Queda de 82% no orçamento deixa ANP sem verba para garantir qualidade dos combustíveis

A fiscalização dos combustíveis no Brasil está ameaçada por uma drástica redução de recursos da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Com um corte de 82% no orçamento ao longo da última década, a agência anunciou a suspensão do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis a partir de julho.

Esse programa é o principal instrumento para detectar fraudes em postos de combustíveis, como a adulteração de gasolina, etanol e diesel. Sem ele, aumenta o risco de que consumidores abasteçam seus veículos com produtos fora dos padrões estabelecidos, o que pode causar danos mecânicos, prejuízos financeiros e até riscos à saúde.

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Imagem: casa.da.photo / Shutterstock.com

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Redução drástica desde 2013

Em 2013, o orçamento da ANP — corrigido pela inflação — era de R$ 749 milhões. Em 2024, o valor aprovado inicialmente era de pouco mais de R$ 140 milhões, mas foi reduzido para apenas R$ 106,7 milhões após ajustes fiscais. Essa queda expressiva compromete seriamente as atividades da agência, principalmente as chamadas despesas discricionárias, que não são obrigatórias por lei, mas fundamentais para o funcionamento pleno da fiscalização.

Paralisação do monitoramento

A suspensão do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis representa um marco negativo. De 2016 a 2025, o programa identificou quase 20 mil amostras adulteradas em todo o país. Entre os produtos avaliados, o diesel lidera os casos de irregularidades, com aproximadamente 60% das fraudes identificadas. A interrupção desse serviço prejudica o controle de qualidade e enfraquece o papel regulador do Estado no setor.

Fiscalização sob ameaça

Com a escassez de verba, as ações de fiscalização também foram reduzidas. Em 2024, foram realizadas 17.341 fiscalizações que resultaram em 4,6 mil autos de infração. As irregularidades mais comuns foram:

  • Gasolina: teor de etanol abaixo do exigido (61,5% das fraudes)
  • Etanol hidratado: teor alcoólico insuficiente
  • Diesel: mistura de biodiesel inferior ao percentual obrigatório de 14%

Vulnerabilidade ao crime organizado

A diminuição da fiscalização também abre espaço para a atuação do crime organizado no setor. Estimativas apontam que facções criminosas controlam centenas de postos de combustíveis em várias regiões do Brasil. Esse controle resulta não apenas em perdas financeiras, mas também na expansão de redes ilegais que se beneficiam da falta de controle estatal.

Pesquisas recentes indicam que facções movimentam mais de R$ 60 bilhões por ano no mercado de combustíveis, superando os lucros com o tráfico de drogas. A fragilidade da fiscalização favorece a continuidade e a expansão dessa atuação, especialmente em um ambiente onde o monitoramento oficial é anunciado como suspenso.

Impactos diretos ao consumidor

Riscos à saúde e ao patrimônio

O uso de combustíveis adulterados pode causar:

  • Danos ao motor e ao sistema de combustão
  • Aumento das emissões de poluentes
  • Redução da vida útil do veículo
  • Maior risco de acidentes por falhas mecânicas

Além disso, a ingestão de gases provenientes da queima incompleta de combustíveis de má qualidade pode ser tóxica e prejudicial à saúde pública.

Concorrência desleal

Empresas que vendem combustíveis adulterados geralmente o fazem com preços mais baixos, enganando o consumidor e prejudicando a concorrência leal. Isso desestimula os distribuidores que seguem as normas e investem em qualidade, criando um ambiente de mercado distorcido.

Reação do setor e mobilizações

Manifesto contra o corte de verbas

Diversas entidades representativas do setor de combustíveis classificaram os cortes no orçamento da ANP como “trágicos”. O manifesto publicado por essas instituições destaca que uma ANP enfraquecida:

  • Compromete a segurança veicular
  • Prejudica a integridade dos motores
  • Aumenta riscos à saúde pública
  • Favorece a atuação de redes criminosas
  • Gera prejuízos à arrecadação tributária

Essas organizações também alertam que a redução da presença da agência nas ruas amplia a possibilidade de fraudes e impacta diretamente a confiança dos consumidores nos produtos vendidos.

Doação de equipamentos

Como tentativa de compensar a falta de recursos, o setor privado realizou a doação de cinco equipamentos para análise da mistura de biodiesel nos postos. No entanto, sem equipe técnica em campo, esses equipamentos têm pouca ou nenhuma utilidade. A ausência de verbas para deslocamento, coleta e análise das amostras torna a iniciativa insuficiente diante da dimensão do problema.

O cenário mais amplo do arrocho fiscal

A situação da ANP é reflexo de uma política de contenção de gastos que afeta diferentes áreas da administração pública. Entre 2015 e 2022, esse tipo de medida impactou negativamente a infraestrutura de universidades públicas, programas sociais e órgãos ambientais como o Ibama.

O corte de gastos sem avaliação criteriosa das funções essenciais do Estado leva ao sucateamento institucional, reduzindo a capacidade de fiscalização e prestação de serviços à população. No caso da ANP, os impactos vão além do setor energético e atingem diretamente o cotidiano de milhões de brasileiros.

Fragilidade regulatória e risco de retrocesso

A ANP é responsável por garantir que as regras estabelecidas para a comercialização de combustíveis sejam cumpridas. Sem recursos, a agência não consegue manter uma estrutura de controle mínima. Isso enfraquece sua credibilidade e compromete sua função como reguladora.

A ausência de fiscalização também permite que empresas deixem de aplicar corretamente as exigências do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), como a mistura de biodiesel ao diesel e de etanol à gasolina. A flexibilização dessas exigências sem controle pode gerar impactos ambientais e aumentar a emissão de poluentes.

O desmonte orçamentário da ANP tem impactos profundos e imediatos no setor de combustíveis. A suspensão do programa de monitoramento e a redução das fiscalizações colocam em risco a qualidade dos produtos que chegam aos veículos dos brasileiros. Sem atuação da agência, cresce a margem para fraudes, crimes e prejuízos ao consumidor e ao meio ambiente.

Mais do que uma questão administrativa, trata-se de uma ameaça à segurança nacional, à saúde pública e à economia. Reverter esse cenário exige um compromisso sério com a fortalecimento institucional, transparência orçamentária e prioridade às funções essenciais do Estado.

É fundamental que a sociedade cobre das autoridades a recuperação da capacidade fiscalizatória da ANP. O combustível que abastece seu carro também abastece a segurança e a confiança em um mercado justo.

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