O projeto Drex, moeda digital do Banco Central do Brasil, foi inicialmente apresentado como uma revolução no sistema financeiro nacional. Baseado em blockchain permissionada, contratos inteligentes e integração com o Pix, o Drex prometia inclusão financeira, transparência e inovação tecnológica.
Mercado reage: Drex sem blockchain frustra expectativas após recuo do Banco Central
Banco Central muda plano do Drex, retira blockchain e adia lançamento para 2026, frustrando mercado e gerando críticas sobre transparência.
No entanto, uma guinada estratégica anunciada em agosto de 2025 alterou profundamente o projeto. Agora, o Drex deixa de ser uma Central Bank Digital Currency (CBDC) para o consumidor e passa a ser tratado como uma infraestrutura de bastidor, sem a tecnologia blockchain em sua primeira versão.
A entrega foi adiada para 2026, e o mercado financeiro reagiu com frustração e críticas severas.
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O que é o Drex e por que foi criado?

A promessa inicial do Banco Central
Anunciado oficialmente em 2023, o Drex nasceu com a missão de ser a moeda digital brasileira oficial, alinhada ao movimento global de digitalização das moedas nacionais. O Banco Central prometia um ambiente financeiro mais eficiente, seguro e moderno, com:
- Tokenização de ativos;
- Contratos inteligentes;
- Baixo custo de transações;
- Integração com o ecossistema do Pix.
A proposta seguia tendências de países como China, Suécia e Bahamas, que já testavam ou adotavam suas próprias moedas digitais. O Drex, então, foi visto como um passo estratégico para o Brasil se manter competitivo no cenário global de finanças digitais.
Da promessa à frustração: o novo modelo
Em 2025, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, anunciou que o Drex, ao contrário do que foi projetado, não usará blockchain em sua primeira versão.
Em vez disso, será apenas uma plataforma administrativa para reconciliação de gravames e tokenização de ativos, sem uso direto por pessoas físicas ou jurídicas em transações cotidianas.
O projeto deixou de ser uma moeda digital no sentido pleno e passou a ser descrito como uma infraestrutura operacional — uma decisão que alterou profundamente sua essência.
As principais mudanças no projeto Drex
O que muda na prática?
Abandono do blockchain
A decisão mais controversa foi a retirada do blockchain, tecnologia base para a maioria das moedas digitais emitidas por bancos centrais.
A justificativa foi a complexidade técnica e preocupações com privacidade. O BC argumenta que a blockchain não garante confidencialidade adequada para certas operações sensíveis do sistema financeiro.
Adiamento para 2026
O cronograma do projeto, antes previsto para 2024, agora foi adiado para algum momento de 2026. A falta de datas claras aumentou a incerteza no mercado, que esperava a conclusão dos testes ainda em 2025.
Redefinição como infraestrutura de bastidor
O Drex passa a ser apenas uma infraestrutura de back-end, voltada para instituições financeiras, e não mais um meio de pagamento digital para o consumidor final. O projeto agora foca em reconciliação de ativos e transações entre instituições autorizadas, sem envolvimento direto do cidadão comum.
Reação do mercado financeiro
Desapontamento generalizado
A retirada do blockchain e o adiamento da entrega foram recebidos com frustração e críticas por parte de analistas, investidores e desenvolvedores de tecnologia financeira. O Drex, que prometia transparência, descentralização e inovação, agora é visto como um projeto burocrático e ineficaz.
H3: Preocupações com controle estatal
O código-fonte do Drex, disponibilizado no GitHub em 2023, incluía funcionalidades como congelamento de contas e alteração de saldos por parte da autoridade monetária. Mesmo antes da retirada da blockchain, esses comandos já levantavam alertas sobre o potencial de vigilância estatal e interferência nas finanças pessoais dos cidadãos.
Falta de diálogo público
A ausência de debates públicos, audiências ou consultas à sociedade civil no desenvolvimento do Drex também tem sido criticada.
Diferente de países como a Suécia, que promovem transparência e participação no processo de criação de uma CBDC, o Brasil tem adotado um modelo centralizado e pouco acessível.
Pressão política e surgimento da PEC do Drex
Reação no Congresso Nacional
Diante das incertezas e do crescente controle estatal embutido no Drex, a deputada federal Júlia Zanatta apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que exige aprovação do Congresso Nacional para a criação e circulação de qualquer moeda digital pública.
Objetivos da PEC
- Garantir controle democrático sobre moedas digitais;
- Evitar o uso do Drex como ferramenta de vigilância;
- Estabelecer transparência e responsabilidade institucional;
- Promover debates públicos e técnicos sobre o projeto.
A PEC tem ganhado apoio entre parlamentares de diferentes espectros políticos, principalmente pela preocupação com a privacidade e a liberdade econômica dos brasileiros.
O setor de criptoativos cobra regulação
Falta de foco em regulação do mercado cripto
Enquanto o Banco Central dedica esforços ao Drex, o mercado de criptoativos segue em situação de incerteza regulatória. A Lei 14.478/22, que estabelece diretrizes para a atuação das Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs), ainda não foi implementada de forma eficaz.
Principais lacunas regulatórias
- Licenciamento de corretoras de criptomoedas pelo Banco Central está atrasado;
- Falta de regras sobre segregação patrimonial, que protege ativos de clientes;
- “Travel rule” internacional ainda não adotada, dificultando a cooperação global;
- Insegurança jurídica para empresas e investidores, que enfrentam um vácuo normativo.
O descompasso entre o avanço do Drex e a estagnação da regulação dos criptoativos reforça a sensação de prioridades desconectadas com a realidade do mercado.
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O que países estrangeiros estão fazendo?
Lições ignoradas pelo Banco Central
China
A China adotou sua CBDC com forte foco em controle estatal, mas comunicou claramente seus objetivos e implementou a moeda digital com rapidez e escala.
Bahamas
Nas Bahamas, a moeda digital tem foco em inclusão financeira, especialmente em comunidades isoladas. O país apostou em uma CBDC descentralizada com acesso facilitado, inclusive offline.
Suécia
A Suécia promoveu amplo debate público e testes práticos antes de avançar com sua moeda digital, buscando o equilíbrio entre privacidade e eficiência.
União Europeia
O bloco europeu priorizou a regulação de criptoativos antes da criação de uma CBDC, construindo um ecossistema seguro e estável para inovação.
E o Brasil?
No Brasil, o Drex parece caminhar em direção oposta: centralização, pouco diálogo e mudanças bruscas no escopo, sem coordenação clara com o setor cripto.
O futuro incerto do Drex

Dúvidas que permanecem
Com o abandono do blockchain, a redefinição do projeto e a ausência de cronograma claro, o Drex parece ter perdido sua identidade. A promessa de inovação e protagonismo digital se transformou em um projeto obscuro, de uso restrito e pouca relevância prática no curto prazo.
Perguntas que seguem sem resposta
- O Drex terá algum uso direto para o consumidor?
- Como o Banco Central garantirá a privacidade dos dados dos usuários?
- Por que o blockchain foi descartado, mesmo sendo tendência global?
- Quando o projeto terá uma versão final funcional e acessível?
Impacto na credibilidade institucional
As mudanças repentinas e a falta de comunicação efetiva comprometem a confiança do mercado e da sociedade no Banco Central. Sem transparência e com decisões unilaterais, o Drex corre o risco de ser lembrado não como um marco, mas como uma oportunidade perdida.
Considerações finais
O Drex, que poderia colocar o Brasil na vanguarda da revolução digital monetária, se transformou em um projeto tecnicamente limitado, politicamente contestado e regulatoriamente desconexo.
A retirada do blockchain, o adiamento da entrega e a falta de diálogo aberto com a sociedade indicam que o Banco Central ainda precisa ajustar sua estratégia para atender às demandas reais do mercado financeiro e da população.
