O mercado de juros futuros passou por ajustes relevantes nesta quinta-feira, refletindo as novas expectativas dos investidores após a mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
Taxas dos dis para 2028 e 2029 sofrem queda no dia de ajustes técnicos pós-copom
Taxas dos DIs para 2028 e 2029 caem após Copom indicar fim do ciclo de alta da Selic. Mercado já projeta cortes de juros à frente.
As taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DIs) com vencimento em janeiro de 2028 e 2029 caíram com firmeza, numa sinalização de que os agentes econômicos já começam a projetar o fim do atual ciclo de alta da Selic e a possibilidade de cortes mais à frente.
A movimentação da curva de juros foi considerada técnica, mas importante, pois marca uma inflexão nas apostas de curto e médio prazo sobre a condução da política monetária brasileira.
Ao mesmo tempo, fatores externos — como o avanço dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos (Treasuries) — atuaram como contrapeso, limitando a intensidade da queda nas taxas locais.
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Decisão do Copom e interpretação do mercado

Na noite de quarta-feira (7), o Copom confirmou a expectativa do mercado ao anunciar uma elevação de 0,50 ponto percentual na taxa básica de juros, levando a Selic para 14,75% ao ano.
A decisão foi unânime, mas o comunicado que a acompanhou trouxe elementos novos que mexeram com as projeções dos agentes financeiros.
O colegiado retirou do texto a avaliação anterior de que os riscos para a inflação estavam assimetricamente inclinados para cima. Além disso, incluiu um novo fator de risco baixista: a possibilidade de queda nos preços das commodities, o que teria impacto desinflacionário no cenário.
Essa mudança de linguagem foi interpretada como um sinal de que o Banco Central pode encerrar o ciclo de altas já na próxima reunião, em junho.
Alguns participantes do mercado ainda projetam uma última elevação residual de 0,25 ponto percentual, mas o tom mais neutro do comunicado aumentou as apostas de estabilidade — e até mesmo de futuros cortes de juros.
Comportamento da curva de juros
Parte curta da curva
Nos contratos mais curtos, como o DI para janeiro de 2026 — um dos mais negociados — a taxa subiu para 14,795%, frente aos 14,735% registrados no ajuste da sessão anterior.
Isso reflete o movimento técnico do mercado em ajustar as apostas sobre o que pode acontecer já na reunião de junho, com probabilidades divididas entre manter a taxa e realizar uma última alta residual.
Parte intermediária: queda forte em 2028 e 2029
Os destaques do dia ficaram mesmo na “barriga da curva”, que compreende os vencimentos de médio prazo. A taxa do DI para janeiro de 2028 recuou 10 pontos-base, fechando em 13,445%, enquanto o contrato para janeiro de 2029 caiu 13 pontos-base, para 13,41%.
Durante o pregão, as mínimas registradas foram ainda mais expressivas. Às 11h38, o DI 2028 chegou a marcar 13,37%, e o DI 2029 caiu para 13,35% — quedas de 18 e 19 pontos-base, respectivamente, em relação ao ajuste anterior.
Parte longa: recuo também nos DIs mais distantes
A ponta mais longa da curva também acompanhou o movimento, embora com menos intensidade. A taxa do contrato para janeiro de 2033 caiu 10 pontos-base, indo para 13,64%, frente aos 13,698% do ajuste anterior.
Isso indica que o mercado, ainda que cauteloso, começa a ver espaço para redução dos juros no médio e longo prazo.
Expectativas sobre a Selic e inflação
Especialistas destacam que, mesmo com a inflação projetada para 2026 ainda acima da meta (3,6% frente ao centro de 3,0%), o BC está em posição de encerrar o ciclo de aperto monetário.
A explicação está no horizonte de atuação da política monetária, que leva em conta os efeitos defasados das decisões de juros.
O economista-chefe do banco BMG, Flavio Serrano, afirmou que a sinalização de estabilidade reforça a leitura de que cortes na Selic podem ocorrer em um horizonte mais adiante.
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“O BC deve parar de subir agora. E, uma vez encerrado o processo de alta, aumenta a probabilidade de iniciar cortes no futuro”, disse.
Fatores externos e limitações da queda
Apesar do movimento doméstico de alívio nas taxas, o cenário internacional impediu uma queda mais acentuada, especialmente na ponta longa da curva.
Os rendimentos dos Treasuries — títulos do Tesouro dos EUA — subiram com força, puxados por dados positivos do mercado de trabalho norte-americano e avanços em negociações comerciais com o Reino Unido.
O leilão de títulos de 30 anos promovido pelo Tesouro norte-americano e a queda no número de pedidos de auxílio-desemprego também contribuíram para o aumento dos yields. Às 16h42, o rendimento do Treasury de dez anos estava em 4,375%, em alta de 10 pontos-base.
Esse movimento nos Estados Unidos impacta diretamente os mercados emergentes, como o Brasil, reduzindo o espaço para quedas mais agressivas nas taxas de juros locais, já que o diferencial de juros entre países influencia o fluxo de capitais.
Riscos e projeções futuras

Embora a interpretação geral do mercado seja de que o Copom se prepara para encerrar o ciclo de alta, há ainda divergências.
A analista Laís Costa, da Empiricus Research, chamou atenção para o fato de que a inflação projetada para 2026 ainda está acima do centro da meta e que, tecnicamente, a política monetária deveria continuar apertada para garantir a convergência.
“A dúvida que o mercado carrega é se o BC realmente vai conseguir parar tão rápido. Ainda há ruído. Por isso, as taxas longas caem, mas não desabam”, observou.
Conclusão
O movimento desta quinta-feira na curva de juros brasileira revelou uma leitura mais otimista do mercado sobre o fim do ciclo de alta da Selic.
As quedas nas taxas dos contratos com vencimento em 2028 e 2029 refletem não apenas ajustes técnicos pós-Copom, mas também uma mudança no sentimento predominante: de que o BC pode estar prestes a encerrar o aperto monetário e iniciar um processo de flexibilização nos próximos trimestres.
Contudo, o cenário ainda está longe de definido. Dados econômicos futuros, como inflação, atividade e ambiente externo, continuarão a influenciar fortemente as decisões do Copom — e, por consequência, a formação da curva de juros.
