O dólar americano vive um dos momentos mais delicados de sua trajetória recente. Após encerrar o primeiro semestre com sua pior performance desde 1973, a moeda norte-americana segue em baixa diante de uma cesta de moedas globais, refletindo um cenário econômico instável nos Estados Unidos e incertezas políticas após iniciativas do ex-presidente Donald Trump.
Moedas globais ganham força e dólar enfraquece após ação de Trump
Dólar se enfraquece no cenário global, enquanto euro, iene e libra se valorizam após medidas de Trump.
A desvalorização do dólar se intensificou mesmo após a aprovação de medidas de estímulo fiscal, que, embora tenham potencial de aquecer a economia, aumentam o déficit público, pressionando ainda mais a moeda. No centro dessa reviravolta está a perda de confiança dos mercados nas políticas econômicas americanas e a resposta tímida do Federal Reserve às pressões inflacionárias.
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Índice DXY confirma tendência de enfraquecimento

O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a seis das principais moedas do mundo, encerrou a sessão em queda de 0,06%, aos 96,819 pontos. Essa leve retração se soma à queda acumulada de 10,7% registrada no primeiro semestre de 2025, demonstrando o recuo estrutural da moeda americana em um ambiente de desaceleração econômica e pressões inflacionárias.
Especialistas apontam que, embora o dólar ainda goze de status como reserva global, sua força tem sido minada por uma combinação de fatores internos e externos, desde o aumento das tarifas de importação até a instabilidade na política monetária do país.
Moedas asiáticas e europeias ganham espaço
Na comparação direta com as principais moedas, o dólar também recuou. Frente ao iene japonês, caiu para 143,79 ienes. Já contra o euro, manteve-se estável, com a moeda europeia sendo negociada a US$ 1,1788. A libra esterlina, por sua vez, teve desempenho positivo e subiu para US$ 1,3740, sustentada por dados sólidos da economia do Reino Unido.
Esse fortalecimento das moedas internacionais não acontece isoladamente: reflete uma migração dos investidores para ativos mais estáveis, em meio à desconfiança sobre o compromisso do Fed com o controle inflacionário e os rumos das finanças públicas americanas.
Ação de Trump gera efeitos contraditórios
O dólar chegou a reagir positivamente à aprovação do pacote fiscal de Trump, voltado a impostos e gastos públicos. A medida, que mira a reativação econômica, trouxe um alívio momentâneo aos mercados. No entanto, o entusiasmo durou pouco.
Especialistas alertam que os efeitos positivos do estímulo devem ser ofuscados pelo aumento do déficit fiscal, o que historicamente tende a pressionar o valor da moeda americana. “A medida impulsiona o crescimento no curto prazo, mas mina a confiança do mercado na sustentabilidade das contas públicas”, analisou Kit Juckes, do Société Générale.
Payroll e dados econômicos trazem pouco alívio
Mesmo com a divulgação de dados robustos sobre o mercado de trabalho e da atividade industrial, a moeda americana não conseguiu reverter a tendência de queda. Relatórios do PMI industrial indicaram que o impacto das tarifas impostas foi mais contido do que o esperado, mas não o suficiente para restaurar a força do dólar.
Analistas acreditam que a moeda continuará sob pressão nas próximas semanas. “O dólar enfrenta ameaças sérias: desaceleração da economia, inflação crescente e um Federal Reserve que pode ser remodelado politicamente”, disse Juckes.
Euro e BCE atentos ao câmbio
O euro, que recentemente atingiu a maior cotação frente ao dólar em mais de três anos, também perdeu fôlego. A valorização excessiva da moeda preocupa o Banco Central Europeu (BCE), que já admite a possibilidade de novos cortes nos juros caso o euro continue em ascensão.
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Martins Kazaks, presidente do Banco Central da Letônia e membro do BCE, afirmou que ajustes adicionais nos juros seriam pequenos, mas que a valorização contínua da moeda pode alterar esse cenário. O foco agora é manter o equilíbrio para não comprometer a competitividade das exportações da zona do euro.
Incertezas sobre o Fed corroem confiança

Outro fator que pressiona o dólar é a crescente desconfiança quanto à atuação do Federal Reserve. Mudanças recentes na composição da diretoria do banco central norte-americano levantaram dúvidas sobre o compromisso da instituição com a meta de inflação baixa e estabilidade monetária.
Se o Fed sinalizar uma postura mais flexível frente à inflação — seja por mudanças internas ou por pressão política — o dólar pode continuar se desvalorizando, reforçando o movimento de diversificação cambial dos investidores globais.
O que esperar do dólar no segundo semestre
Com tantas variáveis em jogo, o mercado cambial segue volátil. A tendência de enfraquecimento do dólar pode persistir, principalmente se:
- O Fed mantiver uma política ambígua frente à inflação;
- O Congresso americano continuar aprovando medidas fiscais expansionistas;
- As moedas globais seguirem fortalecidas com dados econômicos positivos;
- Persistirem os impasses geopolíticos e comerciais.
Em meio a esse cenário, muitos investidores estão se voltando para moedas mais estáveis e ativos considerados seguros, como ouro, títulos europeus e moedas asiáticas.
