As contas externas do Brasil registraram déficit de US$ 5,1 bilhões em agosto de 2026, segundo dados divulgados pelo Banco Central. O resultado representa uma piora em relação ao déficit de US$ 3,8 bilhões observado no mesmo mês de 2025.
O resultado das chamadas transações correntes reúne diferentes fluxos entre o Brasil e outros países, incluindo comércio de mercadorias, serviços contratados no exterior e rendimentos enviados ou recebidos por investidores. O indicador, portanto, oferece uma visão mais ampla da relação financeira do país com o restante do mundo.
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O que explica o déficit das contas externas

O saldo negativo de agosto ocorreu mesmo com uma balança comercial favorável. As exportações brasileiras de bens alcançaram US$ 33,3 bilhões, enquanto as importações somaram US$ 26,7 bilhões. Com isso, o país terminou o mês com superávit comercial de US$ 6,6 bilhões.
Na comparação anual, as exportações cresceram 12,1% e as importações avançaram 9,4%. O resultado mostra que o comércio de mercadorias contribuiu positivamente para as contas externas, mas não foi suficiente para compensar os déficits registrados em serviços e renda primária.
Essa composição é importante porque um país pode apresentar superávit comercial e, ainda assim, registrar déficit nas transações correntes. O Banco Central contabiliza conjuntamente comércio, serviços, renda primária e renda secundária para chegar ao resultado final.
Serviços pressionam o resultado
A conta de serviços apresentou déficit de US$ 5,3 bilhões em agosto, contra US$ 4,1 bilhões um ano antes. O aumento foi influenciado por diferentes tipos de despesas realizadas no exterior.
Entre os maiores movimentos estiveram os gastos líquidos com transporte, que chegaram a US$ 1,5 bilhão, e com serviços de telecomunicações, computação e informações, que alcançaram US$ 1,3 bilhão.
A estatística inclui atividades cada vez mais presentes na economia digital, como serviços de computação, telecomunicações e outras operações internacionais. O próprio sistema estatístico do BC classifica esses fluxos dentro da conta de serviços.
As despesas líquidas com propriedade intelectual também aumentaram e chegaram a aproximadamente US$ 1 bilhão. Essa categoria envolve pagamentos relacionados ao uso de patentes, marcas, direitos autorais, franquias e licenças, inclusive aqueles associados a softwares e conteúdos protegidos.
Viagens internacionais também entram na conta
As viagens internacionais movimentaram US$ 1 bilhão em despesas líquidas em agosto, resultado semelhante ao registrado no mesmo mês de 2025.
O número é formado pela diferença entre o que estrangeiros gastam no Brasil e o que brasileiros desembolsam durante viagens ao exterior. Em agosto, as receitas com visitantes estrangeiros chegaram a US$ 0,9 bilhão, enquanto as despesas de brasileiros fora do país atingiram US$ 1,9 bilhão.
Renda primária amplia a saída de recursos
Outro componente relevante foi a renda primária, que registrou déficit de US$ 7 bilhões em agosto. No mesmo mês de 2025, o resultado negativo havia sido de US$ 5,4 bilhões.
A maior parte dessa diferença esteve relacionada a lucros e dividendos associados a investimentos diretos e investimentos em carteira. As despesas líquidas nessa categoria alcançaram US$ 5,9 bilhões, ante US$ 4,2 bilhões um ano antes.
Já as despesas líquidas com juros ficaram em US$ 1,1 bilhão, abaixo dos US$ 1,2 bilhão registrados em agosto de 2025.
Esses números ajudam a explicar por que o desempenho comercial positivo não foi suficiente para impedir o déficit das transações correntes.
Investimento estrangeiro continua entrando no país
Apesar do déficit externo, o Brasil continuou recebendo volumes expressivos de investimento direto. O investimento direto no país (IDP) registrou ingresso líquido de US$ 7,4 bilhões em agosto.
Nos 12 meses encerrados no mês, o fluxo acumulado chegou a US$ 86,6 bilhões, equivalente a 3,39% do Produto Interno Bruto (PIB). O resultado ficou próximo dos US$ 86,8 bilhões acumulados até julho e acima dos US$ 79,3 bilhões registrados em agosto de 2025.
Dentro do resultado mensal, houve US$ 9,3 bilhões em ingressos relacionados à participação no capital. Em contrapartida, as operações intercompanhia tiveram saída líquida de US$ 1,9 bilhão.
O investimento direto é acompanhado de perto porque representa recursos destinados a empresas e atividades produtivas, diferentemente de fluxos financeiros de curto prazo.
Investimentos em carteira registram saída
O comportamento foi diferente nos investimentos em carteira. Em agosto, houve saída líquida de US$ 5,2 bilhões do mercado doméstico.
Os investimentos em ações e fundos registraram retirada líquida de US$ 6,5 bilhões. Já os títulos negociados no mercado doméstico receberam ingresso líquido de US$ 1,3 bilhão.
Mesmo com a saída em agosto, o acumulado de 12 meses permanecia positivo, em US$ 11,7 bilhões.
Reservas internacionais chegam a US$ 372,6 bilhões

As reservas internacionais brasileiras encerraram agosto em US$ 372,6 bilhões, alta de US$ 2,9 bilhões em relação ao mês anterior.
Segundo o Banco Central, o aumento foi favorecido principalmente pelas variações de paridades, que contribuíram com US$ 2,7 bilhões, e pelas receitas de juros, de US$ 0,9 bilhão. Por outro lado, vendas de US$ 1 bilhão no mercado à vista reduziram o estoque.
As reservas funcionam como um colchão financeiro externo e são acompanhadas pelo mercado porque ajudam a avaliar a capacidade do país de enfrentar choques nas contas externas e oscilações nos fluxos internacionais.
Foto: Michael Melo/Metrópoles
