O mercado global de capital de risco entrou em uma nova fase. Em vez de distribuir grandes apostas entre startups de diferentes setores, investidores passaram a concentrar uma parcela crescente do dinheiro em empresas ligadas à inteligência artificial (IA), especialmente negócios com potencial de alcançar mercados globais e avaliações de centenas de bilhões de dólares.
O movimento ajuda a explicar rodadas bilionárias envolvendo empresas como Anthropic e outras companhias da nova geração de IA. Também mostra por que investidores estão olhando cada vez mais para chips, data centers, robótica, energia e outras estruturas necessárias para sustentar a expansão da tecnologia.
A mudança foi discutida no painel “Global VC — onde deve nascer a próxima Nvidia, Anthropic ou SpaceX”, realizado em São Paulo. A conclusão apresentada pelos participantes é que o mercado deixou para trás parte da lógica tradicional de buscar apenas a próxima startup de crescimento acelerado e passou a procurar empresas capazes de criar negócios gigantescos.
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Por que a inteligência artificial virou prioridade para os investidores?

O venture capital, ou capital de risco, financia empresas geralmente jovens que apresentam grande potencial de crescimento. Como essas companhias ainda podem não ter lucro ou sequer um modelo de negócio totalmente consolidado, o investimento envolve riscos elevados.
Em contrapartida, uma startup que consegue dominar um mercado pode multiplicar várias vezes o capital recebido.
A inteligência artificial mudou o tamanho dessa oportunidade. A tecnologia passou a ser utilizada em áreas que vão muito além dos chatbots, incluindo saúde, defesa, indústria, finanças, agricultura, robótica, programação e produção de chips.
O resultado aparece nos números.
Segundo a KPMG, o venture capital movimentou US$ 227,4 bilhões globalmente no segundo trimestre de 2026, distribuídos em 8.440 negócios. O período também foi marcado por grandes rodadas de financiamento de empresas relacionadas à inteligência artificial.
No primeiro semestre, o volume global chegou a US$ 560,4 bilhões, o maior nível para um semestre em cinco anos, de acordo com o levantamento.
O mercado está procurando a próxima Nvidia
A Nvidia se tornou um dos principais exemplos do potencial econômico da inteligência artificial porque sua atuação está concentrada em uma das partes mais importantes da cadeia: os chips utilizados para processamento de IA.
O caso da empresa ajuda a explicar uma mudança na estratégia dos investidores.
A aposta não está apenas em descobrir qual será o próximo aplicativo de inteligência artificial. O interesse também está em encontrar empresas que controlem alguma infraestrutura indispensável para que a tecnologia funcione.
Isso inclui:
- chips e semicondutores;
- data centers;
- armazenamento de dados;
- energia;
- computação em nuvem;
- robótica;
- sistemas de segurança;
- softwares especializados;
- modelos avançados de inteligência artificial.
Essa infraestrutura pode se tornar tão estratégica quanto os próprios aplicativos utilizados pelo consumidor.
Anthropic e SpaceX mostram dois caminhos diferentes
A Anthropic representa uma das principais apostas na construção de modelos avançados de inteligência artificial.
A empresa levantou US$ 65 bilhões no segundo trimestre de 2026, segundo a KPMG. O valor mostra a dimensão das apostas que os investidores estão dispostos a fazer em companhias consideradas estratégicas para o futuro da tecnologia.
A SpaceX representa outra possibilidade: uma empresa de tecnologia com infraestrutura própria e potencial para atuar em um mercado global.
No segundo trimestre, a companhia esteve entre os fatores que ajudaram a elevar o valor das saídas de investimentos de venture capital. Segundo a KPMG, as saídas globais chegaram a US$ 1,9 trilhão no período.
Os dois exemplos são diferentes, mas seguem uma mesma lógica: os investidores procuram empresas capazes de ocupar posições dominantes em mercados que podem crescer de maneira extraordinária.
Poucas empresas estão concentrando uma quantidade enorme de dinheiro
O crescimento do venture capital não significa que todas as startups estejam recebendo mais recursos.
Na realidade, uma das principais características do atual ciclo é justamente a concentração.
No segundo trimestre, os dez maiores negócios responderam por US$ 105 bilhões dos investimentos globais em venture capital, segundo a KPMG.
Isso cria uma diferença significativa entre as startups consideradas potenciais líderes de mercado e aquelas que ainda precisam provar que conseguem escalar.
Uma empresa pode apresentar bons resultados e, mesmo assim, encontrar mais dificuldade para captar recursos se não estiver inserida em uma área considerada estratégica pelos grandes fundos.
O que os investidores querem encontrar em uma startup?
A tecnologia, sozinha, não é suficiente.
Os fundos estão procurando empresas que tenham potencial para criar uma vantagem competitiva difícil de copiar. Isso pode acontecer por meio de tecnologia proprietária, dados exclusivos, infraestrutura, propriedade intelectual ou acesso privilegiado a determinado mercado.
Também pesa a capacidade de escala.
Uma startup que consegue atender mil clientes pode ser um bom negócio. Mas uma empresa capaz de atender milhões de consumidores ou fornecer infraestrutura para milhares de outras companhias apresenta uma oportunidade muito maior para um fundo de venture capital.
Por isso, o tamanho do mercado potencial passou a ser uma das perguntas centrais nas decisões de investimento.
A corrida pela IA também é uma disputa entre países
A competição não está acontecendo apenas entre startups.
Governos e ecossistemas de inovação também tentam identificar quais características de seus próprios mercados podem gerar vantagem na corrida tecnológica.
Cada país busca transformar suas especialidades em oportunidades.
Estados Unidos concentram capital e grandes empresas
Os Estados Unidos continuam sendo o principal centro global de venture capital.
No segundo trimestre de 2026, o país recebeu US$ 144,9 bilhões em investimentos, segundo a KPMG.
A presença das grandes empresas de tecnologia, universidades, pesquisadores, investidores e infraestrutura computacional cria um ecossistema difícil de reproduzir em outros lugares.
A concentração de capital também facilita a realização de rodadas extremamente grandes.
China combina IA e capacidade industrial
A China possui uma vantagem diferente: a integração entre tecnologia e produção industrial.
A capacidade de desenvolver componentes, fabricar produtos e criar protótipos em grande escala pode ser especialmente importante para a evolução da robótica.
Segundo participantes do painel realizado em São Paulo, a concentração da cadeia de fornecedores em regiões industriais chinesas, como Shenzhen, permite reduzir custos e acelerar o desenvolvimento de produtos.
Essa característica pode se tornar ainda mais importante à medida que a IA deixa de estar restrita às telas e começa a controlar máquinas e equipamentos físicos.
Israel aposta em defesa e tecnologia
Israel também tenta transformar sua experiência no setor de defesa em vantagem tecnológica.
Tecnologias desenvolvidas originalmente para aplicações militares podem encontrar usos comerciais em áreas como robótica, simulação e sistemas autônomos.
Um dos conceitos que aparecem nessa discussão é o de IA física, que envolve sistemas capazes de interpretar o ambiente e tomar decisões no mundo real.
A evolução dos robôs depende justamente dessa combinação entre inteligência artificial, sensores, processamento e capacidade de interação física.
E o Brasil nessa corrida?
O Brasil dificilmente vai competir com Estados Unidos e China em todos os segmentos da inteligência artificial.
A oportunidade pode estar em outra estratégia: utilizar características específicas da economia brasileira para desenvolver soluções que possam ser exportadas.
Agronegócio, mineração, energia, logística e serviços financeiros são alguns dos setores com potencial para aplicações de IA.
O país possui grandes volumes de dados, cadeias produtivas relevantes e problemas que podem ser transformados em oportunidades tecnológicas.
Também existem iniciativas para aumentar o financiamento de empresas brasileiras de inovação.
Em junho de 2026, BNDES e Finep anunciaram uma chamada para um fundo de R$ 250 milhões voltado a startups inovadoras e escaláveis. As instituições também informaram que uma chamada relacionada a um fundo de investimento em participações de inteligência artificial havia recebido 17 propostas.
Isso não significa que o Brasil esteja próximo de produzir uma nova Nvidia. A oportunidade, porém, pode estar em criar empresas especializadas em setores nos quais o país possui conhecimento e vantagens competitivas.
A inteligência artificial está criando um novo mercado de infraestrutura
Um dos pontos mais importantes dessa transformação é que a IA deixou de ser apenas uma categoria de software.
Para funcionar em larga escala, os modelos precisam de enormes quantidades de processamento, armazenamento e energia.
Isso cria oportunidades para empresas que nem sequer desenvolvem modelos de inteligência artificial.
Uma companhia que fornece chips, sistemas de refrigeração para data centers, equipamentos de energia ou infraestrutura de computação também pode se beneficiar da expansão da tecnologia.
O mesmo acontece com a robótica.
À medida que sistemas de IA passam a controlar máquinas, fábricas, veículos e equipamentos, a fronteira entre software e indústria começa a desaparecer.
Existe risco de uma nova bolha de inteligência artificial?
Sim. O tamanho das avaliações e das rodadas de investimento aumenta naturalmente o risco de excesso de expectativa.
Uma empresa receber bilhões de dólares não significa que ela necessariamente conseguirá gerar lucro suficiente para justificar sua avaliação.
Esse é um dos principais desafios para os investidores.
A KPMG chama atenção para a concentração dos grandes negócios e para a necessidade de avaliar se as empresas que receberam investimentos gigantescos conseguirão sustentar suas avaliações no longo prazo.
O risco não está necessariamente na tecnologia.
A inteligência artificial já possui aplicações comerciais concretas. O problema pode surgir quando investidores atribuem a determinadas empresas um potencial muito maior do que os resultados futuros conseguem entregar.
Se as receitas não acompanharem as expectativas, algumas companhias podem enfrentar dificuldades para captar novas rodadas.
Empresas que não trabalham com IA estão ficando para trás?
Não necessariamente.
Uma fintech, empresa de saúde, companhia de logística ou negócio de varejo ainda pode ser extremamente atrativo para investidores.
A diferença é que essas empresas precisam demonstrar de maneira cada vez mais clara como conseguem criar valor em uma economia influenciada pela inteligência artificial.
Não basta colocar um chatbot no site ou adicionar uma ferramenta de IA ao produto.
O investidor quer saber se a tecnologia realmente reduz custos, aumenta produtividade, cria uma nova fonte de receita ou gera uma vantagem que os concorrentes terão dificuldade para reproduzir.
Em outras palavras, a pergunta deixou de ser apenas “essa empresa usa IA?” e passou a ser “qual será a vantagem dessa empresa quando IA estiver presente em praticamente todos os setores?”.
O que pode acontecer com o venture capital nos próximos anos?
A tendência é que a inteligência artificial continue concentrando uma parcela relevante do capital de risco.
A chegada de novas empresas de IA ao mercado acionário também pode aumentar a liquidez do setor. Quando investidores conseguem vender suas participações por meio de aquisições ou ofertas públicas iniciais (IPOs), o dinheiro pode voltar para novos fundos e startups.
A KPMG aponta justamente o mercado de IPOs como um dos pontos que podem movimentar o venture capital nos próximos trimestres.
Isso pode criar um ciclo de novos investimentos.
Mas também aumentará a pressão por resultados. Quanto maior o volume de capital colocado em uma empresa, maior será a expectativa de crescimento.
O que muda para quem investe?
Para investidores, a principal mudança é o aumento da importância da análise de longo prazo.
A euforia em torno da IA pode criar oportunidades, mas também pode esconder riscos.
Empresas com tecnologia interessante podem não necessariamente se transformar em negócios rentáveis. Da mesma forma, companhias que parecem pequenas hoje podem acabar ocupando posições estratégicas em mercados que ainda estão sendo criados.
O desafio será separar as duas situações.
Para os empreendedores, a mensagem é semelhante. Conseguir capital continua sendo importante, mas demonstrar por que o negócio pode sobreviver e crescer em um ambiente dominado pela IA será cada vez mais decisivo.
O mercado financeiro realmente cansou dos unicórnios?

A resposta curta é: não exatamente.
Os investidores continuam interessados em startups capazes de alcançar avaliações bilionárias. O que mudou foi o tamanho da ambição.
Em vez de procurar somente a próxima empresa avaliada em US$ 1 bilhão, os grandes fundos estão tentando identificar negócios que possam se tornar plataformas globais, dominar uma infraestrutura estratégica ou participar de mercados avaliados em centenas de bilhões ou trilhões de dólares.
A inteligência artificial aparece no centro dessa transformação porque pode afetar praticamente todos esses mercados.
A disputa, portanto, não é apenas pela próxima startup de sucesso.
É pela empresa que conseguirá se tornar indispensável na economia que está sendo construída agora.
Conclusão
A corrida pelo próximo grande negócio de tecnologia mudou de escala. A inteligência artificial passou a concentrar bilhões de dólares porque investidores enxergam nela uma transformação capaz de atingir praticamente todos os setores da economia. Agora, o desafio é separar as empresas que realmente têm potencial para liderar essa mudança daquelas que apenas aproveitam o entusiasmo do mercado.
Para startups, a mensagem é clara: não basta estar relacionada à IA. Será necessário apresentar tecnologia, escala e um modelo de negócio capaz de sustentar crescimento no longo prazo.
