O mercado de capitais brasileiro vive um novo ciclo impulsionado pelo aumento das emissões de títulos de crédito privado. Em um ambiente marcado pela taxa básica de juros elevada e pela maior seletividade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na concessão de financiamentos, empresas de diversos setores têm buscado alternativas para captar recursos sem recorrer exclusivamente aos grandes bancos.
Com crédito privado no topo, especialistas fazem alerta sobre volatilidade e inadimplência
Crédito privado cresce no Brasil com juros altos, mas investidores enfrentam riscos elevados e retornos pressionados
A mudança, que começou a ganhar força em 2017 com o reposicionamento do BNDES, modificou a dinâmica de financiamento corporativo no país. Desde então, companhias passaram a emitir com mais intensidade debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), oferecendo aos investidores oportunidades de retorno potencialmente mais atrativas — mas também carregadas de risco.
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A guinada no financiamento corporativo
O novo direcionamento do BNDES teve impacto direto sobre o mercado. O banco reduziu significativamente o volume de empréstimos subsidiados e passou a focar em projetos ligados à sustentabilidade, inovação e infraestrutura verde. Segundo Diego Ramiro, presidente da Associação Brasileira dos Assessores de Investimentos (ABAI), essa mudança empurrou muitas empresas para o mercado de capitais.
“O BNDES impediu o volume de empréstimos subsidiados e passou a ser mais seletivo na escolha dos projetos que financia. Muitas empresas passaram a buscar novas formas de captação”, explica.
Com isso, em vez de recorrerem a empréstimos diretos de instituições financeiras, companhias passaram a emitir títulos de dívida no mercado financeiro, abrindo novas frentes de investimento para pessoas físicas e institucionais.
O avanço das emissões em 2025
Os números confirmam a expansão. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) mostram que as operações de crédito privado atingiram R$ 381,4 bilhões no acumulado de 2025 até setembro — 72% de tudo o que foi emitido no período.
Além do custo, investidores foram atraídos por prêmios mais altos e, em alguns casos, até pela isenção de Imposto de Renda (IR), presente em alguns títulos. Porém, os riscos nem sempre são claros para o público geral.
Principais produtos do crédito privado
Debêntures
As debêntures são títulos de dívida emitidos por empresas para financiar projetos de médio e longo prazo. Elas podem ser divididas em dois tipos:
Debêntures incentivadas
Isentas de Imposto de Renda para pessoas físicas, desde que destinadas a financiar projetos de infraestrutura.
Debêntures não incentivadas
Seguem a tributação tradicional, com alíquotas regressivas de 22,5% a 15% conforme o prazo do investimento.
Certificados de Recebíveis
Os Certificados de Recebíveis também têm ganhado espaço. Eles permitem às empresas antecipar receitas futuras por meio da securitização.
CRIs – Certificados de Recebíveis Imobiliários
Vinculados a créditos do setor imobiliário e isentos de IR para pessoas físicas.
CRAs – Certificados de Recebíveis do Agronegócio
Relacionados ao financiamento do agronegócio, também isentos de IR.
A busca por isenção e o risco oculto
O apetite por isenções tem impulsionado a demanda. A proposta preliminar da Reforma Tributária, que elevava de 5% para 7,5% o IR sobre produtos bancários como LCI e LCA e mantinha a isenção para CRIs, CRAs e debêntures incentivadas, acelerou ainda mais a corrida pelo crédito privado.
No entanto, embora enquadrados como renda fixa, esses instrumentos carregam riscos significativos. E, muitas vezes, o investidor só descobre a complexidade quando já está exposto.
Riscos muitas vezes ignorados pelos investidores
Risco de crédito
Segundo Andressa Bergamo, especialista em investimentos da AVG Capital, o risco principal é a possibilidade de a empresa emissora não conseguir honrar seus pagamentos.
“Ao contrário dos títulos públicos, garantidos pelo Tesouro, os papéis de crédito privado dependem da capacidade financeira da empresa ou da qualidade dos ativos que servem como garantia”, explica.
Risco de liquidez
Nem todos esses títulos têm negociação diária no mercado secundário. Assim, o investidor pode ser obrigado a manter o ativo até o vencimento ou vender com prejuízo caso precise do dinheiro antes.
Ausência de proteção do FGC
Debêntures, CRIs e CRAs não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Ou seja, caso a empresa emissora enfrente dificuldades financeiras, o investidor pode perder todo o valor aplicado.
O especialista Jeff Patzlaff alerta:
“Se a empresa quebrar, você pode perder todo o dinheiro. É essencial avaliar garantias e rating”.
Influência do cenário macroeconômico
Mudanças na Selic ou no risco-país afetam diretamente o valor desses títulos, pressionando preços e prejudicando a rentabilidade.
Retornos pressionados e spreads menores
Nos últimos meses, o interesse crescente por títulos isentos de IR reduziu os spreads — o prêmio pago pelas empresas para atrair investidores.
De acordo com analistas do BB-BI, só em outubro o volume negociado no mercado secundário chegou a R$ 124 bilhões, impactando a remuneração dos investidores.
Após a Medida Provisória que tratava da tributação perder validade, houve um movimento de correção, mas ainda insuficiente para reverter o cenário de retornos comprimidos.
Crises recentes reforçam alerta
A economista Marília Fontes, da Nord Investimentos, lembra que o ambiente econômico desafiador já provocou graves episódios envolvendo grandes companhias:
Casos emblemáticos:
- Lojas Americanas (2023): inconsistências contábeis levaram a um dos maiores colapsos corporativos da história do país.
- Light: dificuldades financeiras afetaram diversos investidores.
- Ambipar e Braskem: aplicações estruturadas ligadas às companhias geraram perdas de até 93%.
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Além das grandes, empresas menores também têm atrasado pagamentos e acionado cláusulas de vencimento antecipado.
“Com a Selic ainda alta, podemos ver novos eventos de crédito, com potencial de contágio”, alerta Fontes.
Quando o crédito privado é recomendado?
Apesar dos riscos, não se trata de um investimento proibitivo. Ao contrário, pode fazer sentido dentro de uma carteira diversificada — especialmente para perfis moderados e arrojados.
O que considerar antes de investir
Rating
A classificação de risco indica a capacidade da empresa de honrar sua dívida.
Setor e garantias
A solidez do setor e a qualidade das garantias são fundamentais.
Estrutura da operação
Títulos mais complexos exigem leitura atenta do prospecto e do risco envolvido.
Em novembro, analistas do BB-BI selecionaram debêntures incentivadas de empresas como:
- Axia Energia
- CPFL Energia
- Sabesp
- Isa Energia
- Vale
Diego Ramiro lembra, porém, que mesmo empresas com rating elevado não estão isentas de risco, especialmente após o caso Americanas.
Prazo e liquidez: elementos decisivos
Debêntures e Certificados de Recebíveis costumam ter prazos longos — de dois a mais de dez anos. Isso expõe o investidor a oscilações de mercado e pode limitar saídas antecipadas.
Patzlaff reforça:
“Quanto maior o prazo, maior tende a ser a oscilação do preço e o impacto dos tributos sobre a rentabilidade”.
Conclusão
O crédito privado vive uma expansão inédita no Brasil, impulsionado por mudanças estruturais no financiamento empresarial e pelo ambiente de juros elevados. Para o investidor, o cenário oferece oportunidades, mas exige análise criteriosa, entendimento dos riscos e alinhamento com o perfil pessoal.
Apesar da atratividade dos títulos isentos, a combinação de spreads baixos, maior inadimplência corporativa e ausência de proteção do FGC demanda atenção redobrada. Em um momento de incerteza econômica, decisões precipitadas podem resultar em prejuízos relevantes.
Com Informações de: G1
Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital
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