O mapa do varejo alimentar brasileiro vem passando por uma transformação desde o fim de 2024. Antigos endereços ocupados pelas bandeiras Nacional e Carrefour começaram a receber novas redes, enquanto algumas unidades foram fechadas e outras ganharam projetos comerciais diferentes.
O movimento ganhou força depois que o Grupo Carrefour Brasil anunciou um plano para se desfazer das operações das bandeiras Nacional e Bompreço. Ao todo, eram 64 lojas: 47 Nacional no Sul e 17 Bompreço no Nordeste. A companhia estimava levantar cerca de R$ 400 milhões com o processo.
Desde então, grupos como Muffato, Festval, Nicolini, Zaffari e outras redes regionais passaram a ocupar antigos pontos. Em alguns casos, os prédios foram reformados e reabertos como supermercados; em outros, as unidades simplesmente encerraram as atividades.
Leia mais:
MEI terá janeiro para pedir opção pelo Simei; entenda quando a solicitação é necessária
Por que o Carrefour decidiu vender essas lojas?

A decisão fez parte de uma estratégia de simplificação do portfólio do Carrefour Brasil.
Quando anunciou o processo, a companhia informou que pretendia concentrar seus negócios em formatos considerados estratégicos, especialmente operações de maior escala. As lojas Nacional e Bompreço apresentavam desempenho financeiro negativo: nos 12 meses encerrados em setembro de 2024, as 64 unidades registraram R$ 1,5 bilhão em vendas brutas, mas tiveram contribuição negativa de R$ 42 milhões para o EBITDA.
Outro fator estava relacionado aos imóveis. Apenas 11 dos 64 pontos pertenciam ao Carrefour, enquanto os outros 53 funcionavam em imóveis alugados. As despesas com aluguel desses estabelecimentos chegaram a R$ 65 milhões no período analisado pela empresa.
Isso explica por que o processo não foi simplesmente uma venda de 64 prédios. Em muitos casos, o que estava sendo negociado era a operação comercial, o ponto ou a transferência de contratos de locação.
Muffato e Festval assumiram lojas em Curitiba
Uma das primeiras mudanças aconteceu em Curitiba, no Paraná.
Em dezembro de 2024, oito lojas da bandeira Nacional foram negociadas. O Grupo Muffato ficou com quatro unidades, enquanto o Festval assumiu outras quatro.
A operação marcou o início mais visível da substituição da antiga bandeira em pontos conhecidos pelos consumidores paranaenses.
Para as redes compradoras, adquirir estabelecimentos já instalados pode acelerar a expansão. Em vez de construir uma loja desde o início, a empresa aproveita um endereço que já possui infraestrutura, estacionamento e fluxo de consumidores.
Nicolini ampliou presença no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, o Grupo Nicolini também avançou sobre antigos endereços do Nacional.
A negociação inicialmente envolveu 11 unidades. O negócio recebeu aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sem restrições em 2025. As lojas estavam distribuídas por cidades como Alegrete, Bagé, Camaquã, Dom Pedrito, Pelotas, Rosário do Sul, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Santa Rosa e São Borja.
A quantidade efetivamente incorporada passou por ajustes relacionados aos contratos de locação e à transferência dos pontos. Em 2026, o próprio Nicolini informa que havia assumido oito lojas adquiridas do Carrefour em uma operação que ampliou sua presença regional.
Algumas dessas unidades passaram por reformas antes de receber definitivamente a nova identidade.
Em Santa Cruz do Sul, por exemplo, uma das antigas lojas do Nacional foi modernizada e passou a operar com a bandeira Nicolini. A unidade possui mais de 1,6 mil metros quadrados de área de vendas.
Antigos supermercados ganharam novas marcas
O processo não ficou restrito às grandes redes.
Em diferentes cidades gaúchas, antigos pontos do Nacional passaram a ser negociados com grupos regionais. Viezzer e Supermercados Kern, por exemplo, assumiram unidades anteriormente ocupadas pela bandeira.
Esse tipo de operação é particularmente relevante para empresas regionais porque permite ampliar a presença geográfica sem depender exclusivamente da construção de novas lojas.
O endereço conhecido pelo consumidor continua existindo, mas a experiência dentro dele pode mudar completamente: novo layout, novos produtos, preços, programas de fidelidade e identidade visual.
Nem todas as lojas foram vendidas
Uma consequência importante do processo é que nem todos os antigos supermercados Nacional encontraram compradores.
No Rio Grande do Sul, diversas unidades foram fechadas depois que as negociações não avançaram. Entre os fatores apontados nas discussões do setor estavam os custos de ocupação dos imóveis e as condições contratuais.
Em 2025, unidades do Nacional foram encerradas em diferentes cidades gaúchas. Algumas permaneceram fechadas enquanto outras encontraram novos operadores posteriormente.
Por isso, não existe uma única trajetória para os antigos endereços do Carrefour e do Nacional.
Alguns viraram supermercados de outras marcas. Outros foram fechados. Há ainda casos em que o imóvel recebeu um empreendimento de outra atividade.
O que aconteceu com o Nacional no Rio Grande do Sul?
A mudança foi especialmente profunda no Rio Grande do Sul.
O Nacional havia construído uma presença histórica no estado, mas deixou de operar sob a administração do Carrefour depois do processo de desinvestimento. Reportagens publicadas em 2026 apontam que a bandeira deixou de ter lojas em funcionamento no estado.
Em determinados endereços, entretanto, a atividade supermercadista continuou com outra empresa.
Isso explica uma situação que pode causar confusão para quem acompanha as mudanças: o fechamento do Nacional não significa necessariamente que o supermercado daquele endereço desapareceu definitivamente.
Em alguns locais, apenas houve troca de operador.
Zaffari prepara nova loja em antigo ponto do Nacional
Um dos casos mais recentes envolve o Grupo Zaffari.
No Praia de Belas Shopping, em Porto Alegre, a rede assumirá o espaço onde funcionava uma unidade do Nacional. O contrato foi oficializado em 2025 e o projeto prevê uma nova operação da empresa no local.
A previsão mais recente divulgada em setembro de 2026 é de abertura em março de 2027. Segundo informações do grupo, a estrutura está sendo refeita e o projeto envolve uma ampla revitalização do espaço.
É um exemplo de como um antigo supermercado pode ser incorporado ao projeto de expansão de outra empresa, com uma transformação física significativa antes da inauguração.
E o Carrefour do Center Norte?
Outro caso que precisa ser separado do pacote das 64 lojas é o do hipermercado Carrefour no Shopping Center Norte, em São Paulo.
A unidade encerrou suas atividades no fim de 2024, mas essa saída não corresponde ao mesmo processo de venda das lojas Nacional e Bompreço.
O caso teve relação específica com o espaço ocupado no empreendimento e, portanto, não deve ser tratado como uma das 64 unidades colocadas em desinvestimento.
Isso é relevante porque diferentes fechamentos do Carrefour ocorreram por motivos distintos, mesmo que para o consumidor o resultado visual seja semelhante: uma antiga fachada desaparece e outro negócio ocupa o espaço.
O Carrefour está deixando o Brasil?
Não.
A venda das lojas Nacional e Bompreço não representa a saída do Carrefour do mercado brasileiro.
O grupo continua operando no país com diferentes formatos e marcas, incluindo Carrefour, Atacadão e Sam’s Club. O que mudou foi a composição do portfólio e a estratégia de distribuição de suas operações.
A própria companhia apresentou o processo de 2024 como uma simplificação das atividades, com concentração em determinados formatos de varejo.
Portanto, dizer que “o Carrefour acabou no Brasil” seria incorreto. O que ocorreu foi uma reorganização de parte relevante de sua operação supermercadista.
Por que outras redes estão interessadas nesses pontos?
Para uma rede regional, assumir um antigo supermercado pode representar uma maneira mais rápida de crescer.
Um estabelecimento que já funcionava como mercado normalmente conta com elementos difíceis de reproduzir em um projeto completamente novo, como:
- localização conhecida;
- estrutura de loja;
- estacionamento;
- acesso viário;
- fluxo de consumidores;
- infraestrutura elétrica e hidráulica;
- área de estoque;
- histórico comercial do endereço.
Isso não significa que toda aquisição seja automaticamente vantajosa. O novo operador precisa avaliar aluguel, condições do imóvel, necessidade de reformas, concorrência local e potencial de consumo da região.
Em alguns casos, esses fatores podem fazer com que a loja seja fechada em vez de transferida para outra rede.
O que muda para os consumidores?
Para quem fazia compras nessas unidades, a mudança mais evidente é a troca da marca.
Mas a transformação pode ser muito maior.
Uma nova rede pode alterar o mix de produtos, os preços, as marcas próprias, os programas de fidelidade, os serviços oferecidos, o layout e até o posicionamento da loja.
Também podem ocorrer reformas antes da reabertura. Em algumas situações, o estabelecimento permanece fechado durante parte do processo; em outras, a operação muda rapidamente de bandeira.
Por isso, consumidores que utilizavam um antigo Nacional ou Carrefour precisam verificar individualmente o destino de cada endereço.
O que aconteceu com os 64 supermercados?
O plano anunciado em 2024 envolvia 64 unidades, mas elas não tiveram o mesmo destino.
As primeiras negociações já mostravam essa diversidade. Oito lojas Nacional de Curitiba foram vendidas para Muffato e Festval, enquanto sete unidades Bompreço já tinham sido negociadas anteriormente.
No Rio Grande do Sul, outras operações foram negociadas com grupos como Nicolini, Viezzer e Kern, enquanto algumas lojas acabaram fechadas.
Além disso, alguns imóveis deixaram de ter finalidade supermercadista.
O resultado é um processo fragmentado: não houve uma única empresa comprando todas as antigas lojas do Carrefour, mas uma série de negociações envolvendo diferentes compradores e, em determinados casos, o encerramento definitivo das operações.
O que acontece daqui para frente?
A transformação ainda produz efeitos no varejo regional.
Em alguns pontos, novas redes continuam reformando espaços antes ocupados pelo Carrefour ou Nacional. No Praia de Belas, por exemplo, o Zaffari trabalha na implantação de uma nova unidade, com previsão atual de inauguração para março de 2027.
Outros endereços podem receber supermercados diferentes, empreendimentos comerciais ou permanecer temporariamente sem operação.
O ponto central é que o processo iniciado em 2024 não significou apenas uma troca de logotipos. Ele redistribuiu pontos comerciais entre diferentes empresas e abriu espaço para a expansão de redes regionais.
Para o consumidor, isso significa que aquele supermercado conhecido de anos atrás pode continuar no mesmo endereço — mas sob uma marca completamente diferente.
Carrefour e Nacional: o que mudou na prática?

A reorganização iniciada pelo Carrefour transformou a presença das antigas bandeiras em várias regiões do país.
O plano original previa a saída das 47 unidades Nacional e 17 Bompreço, com expectativa de arrecadação de aproximadamente R$ 400 milhões.
Desde então, algumas lojas foram vendidas para concorrentes, outras foram reformadas e reabertas, enquanto determinadas unidades encerraram definitivamente as atividades.
Entre os grupos que aproveitaram oportunidades estão Muffato, Festval, Nicolini, Zaffari e outras empresas regionais.
Para quem acompanha o setor, a mudança mostra como pontos comerciais consolidados podem mudar de mãos sem necessariamente deixar de funcionar como supermercados.
Conclusão
A troca de antigas lojas do Carrefour e do Nacional por redes como Muffato, Festval, Nicolini e Zaffari mostra uma mudança importante no varejo supermercadista brasileiro.
Para o consumidor, o mesmo endereço pode continuar funcionando como supermercado, mas com nova marca, preços, produtos e serviços. O Carrefour, por sua vez, continua presente no Brasil, concentrando sua estratégia em outras operações.
Assim, cada antigo ponto possui um destino diferente: alguns foram vendidos, outros reformados e alguns encerraram as atividades.
