A confiança do consumidor brasileiro caiu novamente em agosto e atingiu o menor nível desde novembro de 2022. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC), calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), recuou 3,6 pontos, para 84,7 pontos, na série com ajuste sazonal.
O resultado, divulgado nesta terça-feira (25), representa a quarta queda mensal consecutiva. A piora indica que as famílias estão mais pessimistas tanto em relação às próprias condições financeiras quanto às perspectivas para os próximos meses.
A redução da confiança também pode ter reflexos no consumo, principalmente em compras de maior valor. Entenda o que explica o resultado, quem foi afetado e o que os números podem indicar para a economia brasileira no segundo semestre.
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O que explica a queda da confiança do consumidor?

A queda de agosto foi influenciada pelos dois componentes do indicador, mas a deterioração das expectativas foi mais intensa.
O Índice de Expectativas (IE) caiu 5,4 pontos, para 86,1 pontos, atingindo o menor nível desde julho de 2022. Já o Índice de Situação Atual (ISA) recuou 0,6 ponto, para 83,8 pontos.
Na prática, o resultado mostra que as famílias estão menos otimistas sobre o futuro e também avaliam de maneira um pouco mais negativa as condições atuais.
Segundo Anna Carolina Gouveia, economista do FGV IBRE, dificuldades financeiras, endividamento, inadimplência e juros elevados ajudam a explicar a perda de confiança.
Intenção de compra de bens duráveis despenca
Um dos dados que mais chamaram atenção na pesquisa foi a queda na intenção de compra de bens duráveis, como eletrodomésticos, móveis e outros produtos de maior valor.
O indicador recuou 10 pontos, para 74,7 pontos, o menor nível desde julho de 2022.
O movimento sugere maior cautela das famílias antes de assumir despesas mais elevadas. Uma pessoa que pretendia trocar um eletrodoméstico, comprar móveis ou realizar outra aquisição de valor significativo pode optar por adiar a decisão diante das incertezas sobre o orçamento.
Isso não significa que todos os consumidores estejam reduzindo seus gastos. O indicador mede a intenção de compra e funciona como um sinal sobre o comportamento esperado das famílias.
Famílias estão mais pessimistas sobre a própria situação financeira
A percepção sobre a situação financeira futura também piorou.
O indicador que mede a expectativa das famílias sobre suas finanças nos próximos meses caiu 4,6 pontos, para 82,9 pontos. Já a avaliação da situação financeira atual recuou 1,2 ponto, para 74,3 pontos.
A combinação dos resultados mostra que o consumidor está enfrentando uma percepção mais negativa tanto do presente quanto do futuro.
Esse comportamento pode levar as famílias a priorizar despesas essenciais, aumentar a poupança ou evitar novas dívidas.
Confiança cai entre todas as faixas de renda
A perda de confiança não ficou concentrada em um único grupo.
Segundo o FGV IBRE, a queda registrada em agosto foi homogênea entre as diferentes faixas de renda.
O impacto, porém, pode ser diferente de acordo com a situação financeira de cada família. Consumidores com orçamento mais apertado tendem a ter menos margem para absorver aumento de despesas, juros ou parcelas de dívidas.
O que significa o índice chegar a 84,7 pontos?
O ICC acompanha a percepção dos consumidores sobre a situação econômica e financeira atual e suas expectativas para os próximos meses.
Em agosto, o indicador chegou a 84,7 pontos, abaixo dos 88,3 pontos registrados em julho.
O nível é o menor desde novembro de 2022, quando a confiança havia ficado em 83,5 pontos.
Além disso, a média móvel trimestral caiu 1,4 ponto, para 87,2 pontos. Essa medida ajuda a identificar tendências ao reduzir o peso das oscilações de apenas um mês.
Por isso, a sequência de quatro quedas consecutivas merece atenção maior do que uma redução isolada.
Por que a confiança do consumidor importa para a economia?
A confiança das famílias é acompanhada de perto porque o consumo representa uma parcela importante da atividade econômica brasileira.
Quando o consumidor está mais confiante, tende a demonstrar maior disposição para comprar, financiar bens e assumir compromissos financeiros. Quando o pessimismo aumenta, é comum que decisões de consumo sejam adiadas.
O efeito pode ser especialmente relevante para setores dependentes da venda de produtos de maior valor.
A própria FGV avalia que a trajetória recente da confiança sinaliza uma possível desaceleração do consumo das famílias no segundo semestre de 2026, apesar da força do mercado de trabalho.
Isso não significa, porém, que o resultado determine uma recessão ou uma queda generalizada da economia. O índice é um indicador de percepção e precisa ser analisado em conjunto com outros dados.
Juros altos e endividamento pesam sobre as famílias
O cenário financeiro também ajuda a entender por que os consumidores estão mais cautelosos.
Famílias que já possuem empréstimos, financiamentos ou outras dívidas podem encontrar mais dificuldade para assumir novas parcelas quando o custo do crédito permanece elevado.
A inadimplência também reduz a capacidade de consumo, enquanto a necessidade de reorganizar o orçamento pode fazer com que compras não essenciais sejam adiadas.
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Esse comportamento, quando ocorre em grande escala, pode afetar empresas que dependem da demanda das famílias.
A percepção sobre a economia atual também piorou?
O movimento foi mais moderado nesse aspecto.
O indicador que mede a percepção sobre a situação econômica local atual praticamente ficou estável em agosto, com queda de 0,1 ponto, para 93,6 pontos.
Já a avaliação da situação financeira atual das famílias caiu 1,2 ponto, para 74,3 pontos.
Os números mostram que a perda de confiança não está relacionada apenas à visão sobre a economia brasileira em geral. A percepção sobre as próprias finanças também exerce influência importante sobre o comportamento do consumidor.
O que pode acontecer nos próximos meses?
O principal ponto de atenção será saber se a queda de agosto representa uma piora temporária ou a continuidade de uma tendência.
A sequência de quatro meses de retração indica que o movimento já não pode ser tratado apenas como uma oscilação pontual.
Para os próximos meses, fatores como inflação, juros, emprego, renda, crédito e endividamento deverão continuar influenciando o comportamento das famílias.
Se as condições financeiras melhorarem, a confiança pode se recuperar. Caso contrário, a maior cautela poderá continuar limitando principalmente as compras de maior valor.
O que o resultado muda para o consumidor?

O resultado da pesquisa não significa que as famílias devam interromper seus gastos. Ele serve como um sinal de que o ambiente econômico está levando os consumidores a agir com mais cautela.
Para quem pretende assumir uma nova dívida ou fazer uma compra de valor elevado, o momento exige atenção ao orçamento, às taxas de juros e ao peso das parcelas na renda mensal.
A decisão deve considerar a situação financeira individual, já que um indicador nacional de confiança não determina o que é melhor para cada consumidor.
Conclusão
A confiança do consumidor caiu 3,6 pontos em agosto, para 84,7 pontos, registrando a quarta queda consecutiva e o menor nível desde novembro de 2022.
A principal deterioração ocorreu nas expectativas para o futuro. A intenção de comprar bens duráveis também despencou, enquanto a percepção sobre a situação financeira das famílias ficou mais negativa.
O resultado indica um consumidor mais cauteloso e pode representar um sinal de desaceleração do consumo no segundo semestre. Os próximos indicadores de inflação, emprego, crédito e atividade econômica serão fundamentais para saber se essa perda de confiança continuará ou será revertida.



