O governo federal deve apoiar uma proposta que prevê redução gradual de 10% em benefícios fiscais nos próximos dois anos. A medida, apresentada pelo deputado Mauro Benevides (PDT-CE), tem como objetivo substituir o polêmico aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), duramente criticado por parlamentares e setores econômicos.
Governo propõe corte de 10% em benefícios para evitar aumento do IOF; veja como te afeta
Projeto propõe corte de 10% em benefícios fiscais até 2026 e arrecadação de R$ 80 bi, evitando alta do IOF e crise no Congresso.
Com apoio declarado do Ministério da Fazenda, o projeto transforma parte da proposta fiscal já em discussão no Congresso em uma alternativa viável para recompor receitas sem elevar impostos.
O que diz o projeto de lei complementar

Protocolado no dia 4 de junho, o texto prevê a redução de 5% nos benefícios fiscais em 2025 e outros 5% em 2026. A meta é arrecadar até R$ 80 bilhões em dois anos, segundo projeções técnicas do governo.
Pontos principais da proposta:
- Corte de 5% nos incentivos fiscais em 2025
- Novo corte de 5% sobre o valor restante em 2026
- Proibição de criação de novos benefícios tributários federais
- Proibição de prorrogação dos incentivos atuais com prazo de validade
- Isenção para a Zona Franca de Manaus e entidades sem fins lucrativos
A iniciativa surge como uma forma de reduzir o déficit fiscal sem agravar o ambiente político, já pressionado pela insatisfação com o aumento do IOF.
Por que o IOF estava sendo ampliado?
O aumento do IOF foi sugerido como compensação fiscal para novas despesas previstas no orçamento de 2025, incluindo programas sociais, investimentos e ajustes no novo regime fiscal sustentável. No entanto, o decreto que previa a alta do imposto enfrentou forte reação no Congresso Nacional, com ameaça de derrubada por meio de decreto legislativo.
Razões da oposição ao aumento do IOF:
- Pressão inflacionária sobre operações de crédito
- Impacto direto no consumo e nas famílias endividadas
- Repercussão negativa no setor bancário
- Aumento da carga tributária indireta
Como funcionará o corte dos benefícios fiscais

A lógica do projeto é simples e escalonada. Um benefício de 10% de isenção, por exemplo, passaria para 9% no primeiro ano, e para 8,1% no segundo.
Exemplo prático:
- Empresa com R$ 1 milhão em faturamento anual e 10% de isenção:
- Em 2024: economia de R$ 100 mil
- Em 2025: economia de R$ 90 mil
- Em 2026: economia de R$ 81 mil
Segundo autoridades do Ministério da Fazenda, o impacto para os contribuintes será progressivo e limitado, ao mesmo tempo em que melhora a eficiência do sistema tributário.
“Se uma empresa tem 10% de isenção, passará a ter 9%. Continuará com 90% do benefício”, destacou uma fonte da equipe econômica.
Quais setores serão atingidos?
O texto ainda não detalha quais setores serão mais afetados, mas os benefícios horizontais, como crédito presumido de PIS/Cofins e regimes especiais, devem estar no centro dos ajustes.
Devem ser impactados:
- Indústrias com incentivos regionais
- Exportadores com crédito presumido
- Empresas do Simples com regimes cumulativos especiais
- Setores com isenção parcial de tributos federais
Não serão afetados:
- Zona Franca de Manaus
- Entidades sem fins lucrativos com certificações reconhecidas
- Programas sociais isentos por lei específica
Impacto fiscal estimado
O corte gradual pode gerar R$ 40 bilhões por ano, totalizando R$ 80 bilhões até 2026, de acordo com estimativas internas do governo e da equipe de Mauro Benevides.
O valor supera a necessidade de compensação do aumento do IOF, tornando-se uma alternativa viável politicamente e economicamente.
Estimativa com base na PLOA 2025:
- Gastos tributários federais: R$ 540 bilhões
- Equivalente a 4,4% do PIB
- Com corte de 10%: arrecadação extra de R$ 80 bilhões
Justificativa política e econômica
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Na justificativa do projeto, o deputado Mauro Benevides argumenta que a multiplicação de regimes especiais tornou o sistema tributário brasileiro ineficiente e desigual.
“A proliferação de regimes especiais e benefícios setoriais tem gerado um sistema tributário cada vez mais complexo, oneroso e ineficiente, além de criar inequidades entre contribuintes e setores econômicos”, escreveu Benevides.
O texto também afirma que a medida evita aumento da carga tributária direta sobre a população, atendendo a um dos principais pedidos do Congresso.
Próximos passos no Congresso

O projeto será analisado como lei complementar, o que exige maioria absoluta nas duas Casas (257 votos na Câmara e 41 no Senado). Uma reunião entre o governo federal e líderes partidários está prevista para os próximos dias, com o objetivo de alinhar o encaminhamento político.
Expectativas:
- Apoio do Ministério da Fazenda e da base aliada
- Negociação com setores afetados para evitar desgaste
- Tramitação acelerada para substituir o decreto do IOF
O governo quer evitar mais um embate com o Legislativo, especialmente em um ano que já inclui votações sensíveis do novo regime fiscal e reformas estruturais.
Benefícios tributários no Brasil: um sistema em revisão
O Brasil possui um dos maiores volumes de gastos tributários do mundo, concentrando isenções e incentivos em setores muitas vezes desiguais.
Panorama atual:
- Mais de 250 tipos de benefícios tributários federais
- Muitos sem revisão há mais de 10 anos
- Falta de avaliação sobre impacto econômico e social
O projeto de Mauro Benevides visa iniciar um processo de revisão racional dos incentivos, mantendo os estratégicos e cortando os ineficazes.
Imagem: Reprodução/Miguel Schincariol/AFP
