O endividamento das famílias brasileiras voltou a bater recorde em abril e reforçou um cenário que já preocupa especialistas em crédito e consumo no país. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, a proporção de famílias com algum tipo de dívida chegou a 80,9% no mês, o maior patamar já registrado pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).
Endividamento das famílias bate recorde em abril e inadimplência avança
Endividamento das famílias brasileiras atinge novo recorde em abril, aponta CNC. Veja o que está por trás da alta das dívidas.
O índice havia sido de 80,4% em março. Em abril do ano passado, estava em 77,6%. Trata-se do quarto recorde consecutivo registrado pela pesquisa.
Apesar do aumento do número de famílias endividadas, a inadimplência avançou pouco no período, o que indica que boa parte dos brasileiros ainda consegue manter pagamentos minimamente organizados, mesmo diante de juros elevados e do custo de vida pressionado.
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Endividamento pressiona e inadimplência bate recorde
O que a pesquisa considera como dívida
A Peic leva em consideração diferentes modalidades de crédito e contas parceladas utilizadas pelas famílias brasileiras.
Entre elas estão:
- cartão de crédito;
- cheque especial;
- carnê de loja;
- crédito consignado;
- empréstimo pessoal;
- cheque pré-datado;
- financiamento de veículos;
- financiamento imobiliário.
Na prática, isso significa que o levantamento não mede apenas dívidas em atraso, mas todo tipo de compromisso financeiro assumido pelas famílias.
Por que os brasileiros estão mais endividados
O avanço contínuo do endividamento reflete uma combinação de fatores econômicos que afetam diretamente o orçamento doméstico.
Cartão de crédito segue como principal vilão
O cartão de crédito continua sendo uma das modalidades mais utilizadas pelas famílias para complementar renda e manter o consumo básico.
Com inflação ainda pressionando despesas essenciais, muitos brasileiros passaram a parcelar gastos que antes eram pagos à vista.
Além disso, o rotativo do cartão permanece entre as linhas de crédito mais caras do país.
Juros altos dificultam reorganização financeira
Mesmo com expectativa de cortes graduais na taxa básica de juros, o crédito continua caro no Brasil.
O mercado reduziu recentemente as expectativas de queda mais acelerada da taxa Selic até o fim do ano.
Isso significa que empréstimos, financiamentos e renegociações podem continuar pesando no bolso das famílias por mais tempo.
Renda melhora, mas ainda não acompanha o custo de vida
Embora o mercado de trabalho tenha mostrado melhora nos últimos meses, o ganho de renda não foi suficiente para aliviar totalmente o orçamento doméstico.
Muitas famílias continuam utilizando crédito para equilibrar despesas básicas como alimentação, transporte, aluguel e contas de consumo.
Inadimplência cresce pouco, mas preocupa
Os dados mostram que a parcela de famílias inadimplentes subiu levemente de 29,6% em março para 29,7% em abril.
No mesmo período do ano passado, o índice era de 29,1%.
Apesar da alta discreta, quase três em cada dez famílias brasileiras possuem contas em atraso atualmente.
Metade dos inadimplentes está com atraso superior a 90 dias
Um dado que chama atenção é o tempo prolongado das dívidas atrasadas.
Entre os consumidores inadimplentes:
- 49,5% afirmaram ter débitos vencidos há mais de 90 dias.
Segundo a CNC, o tempo médio de atraso permaneceu em 65,1 dias pelo terceiro mês consecutivo.
Esse comportamento indica relativa estabilização do quadro financeiro das famílias, embora o nível de endividamento continue elevado.
Número de famílias sem condições de pagar ficou estável
Outro indicador acompanhado pela pesquisa mede quantas famílias acreditam não conseguir quitar suas dívidas em atraso.
Esse grupo permaneceu em 12,3% em abril, mesmo índice registrado em março.
Em abril de 2025, o porcentual estava em 12,4%.
Para especialistas, essa estabilidade sugere que parte das famílias ainda consegue negociar débitos ou reorganizar pagamentos antes de um agravamento maior da situação financeira.
Endividamento cresce entre pobres, classe média e ricos
O avanço das dívidas não ficou concentrado apenas nas famílias de baixa renda.
Os dados mostram crescimento disseminado entre praticamente todas as faixas salariais.
Famílias de baixa renda seguem mais pressionadas
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Entre famílias que recebem até três salários mínimos por mês:
- o endividamento passou de 82,9% para 83,6%.
Esse grupo continua sendo o mais vulnerável à pressão dos juros e ao aumento do custo de vida.
Além disso, a inadimplência permaneceu em nível elevado: 38,2%.
Classe média também sente impacto
Nas famílias com renda entre três e cinco salários mínimos:
- o endividamento subiu de 82,6% para 82,8%.
Já entre quem recebe de cinco a dez salários mínimos:
- o índice avançou de 79,2% para 80,1%.
O dado reforça que o uso do crédito deixou de ser apenas mecanismo de sobrevivência financeira e passou também a funcionar como complemento recorrente de orçamento.
Alta renda também ampliou uso do crédito
Até mesmo famílias com renda superior a 10 salários mínimos registraram aumento relevante no endividamento.
Nesse grupo:
- o porcentual de endividados passou de 69,9% para 70,8%;
- a inadimplência avançou de 14,7% para 15%.
Embora tenham maior capacidade financeira, essas famílias também convivem com financiamentos, parcelamentos e crédito mais caro.
O que pode acontecer nos próximos meses
A tendência para o restante do ano ainda depende principalmente do comportamento dos juros e da inflação.
Segundo o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, Fabio Bentes, o cenário internacional aumentou as incertezas econômicas e reduziu as expectativas de cortes mais rápidos na Selic.
Se os juros permanecerem elevados por mais tempo, o Brasil pode continuar convivendo com níveis historicamente altos de endividamento.
Isso tende a impactar diretamente:
- consumo das famílias;
- capacidade de poupança;
- acesso ao crédito;
- renegociação de dívidas;
- crescimento econômico.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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