O ambiente entre os associados da Cabesp (Caixa Beneficente dos Funcionários do Banespa) e o Banco Santander tornou-se palco de um dos mais tensos embates corporativos do setor bancário brasileiro nos últimos anos. A disputa gira em torno de uma mudança estatutária promovida unilateralmente pelo banco espanhol em 2018, que ampliou seus poderes dentro da entidade criada por ex-funcionários do Banespa e, segundo os associados, fere a autonomia e os objetivos da organização.
Santander e ex-funcionários do Banespa disputam judicialmente fundo de R$ 12 bilhões
Associação de ex-funcionários do Banespa entra em confronto com o Santander por mudanças no estatuto da Cabesp.
No centro da crise está um fundo de assistência médica avaliado em R$ 12 bilhões, patrimônio construído ao longo de décadas pelos trabalhadores do antigo banco estadual. Com apenas 125 dos 17.612 associados ligados hoje ao Santander, a grande maioria dos beneficiários vê com preocupação o controle crescente exercido pelo banco sobre uma entidade que, historicamente, sempre foi independente e gerida pelos próprios participantes.
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A origem da Cabesp e a relação com o Banespa
De entidade autônoma à interferência externa
Fundada em 1968 pelos funcionários do Banespa, a Cabesp surgiu como uma organização sem fins lucrativos, voltada à assistência médica de seus associados, aposentados e pensionistas. Mesmo durante a existência do banco estatal, a associação sempre operou de forma autônoma, sem vínculos jurídicos com o Banespa.
No entanto, tudo começou a mudar em 2000, quando o Banespa foi privatizado no contexto do programa de desestatização do governo Fernando Henrique Cardoso. O Santander adquiriu o banco e, como parte do acordo, passou a ser patrocinador da Cabesp por um período de cinco anos.
Interesse do Santander cresce após descoberta de fundo bilionário
O envolvimento do Santander na Cabesp ganhou nova dimensão quando a instituição teve ciência de que a associação administrava um fundo de investimentos robusto, formado ao longo de décadas com contribuições dos funcionários. A perspectiva de gestão de um patrimônio dessa magnitude levou o banco a pleitear maior participação nas decisões da entidade, conseguindo inclusive o direito de indicar membros para cargos estratégicos.
A reforma do estatuto de 2018 e a crise entre os associados
Mudanças sem participação dos beneficiários
Em 2018, o Santander conduziu uma reforma no estatuto da Cabesp sem a participação efetiva de seus associados. A alteração permitiu ao banco:
- Indicar dois diretores, incluindo o presidente da entidade;
- Nomear dois conselheiros fiscais e seus respectivos suplentes, mesmo que não fossem associados;
- Tornar-se herdeiro do fundo em caso de extinção da Cabesp, com a promessa de aplicar os recursos “em obras sociais a benefício de seus funcionários”.
O trecho que mais gerou revolta entre os membros da associação foi o que determina:
“Em caso de extinção da Cabesp, o patrimônio remanescente, depois de liquidado seu último compromisso, transferir-se-á ao Banco Santander Brasil S.A.”
Para os associados, essa medida representa uma ameaça direta à natureza beneficente da instituição e coloca em risco o direito à saúde de milhares de aposentados e pensionistas.
A indicação de Narjara Boldorini e nova onda de tensão
A situação escalou em fevereiro de 2025, quando o Santander indicou Narjara Jacqueline Boldorini como suplente do conselho fiscal da Cabesp. A nomeada, no entanto, não é associada à organização — condição obrigatória segundo o estatuto original da entidade.
O caso foi imediatamente contestado por membros do conselho da Cabesp, que alegaram irregularidade na nomeação e usaram o episódio como justificativa para reprovar as contas da entidade relativas a 2024 e o orçamento previsto para 2025.
Em resposta, o Santander entrou com ação judicial contra os conselheiros, alegando que os membros tumultuaram a assembleia geral, realizada em 27 de fevereiro, para impedir a posse da indicada.
Argumentos do Santander

Na ação, o banco afirmou:
“A presente ação, com urgente pedido liminar, tornou-se necessária em razão de descabida tentativa do Conselho Fiscal de, custe o que custar, ainda que em prejuízo à Cabesp e seus associados, fazer valer seu entendimento sobre tema alheio à deliberação.”
A reação dos associados e os temores com o futuro da Cabesp
Preocupação com a sustentabilidade da entidade
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A base de associados da Cabesp se mostra cada vez mais preocupada com a condução da entidade sob influência do Santander. Desde 2018, eles denunciam que:
- Os reajustes dos planos médicos ultrapassaram 150%;
- A rede credenciada de atendimento foi reduzida pela metade;
- O diálogo com os representantes do banco tem sido cada vez mais limitado e impositivo.
Demandas pela retomada do controle associativo
Diante do cenário, os associados passaram a articular movimentos internos e ações judiciais para tentar reverter a reforma do estatuto de 2018. O objetivo é retomar o modelo original da entidade, exclusivamente gerida por seus membros, com decisões tomadas em assembleias e baseadas na coletividade.
“Não aceitamos que uma entidade criada por trabalhadores seja apropriada por um banco que só visa lucro. Nosso patrimônio foi construído com sacrifício e dedicação”, declarou um associado em reunião recente.
Questões legais e possíveis desdobramentos judiciais

Debate sobre herança de fundos de entidades assistenciais
Especialistas em direito previdenciário e associativo avaliam que a cláusula que torna o Santander herdeiro do fundo pode ser questionada judicialmente. Por se tratar de uma organização beneficente, criada por e para seus associados, há dúvidas sobre a legalidade da transferência patrimonial a uma instituição privada com fins lucrativos.
Além disso, há questionamentos sobre:
- A forma como a reforma estatutária foi conduzida;
- A validade da participação de não associados em conselhos;
- A eventual apropriação indevida de recursos voltados à assistência médica.
O tema poderá ganhar repercussão nacional caso chegue aos tribunais superiores, por envolver direitos coletivos, contratos de privatização e proteção de fundos assistenciais.
Imagem: Freepik/Edição: Seu Crédito Digital
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