O presidente eleito no segundo turno terá pela frente uma agenda econômica marcada por decisões difíceis. O controle da dívida pública, a revisão dos gastos do governo, a trajetória da inflação e dos juros e a regulamentação da reforma tributária estarão entre os principais desafios do próximo mandato.
As escolhas feitas nos primeiros meses de governo poderão influenciar o custo do crédito, o poder de compra das famílias, os investimentos das empresas e a confiança do mercado na economia brasileira. Para os economistas, a capacidade de articulação com o Congresso Nacional será fundamental para transformar propostas em medidas concretas.
A seguir, veja quais são os principais problemas econômicos que deverão exigir atenção do próximo presidente e como cada decisão pode afetar a população.
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Dívida pública será um dos principais problemas

O equilíbrio das contas públicas deverá estar no centro da agenda econômica do próximo presidente. Em agosto, a dívida bruta do governo geral havia alcançado 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), indicador que representa a soma de todos os bens e serviços produzidos no país.
O desafio não está apenas no tamanho da dívida, mas na dificuldade de controlar o crescimento das despesas. Grande parte do orçamento federal é formada por gastos obrigatórios, que não podem ser simplesmente cortados por uma decisão administrativa.
Para Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, a falta de medidas para conter a dívida poderia levar a uma deterioração ainda maior das contas públicas.
Segundo a economista, sem mudanças estruturais, a dívida poderia crescer cerca de cinco pontos percentuais do PIB por ano e chegar próximo de 100% do PIB em quatro anos.
Isso colocaria o presidente eleito diante de uma escolha delicada: reduzir despesas e enfrentar resistência política ou manter o ritmo de gastos e correr o risco de aumentar a desconfiança em relação à sustentabilidade das contas públicas.
Por que é tão difícil cortar gastos do governo?
O orçamento brasileiro possui uma série de despesas vinculadas a leis e à Constituição, o que limita o espaço de decisão do próximo presidente. Benefícios previdenciários, salários, transferências e recursos destinados a determinadas áreas seguem regras específicas.
Por esse motivo, simplesmente reduzir o número de ministérios, cortar cargos ou suspender concursos teria impacto limitado diante do tamanho das despesas obrigatórias. Para o presidente, o desafio será encontrar medidas capazes de gerar economia sem comprometer serviços públicos essenciais.
Os economistas também apontam a necessidade de discutir uma reforma administrativa mais ampla, capaz de reorganizar carreiras públicas e enfrentar distorções salariais.
Entre os pontos citados estão os chamados supersalários, a revisão de benefícios concedidos a determinados setores e o aumento da transparência nas emendas parlamentares.
A dificuldade é política. Mudanças desse tipo atingem grupos organizados e podem exigir aprovação de Propostas de Emenda à Constituição (PECs) pelo Congresso.
Salário mínimo, saúde e educação entram no debate fiscal
de crescimento da economia.
Outro ponto sensível para o próximo presidente será a forma como determinadas despesas são corrigidas.
Uma das discussões envolve a vinculação de gastos com saúde e educação à arrecadação pública. A revisão dessas regras poderia dar mais flexibilidade ao orçamento, mas também provocaria forte resistência política e social.
O salário mínimo também ocupa posição central nesse debate. Isso ocorre porque o valor do piso nacional influencia não apenas os trabalhadores que recebem esse salário, mas também aposentadorias, pensões e diversos benefícios sociais.
Uma mudança na fórmula de reajuste poderia ajudar a controlar o crescimento das despesas, mas teria impacto direto sobre a renda de milhões de brasileiros. Para o presidente, o desafio será conciliar o controle das contas públicas com a preservação do poder de compra e da proteção social.
Samuel Pessoa, pesquisador associado do FGV IBRE e chefe da pesquisa econômica da Julius Baer Brasil, avalia que o desafio será conciliar a proteção da população mais vulnerável com a capacidade de crescimento da economia.
O ajuste fiscal pode determinar o comportamento dos juros
A situação das contas públicas está diretamente relacionada ao comportamento dos juros.
A taxa Selic é definida pelo Banco Central e influencia empréstimos, financiamentos, investimentos e decisões de consumo. Quando as expectativas de inflação aumentam, a autoridade monetária pode precisar manter os juros elevados por mais tempo.
Um governo que apresente um programa fiscal considerado confiável tende a contribuir para a redução das incertezas. Isso pode ajudar a melhorar as expectativas de inflação e criar condições para uma política monetária menos restritiva.
O contrário também pode ocorrer.
Se o mercado interpretar que o governo pretende ampliar gastos sem apresentar uma fonte sustentável de financiamento, os juros de longo prazo podem subir, assim como a pressão sobre o câmbio.
Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas Asset, destacou que a política monetária não pode ser analisada de forma isolada. O aumento dos gastos pode estimular a demanda e contribuir para pressões inflacionárias, exigindo uma resposta mais dura do Banco Central.
Inflação continuará sendo uma preocupação
Mesmo com a política monetária sob responsabilidade do Banco Central, o presidente terá influência indireta sobre a inflação por meio das decisões fiscais.
Além das contas públicas, fatores externos e climáticos também poderão afetar os preços. Entre os riscos mencionados pelos economistas estão os efeitos do fenômeno El Niño, os custos associados à transição da reforma tributária e possíveis mudanças na legislação trabalhista.
Uma eventual redução da jornada no modelo 6×1, por exemplo, poderia aumentar custos para determinados setores e exigir uma avaliação cuidadosa de seus efeitos sobre preços e emprego. Por isso, mesmo com uma eventual queda da inflação, o presidente precisará lidar com um cenário que pode exigir cautela na redução dos juros.
Reforma tributária terá de sair do papel
A regulamentação da reforma tributária será outra tarefa importante do próximo governo.
Depois da aprovação das mudanças constitucionais, será necessário definir diversos detalhes para que o novo sistema possa funcionar na prática. Entre eles estão as alíquotas dos novos tributos e as regras de transição.
Para as empresas, a previsibilidade será fundamental.
Uma mudança tributária de grande porte exige adaptação de sistemas, contratos, preços e processos contábeis. Quanto maior a incerteza sobre as regras, mais difícil se torna o planejamento de investimentos.
Solange Srour defende que o governo evite ampliar excessivamente o número de exceções e regimes favorecidos.
Isso porque benefícios concedidos a determinados setores podem aumentar a alíquota necessária para os demais contribuintes, caso a arrecadação precise ser compensada.
O que a reforma tributária pode mudar para o consumidor?
A reforma não afeta apenas empresas.
Dependendo da estrutura final das alíquotas e das regras de transição, os custos tributários podem ser redistribuídos entre diferentes setores da economia.
Empresas podem repassar parte desses custos aos preços, absorvê-los em suas margens ou modificar suas estratégias comerciais.
Por isso, o impacto sobre o consumidor não será necessariamente igual para todos os produtos e serviços.
A forma como a regulamentação for conduzida será determinante para evitar mudanças abruptas e reduzir a insegurança durante o período de adaptação.
Relação com China, Estados Unidos e Europa será estratégica
A política externa também terá impacto direto sobre a economia.
A China é um dos principais parceiros comerciais do Brasil, especialmente para produtos do agronegócio e da mineração. Os Estados Unidos e a Europa, por sua vez, têm grande importância para investimentos, tecnologia e comércio.
Por isso, uma ruptura significativa com qualquer desses mercados poderia gerar consequências econômicas.
Os especialistas avaliam que o próximo governo terá de preservar relações comerciais pragmáticas, ampliar oportunidades de exportação e evitar decisões protecionistas capazes de provocar retaliações.
As diferenças políticas entre os candidatos poderiam produzir mudanças na diplomacia, mas os interesses econômicos limitariam uma ruptura profunda com os principais parceiros comerciais.
Congresso será decisivo para a agenda econômica
Muitas das medidas necessárias para alterar a trajetória das contas públicas não dependem exclusivamente do presidente.
O Congresso Nacional terá papel fundamental na aprovação de reformas, mudanças tributárias e alterações nas regras de gastos.
Esse será um dos primeiros grandes testes do governo eleito.
De um lado, haverá pressão por investimentos, manutenção de programas sociais e aumento da renda. De outro, investidores e agentes econômicos cobrarão responsabilidade fiscal e previsibilidade.
O presidente precisará, portanto, construir uma base política capaz de aprovar medidas impopulares sem comprometer completamente sua capacidade de governar.
O que esses desafios significam para a população?
Embora temas como dívida pública e resultado fiscal pareçam distantes da rotina das famílias, eles podem chegar diretamente ao bolso.
Juros elevados encarecem financiamentos e empréstimos. Inflação reduz o poder de compra. Mudanças tributárias podem alterar preços e custos empresariais.
Ao mesmo tempo, um ajuste fiscal mal planejado também pode provocar efeitos negativos se reduzir investimentos públicos ou comprometer políticas essenciais.
O desafio do próximo governo não será simplesmente gastar menos. Será decidir onde cortar, onde preservar recursos e como criar condições para o crescimento econômico sem comprometer a sustentabilidade das contas públicas.
Próximo presidente terá pouco espaço para adiar decisões

A agenda econômica do próximo mandato será extensa e politicamente complexa.
Dívida pública, despesas obrigatórias, inflação, juros, reforma tributária e comércio exterior estarão interligados. Uma decisão em uma dessas áreas poderá produzir consequências nas demais.
Por isso, os primeiros meses de governo serão particularmente importantes.
Um programa econômico considerado consistente poderá melhorar as expectativas e criar condições para investimentos e crescimento. Já a ausência de medidas claras pode aumentar a percepção de risco, pressionar o câmbio e dificultar a queda dos juros.
Para a população, o resultado dessa disputa aparecerá principalmente em indicadores concretos: custo do crédito, inflação, emprego, investimentos e poder de compra.
Conclusão
O próximo presidente encontrará uma economia que exigirá decisões rápidas e, em muitos casos, politicamente difíceis. Controlar o avanço da dívida, equilibrar as contas públicas, criar condições para a redução dos juros e concluir a reforma tributária estarão entre as prioridades para garantir maior previsibilidade ao país.
O resultado dependerá não apenas das medidas escolhidas, mas também da capacidade do governo de construir acordos com o Congresso e transmitir credibilidade ao mercado. Para a população, essas decisões terão efeitos concretos sobre inflação, crédito, emprego, investimentos e poder de compra nos anos seguintes.
