A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito instalada para apurar irregularidades no INSS entra em uma fase decisiva. Nesta segunda-feira, a partir das 14h30, os parlamentares ouvirão duas figuras consideradas estratégicas para esclarecer suspeitas de desvio de pensões e aposentadorias. O ex-coordenador-geral de Pagamento de Benefícios do instituto, Jucimar Fonseca da Silva, e o empresário Thiago Schettini foram convocados após a comissão identificar indícios de que ambos tiveram participação, direta ou indireta, em operações que favoreceram entidades atualmente sob investigação.
CPMI convoca ex-coordenador do INSS e empresário apontado por esquema de desvios
A CPMI aprofunda apurações sobre possíveis fraudes no INSS, com depoimentos de ex-gestor e empresário ligado a entidades investigadas.
A oitiva ocorre em meio a uma série de revelações que vêm ampliando a pressão sobre a cúpula do INSS e sobre grupos que atuavam na intermediação de consignados, convênios e descontos associativos. A CPMI tenta reconstruir a cadeia de decisões administrativas que permitiram a reativação de vínculos com organizações sob mira da Polícia Federal (PF) e, ao mesmo tempo, entender como intermediários privados teriam se beneficiado de movimentações consideradas suspeitas.
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Gestão de benefícios e desbloqueios em lote voltam ao centro do debate
Jucimar Fonseca assumiu papel de destaque quando, ainda no comando de áreas estratégicas do INSS, autorizou o desbloqueio em lote dos descontos vinculados a associações. A retomada desses repasses contrariou, segundo parlamentares responsáveis pelo pedido de convocação, parecer da procuradoria especializada da autarquia. Para os investigadores, a medida abriu espaço para que entidades já monitoradas pela PF continuassem atuando sobre a folha de benefícios previdenciários.
O ato administrativo teria favorecido grupos que aparecem em diversas frentes de investigação — tanto no Congresso quanto em operações da Polícia Federal. A CPMI tenta estabelecer se a decisão de liberar os descontos associativos foi isolada, fruto de falha de controle interno, ou parte de uma articulação maior que beneficiou setores específicos do mercado de consignados.
Atuação de Schettini é vista como peça-chave para entender repasses suspeitos
Além de Fonseca, o empresário Thiago Schettini deve ser interrogado sobre seu suposto papel como elo entre entidades investigadas e operadores do esquema. Segundo integrantes da comissão, ele teria recebido recursos da União Nacional de Auxílio aos Servidores Públicos (Unaspub) e da Prospect Consultoria Empresarial — esta última pertencente ao lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
As suspeitas em torno de Schettini foram reforçadas por informações fornecidas pela Polícia Federal, que apontam padrões atípicos em sua movimentação financeira e em seu histórico de viagens. Um dos requerimentos aprovados pela CPMI destaca que:
“De acordo com informações da PF, há fortes indícios de conexão entre viagens realizadas (por Schettini) e operações financeiras suspeitas. Ademais, o Senhor Thiago Schettini figurou como um dos acompanhantes em viagens da Senhora Cecília Rodrigues Mota, investigada por fraudes no âmbito do INSS”.
Os parlamentares querem saber se essas viagens estavam ligadas à articulação de contratos, à negociação de vantagens ou à operação de grupos acusados de infiltrar intermediários em estruturas administrativas do INSS.
Entidades sob questionamento e o impacto sobre os segurados
As denúncias analisadas pela CPMI apontam que associações e consultorias envolvidas no caso utilizavam convênios para aplicar descontos automáticos em benefícios de aposentados e pensionistas. Muitos segurados teriam sido surpreendidos por cobranças referentes a serviços que não solicitaram ou desconheciam, situação que levou a um aumento expressivo de reclamações nos canais oficiais do INSS e em órgãos de defesa do consumidor.
O desbloqueio em lote liberado por Jucimar Fonseca voltou a permitir que essas entidades continuassem acessando a folha dos beneficiários. Esse movimento reacendeu suspeitas sobre a fragilidade dos mecanismos de controle interno do instituto, especialmente aqueles voltados para validação de convênios e auditoria de transações.
Caminho do dinheiro e conexões com servidores e consultorias
O foco da CPMI tem se expandido para além das decisões administrativas. As investigações incluem análises de fluxos financeiros possivelmente relacionados ao grupo liderado pelo “Careca do INSS”. Integrantes da comissão afirmam que pagamentos, depósitos e transferências realizados por consultorias privadas podem demonstrar a existência de uma rede destinada a influenciar decisões dentro do INSS.
Nesse contexto, a participação de Schettini ganha destaque por supostamente atuar como um “facilitador” — termo utilizado por diferentes parlamentares — do contato entre entidades e servidores. A CPMI quer identificar se ele intermediava contrapartidas ou se apenas circulava entre os grupos investigados sem ter envolvimento direto.
O que a CPMI pretende esclarecer com os novos depoimentos
Os próximos passos da comissão buscam responder a questões centrais:
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- Por que o parecer jurídico contrário foi ignorado no momento de liberar o desbloqueio dos descontos associativos?
- Houve pressão externa para restaurar convênios com entidades investigadas?
- Como as movimentações financeiras atribuídas a Schettini se relacionam com operações suspeitas identificadas pela PF?
- Há vínculos diretos entre viagens de investigados e datas de decisões administrativas relevantes no INSS?
- Servidores agiram individualmente ou com participação de grupos organizados?
Essas respostas são consideradas essenciais para que o relatório final da CPMI proponha mudanças estruturais no sistema de convênios e nos processos internos de auditoria do INSS.
Transparência e rastreabilidade como prioridades futuras
Especialistas em governança pública apontam que casos como esse reforçam a necessidade de ampliar a transparência dos processos que envolvem descontos em benefícios. O modelo atual, ainda dependente de autorizações manuais e validações pouco automatizadas, facilita brechas exploradas por grupos que se infiltram nas estruturas operacionais do INSS.
A expectativa é que, ao final das investigações, a CPMI recomende mecanismos mais rígidos de controle, como:
- auditorias periódicas de convênios;
- criação de trilhas automáticas de rastreabilidade;
- exigência de dupla verificação para desbloqueios em lote;
- revisão dos critérios de credenciamento de entidades.
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Com informações de: VEJA
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