívida insustentável, inflação estruturalmente mais alta e baixa produtividade”. Segundo ele, o resultado final será inevitável: “todos vão terminar em uma situação pior”.
O peso dos programas sociais e o impacto no mercado formal
Um dos pontos mais polêmicos da entrevista foi a crítica ao Bolsa Família. Campos Neto destacou que não defende o fim do programa, mas questiona se ele estaria incentivando a informalidade no mercado de trabalho.
Citando levantamento de 2024, Campos Neto lembrou que em 12 estados brasileiros já havia mais beneficiários do Bolsa Família do que trabalhadores com carteira assinada. Ele relatou que empresários sofrem represálias quando criticam o programa, mesmo quando as observações são feitas de forma técnica, e defendeu um debate menos polarizado sobre o tema.
“Ricos versus pobres”: discurso perigoso para o país
Outro alvo da análise de Campos Neto foi o discurso recorrente do governo em contrapor ricos e pobres para justificar elevação de impostos e aumento de gastos sociais. Para ele, isso mina a união social e afasta investimentos.
“Gerar divisão na sociedade é muito ruim. Temos que gerar construção. Temos que manter as empresas e os empresários no país, em vez de vê-los saindo”, disse, citando o aumento no número de milionários brasileiros que migram para outros países e de empresas que abrem capital no exterior.
Credibilidade fiscal: um ponto-chave para juros menores
Para o ex-presidente do BC, o principal gargalo para reduzir juros e recuperar a economia é a falta de um plano fiscal crível. Ele apontou que a dívida pública brasileira, já uma das maiores do mundo emergente, tende a crescer de 3 a 5 pontos percentuais por ano sem ajustes, o que, para ele, é “muito grave”.
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Segundo ele, o necessário não é apenas tomar medidas concretas, mas também comunicá-las com clareza para aumentar a confiança dos agentes econômicos. Campos Neto previu que, mais cedo ou mais tarde, o governo será forçado a promover um ajuste fiscal — e quanto antes, melhor para o país.
Haddad, Galípolo e a narrativa política

Campos Neto também comentou a postura recente do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e as críticas que recebeu do presidente Lula, classificando-as como “narrativa política infundada”.
Ele ressaltou que seu sucessor no BC, Gabriel Galípolo, está conduzindo bem a política monetária, mas lembrou que o problema não está na taxa de juros em si, e sim no quadro fiscal.
Planos para o futuro: fora da política eleitoral
Questionado sobre seu eventual envolvimento em uma campanha presidencial de Tarcísio de Freitas em 2026, Campos Neto negou qualquer intenção.
“Minha área de interesse é finanças e tecnologia. Vou para o mundo privado”, garantiu.
Com informações de: Poder360
