Um relatório sigiloso do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou movimentações atípicas na empresa Prospect Consultoria Empresarial, pertencente a Antonio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como o Careca do INSS. O documento foi encaminhado à CPMI do INSS, que investiga fraudes em descontos associativos de aposentados e pensionistas em todo o país.
Empresa ligada a Careca do INSS movimentou 5x mais que a renda, aponta Coaf
Relatório do Coaf revela que Prospect Consultoria, do careca do INSS, movimentou 5 vezes mais que o esperado durante fraudes.
A movimentação financeira entre março e maio de 2023, período que coincide com o auge das fraudes no INSS reveladas pela operação Sem Desconto, ultrapassou os limites esperados para uma empresa do porte da Prospect. A empresa movimentou cerca de R$ 1,5 milhão por mês, cinco vezes mais do que a capacidade financeira esperada de R$ 309 mil.
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Números que não batem com a realidade declarada
Segundo o relatório, a média da movimentação foi baseada em R$ 4,5 milhões em créditos e R$ 4,6 milhões em débitos no período analisado. Isso resultou numa média mensal de movimentação que extrapola em 5,06 vezes a capacidade financeira estimada da empresa.
O Coaf apontou que a movimentação era “elevada e incompatível” com a estrutura da Prospect e ocorria sem justificativas claras. As principais operações envolviam transferências originadas de empresas com supostos vínculos comerciais com a Prospect e o próprio sócio-gerente, além de repasses para diversas pessoas físicas e jurídicas.
Quem é o Careca do INSS
De executivo de marketing a investigado federal
Antonio Carlos Camilo Antunes, antes um nome conhecido no setor de marketing de planos de saúde, é hoje apontado como o principal operador de um esquema de fraudes dentro do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Segundo a Polícia Federal, ele utilizava sua empresa como intermediária financeira entre entidades associativas e servidores do INSS. Por meio dessas operações, valores indevidos eram repassados sob a justificativa de mensalidades associativas que nunca foram autorizadas pelos beneficiários.
Dados de beneficiários usados indevidamente
O relatório da Operação Sem Desconto indica que Antunes teria tido acesso a dados sigilosos de beneficiários do INSS e os repassava a entidades associativas envolvidas em fraudes, que, por sua vez, promoviam filiações compulsórias e cobranças indevidas diretamente na folha de pagamento dos aposentados e pensionistas.
Prisão e novas fases da investigação
A operação Cambota e a prisão preventiva
Antonio Carlos está preso desde 12 de setembro de 2025, após a deflagração da operação Cambota, considerada um desdobramento da Sem Desconto. A investigação se aprofunda na dilapidação de patrimônio, ocultação de bens e tentativa de obstrução de Justiça.
Um dos pontos levantados pela PF é o vazamento de informações confidenciais sobre as investigações, que teriam possibilitado a Antunes e outros investigados se anteciparem às ações policiais.
Envolvimento de autoridades do INSS
Pagamentos a ex-diretores e procuradores
Documentos obtidos pela CPMI indicam que o “Careca do INSS” fez pagamentos suspeitos a empresas e familiares de pelo menos três autoridades do INSS. Um dos nomes citados é o ex-diretor de Benefícios da autarquia, que teria recebido R$ 1,4 milhão diretamente de Antunes.
Já o procurador-geral afastado do INSS aparece como receptor de R$ 7,5 milhões, valores repassados supostamente como pagamento por facilitar o acesso aos dados dos segurados.
Outro ex-diretor, Alexandre Guimarães, responsável pela área de governança do INSS, também teria recebido quantias indevidas, segundo a investigação.
Esquema de empresas e associações

A teia empresarial de Antunes
Segundo a PF, Antunes está à frente de uma “miríade de empresas”, com a Prospect sendo apenas uma das envolvidas nas movimentações suspeitas. Essas empresas atuariam como pontes para viabilizar os repasses entre entidades associativas e servidores públicos.
As entidades citadas no fluxograma da PF incluem:
- Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec)
- Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA)
- Associação de Suporte Assistencial e Beneficente para Aposentados, Servidores e Pensionistas do Brasil (Asabasp)
- Associação no Brasil de Aposentados e Pensionistas da Previdência Social
- Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap)
- União Nacional de Auxílio aos Servidores Públicos (Unaspub)
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Essas entidades seriam as fontes dos valores depositados nas contas da Prospect, que repassava parte dos montantes a agentes do INSS.
Embate na CPMI do INSS
Depoimento tenso e recusa de responder
Antonio Carlos Camilo Antunes foi convocado para prestar depoimento à CPMI do INSS no dia 25 de setembro de 2025. O depoimento foi tenso. Mesmo amparado por um habeas corpus do STF, ele optou por não responder à maioria das perguntas, especialmente as do relator Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), que o chamou reiteradas vezes de “senhor Careca do INSS”.
Em sua fala inicial, Antunes alegou ser apenas um “empresário próspero” e negou qualquer envolvimento com as fraudes, embora os dados apresentados pela PF, Coaf e a própria CPMI contradigam suas declarações.
Silêncio da defesa e próximos passos da CPMI
Defesa não se manifesta
A defesa de Antonio Carlos foi procurada para comentar as movimentações apontadas pelo Coaf, mas não houve manifestação até o fechamento desta reportagem.
Enquanto isso, a CPMI segue requisitando novos dados ao Banco Central, Receita Federal e INSS para aprofundar as investigações sobre a origem dos recursos movimentados e o destino final do dinheiro desviado de aposentados e pensionistas.
Repercussões e impactos no INSS

Risco institucional e medidas de controle
O escândalo envolvendo o “Careca do INSS” não é apenas um caso isolado de corrupção, mas aponta para fragilidades graves nos sistemas de controle e proteção de dados do INSS. A utilização indevida de informações sigilosas expôs milhões de aposentados a descontos não autorizados, comprometendo sua renda mensal.
O Ministério da Previdência já anunciou que deve rever os mecanismos de autorização de descontos, exigindo autenticação digital ou biométrica para novas filiações a entidades.
Imagem: Reprodução
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