O consumidor brasileiro mal terminou de incorporar o Pix à rotina e já começa a se desenhar uma nova transformação no comércio digital: o comércio agêntico, modelo em que agentes de inteligência artificial (IA) poderão pesquisar produtos, comparar preços, avaliar condições e, dentro de limites autorizados, concluir compras em nome do usuário.
A tecnologia ainda está em fase inicial, mas empresas de pagamentos e instituições financeiras já testam transações realizadas por agentes de IA. Em março de 2026, Santander e Visa anunciaram um piloto em cinco mercados latino-americanos, incluindo o Brasil, para testar pagamentos realizados por agentes com mecanismos de consentimento e controle.
A mudança pode afetar não apenas a experiência de compra. Publicidade, mecanismos de busca, marketplaces, programas de fidelidade e estratégias de varejo também podem ser transformados à medida que a IA passe a participar diretamente das decisões de consumo.
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O que é comércio agêntico?

O comércio agêntico é uma evolução do comércio eletrônico na qual a inteligência artificial deixa de atuar apenas como ferramenta de consulta e passa a executar tarefas em nome do consumidor.
Hoje, uma pessoa pode perguntar a uma IA qual é o melhor celular dentro de determinado orçamento. Depois, porém, precisa acessar lojas, comparar ofertas, verificar o frete e concluir o pagamento.
No comércio agêntico, parte desse processo pode ser delegada ao agente. O consumidor poderia informar quanto pretende gastar, quais características procura e qual prazo de entrega considera aceitável. A IA faria a pesquisa e, caso tivesse autorização, poderia concluir a transação.
A diferença está justamente na capacidade de agir, e não apenas recomendar.
Por que o comércio agêntico ganhou força agora?
A expansão da inteligência artificial generativa criou uma nova forma de interação com serviços digitais. Em vez de começar a jornada em um buscador ou diretamente no aplicativo de uma loja, o consumidor pode iniciar a pesquisa em uma conversa.
O próximo passo é permitir que a mesma tecnologia execute a operação.
Esse movimento ocorre ao mesmo tempo em que os pagamentos digitais avançam. No Brasil, o Pix tornou as transferências instantâneas parte da rotina e criou uma infraestrutura particularmente adequada para operações digitais rápidas.
Segundo dados do Global Payments Report 2026, citados pelo InfoMoney, o Pix respondeu por 42% do valor movimentado no comércio eletrônico brasileiro em 2025. Nos pontos de venda físicos, a participação chegou a 34%.
A expectativa é que os pagamentos conta a conta, categoria que inclui o Pix, alcancem 44% do comércio eletrônico brasileiro e 46% do varejo físico até 2030.
Isso não significa que os cartões estejam desaparecendo. Em 2025, eles ainda representaram 45% do valor das compras no comércio eletrônico brasileiro, com o cartão de crédito respondendo sozinho por 40%.
O que está mudando é a quantidade de opções disponíveis e a velocidade com que uma transação pode ser realizada.
Como uma compra feita por inteligência artificial funcionaria?
Em uma situação hipotética, o consumidor poderia dizer ao agente:
“Encontre um notebook de até R$ 5 mil, com pelo menos 16 GB de RAM, SSD de 512 GB e entrega em até dois dias.”
A IA poderia então:
- pesquisar produtos disponíveis;
- comparar preços;
- verificar especificações;
- analisar avaliações;
- conferir frete e prazo;
- apresentar as melhores alternativas;
- concluir a compra, caso tenha autorização para isso.
A tecnologia, portanto, não substituiria apenas o mecanismo de busca. Ela poderia assumir uma parte da jornada de decisão e execução da compra.
Esse é o ponto que diferencia o comércio agêntico de um simples chatbot de atendimento.
O que muda para o consumidor?
A principal mudança tende a ser a redução do esforço necessário para comprar.
Hoje, comparar dez lojas pode significar abrir várias páginas, verificar preços, calcular fretes, analisar avaliações e conferir condições de pagamento. Para o consumidor, isso representa tempo e trabalho.
Um agente de IA poderia realizar boa parte dessas tarefas automaticamente.
Imagine, por exemplo, uma pessoa que compra ração para o cachorro todos os meses. Em vez de repetir a pesquisa, ela poderia estabelecer uma regra para que o agente procure automaticamente a melhor oferta dentro de um determinado orçamento e providencie a reposição.
A mesma lógica poderia ser aplicada a produtos de higiene, itens de supermercado, medicamentos de venda livre, material de escritório ou outros produtos de consumo recorrente.
A IA poderá comprar sem autorização?
Esse é um dos pontos mais importantes do comércio agêntico.
A tendência é que a autonomia seja baseada em permissões previamente estabelecidas pelo usuário.
O consumidor poderia determinar um limite de valor, autorizar determinadas categorias de produtos ou permitir compras apenas em empresas específicas.
Por exemplo, poderia estabelecer uma regra como: “compre automaticamente este produto sempre que o preço ficar abaixo de R$ 100”.
Nesse caso, a IA teria autonomia dentro de um limite claramente definido.
Para compras maiores, o sistema poderia exigir uma confirmação antes do pagamento.
Esse modelo de autorização é fundamental porque uma coisa é pedir uma recomendação à inteligência artificial. Outra, completamente diferente, é permitir que ela movimente dinheiro.
E se a IA comprar algo errado?
Esse é um dos principais desafios do modelo.
Uma compra realizada por um consumidor segue uma cadeia relativamente conhecida de responsabilidade. Quando um agente de IA passa a participar da operação, surgem novas perguntas.
Quem será responsável se a IA interpretar uma instrução de forma equivocada? Como será possível provar que uma transação foi autorizada? O consumidor poderá cancelar a operação? Quem responderá por uma fraude?
Essas questões ainda estão sendo discutidas pelo setor.
Por isso, segurança e mecanismos de autorização deverão acompanhar o avanço do comércio agêntico. O objetivo será impedir que uma autorização genérica para determinada tarefa se transforme em liberdade irrestrita para gastar dinheiro.
A marca favorita pode perder espaço?
É possível.
Durante décadas, empresas investiram em publicidade, reconhecimento de marca e programas de fidelidade para influenciar a decisão do consumidor.
Uma inteligência artificial, porém, pode tomar uma decisão diferente.
Se o usuário pedir o melhor tênis para corrida até R$ 700, por exemplo, o agente poderá comparar diferentes marcas com base em preço, especificações, avaliações, disponibilidade e prazo de entrega.
Se uma marca desconhecida atender melhor aos critérios, ela poderá aparecer entre as primeiras opções.
Isso cria uma nova disputa pela preferência do consumidor.
As empresas não precisarão apenas convencer uma pessoa de que seu produto é bom. Também terão de garantir que suas informações sejam claras e estruturadas o suficiente para serem compreendidas pelos sistemas de IA.
O que muda para as empresas?
A transformação pode atingir praticamente toda a estratégia digital do varejo.
Hoje, muitas empresas trabalham para aparecer nos mecanismos de busca, atrair consumidores para seus sites e conduzi-los até o checkout.
Com agentes de IA, parte dessa jornada pode desaparecer.
O consumidor poderá não visitar dez lojas diferentes. O agente poderá fazer a comparação e apresentar apenas algumas opções.
Isso significa que ser encontrado por uma inteligência artificial pode se tornar tão importante quanto aparecer bem posicionado em um mecanismo de busca tradicional.
Informações como preço, estoque, especificações, avaliações, prazo de entrega e políticas de troca precisarão estar organizadas de maneira que sistemas automatizados consigam interpretar.
O comércio agêntico pode mudar a publicidade?
Sim.
No comércio tradicional, a publicidade busca influenciar diretamente a decisão do consumidor. Empresas compram mídia, desenvolvem campanhas e trabalham para criar preferência por determinadas marcas.
No comércio agêntico, parte da decisão poderá passar primeiro por um sistema que compara diversas alternativas.
Isso pode aumentar o peso de características objetivas, como preço, disponibilidade, qualidade, prazo e reputação.
A publicidade não necessariamente perderá importância, mas a disputa pode mudar de lugar.
As empresas poderão precisar responder a uma nova pergunta:
Como fazer meu produto ser considerado relevante por um agente de inteligência artificial?
Qual será o papel do Pix?
O Brasil possui uma característica que pode favorecer o desenvolvimento do comércio agêntico: a forte adoção dos pagamentos instantâneos.
O Pix permite transferências em poucos segundos e funciona de maneira integrada aos sistemas digitais dos bancos e das empresas.
Essa característica combina com um modelo em que uma inteligência artificial precisa iniciar e concluir operações de maneira rápida.
Isso não significa que o comércio agêntico dependerá do Pix. Cartões, carteiras digitais e outras formas de pagamento continuarão disponíveis.
O Pix, porém, pode ganhar espaço em determinadas operações justamente por eliminar algumas etapas tradicionais da transação.
O comércio agêntico vai acabar com os cartões?
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Não há indicação de que isso vá acontecer.
Os cartões continuam relevantes no comércio brasileiro, principalmente por causa do crédito e do parcelamento.
O cenário mais provável é de coexistência entre diferentes meios de pagamento.
Uma IA poderá escolher um cartão em determinada situação e um pagamento instantâneo em outra, dependendo das regras estabelecidas pelo consumidor.
O agente, nesse caso, poderá funcionar como uma espécie de camada de decisão entre o usuário e as diferentes opções disponíveis.
O consumidor vai confiar na IA para comprar?
Essa será uma das principais barreiras para a adoção.
Existe uma diferença importante entre perguntar à inteligência artificial qual produto comprar e permitir que ela efetivamente gaste dinheiro.
A segunda situação exige confiança não apenas na IA, mas também na plataforma, no sistema de pagamentos e nos mecanismos de segurança.
Por isso, compras recorrentes e de menor valor podem ser uma das primeiras aplicações do modelo.
Produtos de maior valor, como viagens, eletrônicos caros ou veículos, provavelmente exigirão níveis maiores de confirmação e controle.
O mercado já está testando o comércio agêntico?
Sim.
Empresas de tecnologia e pagamentos vêm desenvolvendo soluções para permitir que agentes de IA participem de diferentes etapas do processo de compra.
Em 2026, Visa e Santander anunciaram um piloto de pagamentos realizados por agentes de IA em cinco mercados da América Latina, incluindo o Brasil.
A Visa também vem trabalhando em mecanismos voltados para pagamentos iniciados por agentes, com foco em autenticação, autorização e segurança.
A Checkout.com informou, em pesquisa com comerciantes, que uma parcela significativa das empresas já estava testando aplicações relacionadas ao comércio agêntico.
As estimativas sobre o tamanho futuro desse mercado, porém, variam bastante. A Juniper Research projeta que as transações agênticas podem movimentar US$ 8 bilhões em 2026 e chegar a US$ 3,5 trilhões em 2031.
Esses números são projeções, e não valores já movimentados pelo mercado.
O comércio agêntico vai substituir o e-commerce?
Provavelmente não.
A tendência é que ele funcione como uma nova camada sobre a infraestrutura já existente.
Sites, aplicativos, marketplaces, bancos, cartões e Pix continuarão fazendo parte do ecossistema.
O que pode mudar é a interface utilizada pelo consumidor.
Em vez de entrar diretamente em uma loja, procurar o produto e realizar o pagamento, o consumidor poderá conversar com um agente que coordena essas etapas.
A mudança, portanto, não está necessariamente no desaparecimento do comércio eletrônico, mas na forma como o consumidor chega até o produto e toma a decisão de compra.
O que o consumidor deve fazer agora?

Não há necessidade de conceder autonomia total a uma inteligência artificial.
À medida que essas ferramentas forem incorporadas às compras, o consumidor deverá prestar atenção principalmente às permissões concedidas e aos limites definidos.
Sempre que possível, é recomendável estabelecer parâmetros claros, como:
- valor máximo por compra;
- categorias autorizadas;
- empresas ou plataformas permitidas;
- necessidade de confirmação para determinados valores;
- formas de pagamento autorizadas;
- possibilidade de cancelamento ou contestação.
Quanto mais específica for a autorização, menor tende a ser o risco de uma interpretação inesperada.
O comércio agêntico ainda está começando, mas sua possível transformação é maior do que simplesmente permitir que uma IA “compre por você”.
A tecnologia pode mudar a própria lógica do varejo: o consumidor deixa de pesquisar individualmente cada produto e passa a delegar parte da decisão a um agente digital.
O Pix mudou a maneira como o brasileiro paga. O comércio agêntico pode começar a mudar a maneira como ele decide o que comprar.
Conclusão
O comércio agêntico ainda está no início, mas pode mudar a relação entre consumidores, empresas e tecnologia. A IA deixa de apenas recomendar produtos e passa a executar etapas da compra, com potencial para tornar o processo mais rápido e automatizado.
Para o consumidor, a principal promessa é praticidade. Para as empresas, o desafio será conquistar espaço nas recomendações feitas por agentes de IA. Se a tecnologia ganhar confiança, a próxima transformação do varejo pode não estar apenas em como o consumidor paga, mas em quem decide o que ele compra.



