Uma quadrilha conseguiu burlar o sistema de segurança da Caixa Econômica Federal por pelo menos cinco anos, desviando benefícios sociais em um esquema sofisticado que envolvia desde a cooptação de funcionários até o uso de tecnologias como inteligência artificial.
Quadrilha usava disfarces como peruca e rosto pintado para roubar benefícios sociais
PF desmantela quadrilha que desviava benefícios sociais usando disfarces, IA e funcionários corruptos da Caixa e casas lotéricas.
A investigação da Polícia Federal (PF) revelou o funcionamento detalhado do grupo, que utilizava disfarces, cadastros falsos e pessoas vulneráveis para acessar o dinheiro de contas digitais de baixa renda.
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Chefia e atuação da quadrilha

Segundo a PF, o grupo era liderado por Felipe Quaresma Couto, monitorado desde 2022, mas atuando desde 2020. Ele foi preso em 18 de setembro no bar onde trabalhava. A quadrilha contava com a cooperação direta de funcionários da Caixa e de casas lotéricas para facilitar o desvio de recursos.
O delegado da PF no Rio de Janeiro, Wanderson Pinheiro da Silva, explicou que a operação da quadrilha incluía a coação de funcionários. Um desses funcionários, por exemplo, recebeu mais de R$ 300 mil em propina para fornecer acesso ao aplicativo Caixa Tem, permitindo alterações cadastrais e até manipulação de dados biométricos.
“O grupo tinha acesso a todos os benefícios pagos pelo aplicativo Caixa Tem, como FGTS, Bolsa Família e abono salarial”, disse o delegado.
Como funcionava o golpe para roubar benefícios sociais
O esquema era simples na execução, mas sofisticado na técnica. O funcionário corrupto apagava os dados de beneficiários legítimos e criava novos cadastros usando o mesmo CPF, nome e data de nascimento, mas com e-mail, celular e reconhecimento facial alterados. O dinheiro era, então, transferido diretamente para os criminosos.
A maioria das vítimas era de baixa renda, e a interrupção do pagamento de benefícios causava grande impacto social. Segundo o delegado, ficar “um ou dois meses sem receber um benefício assistencial” gera desgaste emocional nas famílias, que precisam recorrer a agências para contestar e aguardar ressarcimento.
O uso de inteligência artificial e disfarces

Para burlar o reconhecimento facial, o grupo utilizava fotos geradas por inteligência artificial e buscava “rostos virgens” de pessoas que nunca haviam sido cadastradas pelo sistema. Frequentemente, recrutavam moradores de rua e pessoas vulneráveis para criar clientes falsos.
Felipe Quaresma e comparsas também usavam disfarces físicos, como perucas, pintura facial e alteração do corte de cabelo, para validar novas fotos de cadastro. Em conversas interceptadas, um dos integrantes chegou a dizer:
“Vou até fazer a minha barba pra pintar a cara de novo.”
O especialista em reconhecimento facial da PF-RJ, Paulo Cesar Baroni, confirmou que a prioridade do grupo era obter selfies nítidas, sem necessariamente associar a foto ao nome correto do cadastro.
A parceria do crime e a propina
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A PF descreveu a atuação do grupo como uma “parceria do crime”. Mensagens interceptadas mostram coordenadores orientando gerentes da Caixa, referidos como “gera”, a liberar os cadastros fraudulentos. Essa cooptação de funcionários era essencial para o funcionamento do esquema, evidenciando que, mesmo com sistemas tecnológicos avançados, a corrupção humana é um ponto crítico.
O especialista em segurança da informação Wanderley Abreu Júnior ressaltou:
“Nenhuma tecnologia funciona sem o ser humano. Se a peça principal é corrompida, o sistema cai.”
Desdobramentos e medidas da Caixa
A Caixa Econômica Federal informou que colaborou com as investigações, denunciou os envolvidos e afastou os funcionários corruptos. O banco público também destacou que mantém atualizações diárias no sistema de segurança e reconhecimento facial para proteger os 140 milhões de usuários do Caixa Tem.
Anderson Possa, vice-presidente de segurança, logística e operações da Caixa, afirmou que uma diretoria de cibersegurança está sendo criada para prevenir crimes cibernéticos. Segundo ele, existe troca de inteligência entre bancos para reforçar a segurança do sistema financeiro.
Apesar das medidas, quatro integrantes da quadrilha permanecem foragidos. Os presos, Felipe Quaresma e Cristiano Bloise de Carvalho, responderão por estelionato qualificado, corrupção de funcionários públicos, inserção de dados falsos em sistema e organização criminosa.
Imagem: Brenda Rocha – Blossom/shutterstock.com

