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Conta de luz pode sentir efeitos do El Niño; veja o que está por trás do risco

El Niño 2026 pode afetar chuvas, geração e consumo de energia. Entenda quando o fenômeno pode aumentar a conta de luz no Brasil.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes··15 min de leitura
Conta de luz pode sentir efeitos do El Niño; veja o que está por trás do risco

O avanço do El Niño em 2026 coloca o setor elétrico brasileiro diante de um cenário que exige atenção. O fenômeno climático já foi confirmado por órgãos de monitoramento e as projeções apontam para a possibilidade de persistência até o início de 2027, com impactos diferentes entre as regiões do país.

Para quem paga a conta de luz, a dúvida é inevitável: o El Niño pode deixar a energia elétrica mais cara?

A resposta é: pode contribuir para uma conta maior, mas não existe uma relação automática entre El Niño e aumento da tarifa.

O fenômeno não determina diretamente o valor cobrado pela distribuidora. O que ele pode fazer é modificar as condições de chuva, temperatura, vazões dos rios e demanda por eletricidade. Essas mudanças alteram o funcionamento do sistema de geração e podem aumentar ou reduzir os custos necessários para garantir o abastecimento.

Em junho de 2026, órgãos como INPE, INMET, Funceme e Censipam já apontavam a configuração do El Niño. O primeiro boletim do Painel El Niño 2026–2027, que reúne INPE, INMET, Cemaden, ANA, SGB e Defesa Civil, indicou probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027.

A NOAA, por sua vez, informou em julho que o El Niño continuava e apresentava 97% de probabilidade de persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte. O órgão também registrava, naquele momento, anomalia de 1,2°C no índice Niño 3.4.

Esse cenário não significa que a conta de luz necessariamente ficará mais cara. O impacto dependerá principalmente de como o clima afetará os reservatórios, a geração renovável, a necessidade de termelétricas e o consumo de eletricidade.

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Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

Por que o El Niño interfere no setor elétrico

O Brasil possui uma matriz elétrica fortemente baseada em fontes renováveis, com destaque para as hidrelétricas. Isso faz com que as condições climáticas tenham importância direta para a operação do sistema.

Quando chove nas bacias hidrográficas importantes para a geração, os reservatórios podem receber mais água. Quando ocorre uma sequência de chuvas abaixo do esperado, a disponibilidade hídrica pode diminuir.

É nesse ponto que o El Niño ganha importância.

O fenômeno altera os padrões de circulação atmosférica e distribuição das chuvas. No Brasil, os efeitos não são iguais em todas as regiões.

O INMET explica que, em geral, o El Niño aumenta o risco de redução das chuvas em partes do Norte e Nordeste e favorece volumes elevados de precipitação no Sul.

O Painel El Niño 2026–2027 também identificou, para o trimestre de julho a setembro de 2026, maior probabilidade de chuva acima da média em áreas do Sul e de precipitação abaixo da média em grande parte do centro-norte do Brasil. Ao mesmo tempo, a previsão aponta temperaturas acima da média em grande parte do território nacional.

Para o setor elétrico, portanto, não basta saber se o El Niño está presente. É necessário saber onde está chovendo, quanto está chovendo, em quais bacias e como os reservatórios estão respondendo.

El Niño vai deixar a conta de luz mais cara?

Não necessariamente.

Essa é a principal diferença entre uma previsão climática e uma previsão tarifária.

A presença do El Niño não gera automaticamente uma bandeira amarela ou vermelha. As bandeiras tarifárias são definidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) de acordo com as condições de geração e os custos variáveis esperados para o Sistema Interligado Nacional.

A agência explica que a bandeira verde não representa custo adicional, enquanto as bandeiras amarela e vermelha sinalizam condições de geração menos favoráveis e acrescentam valores proporcionais ao consumo.

Portanto, o caminho até a conta de luz é indireto:

El Niño → mudanças no clima → alterações em chuva, vazões e temperatura → mudanças na geração e no consumo → necessidade maior ou menor de determinadas fontes → alteração dos custos do sistema → possível reflexo nas bandeiras ou nos processos tarifários.

Se as condições hidrológicas forem favoráveis, o efeito pode ser pequeno ou até positivo para determinados períodos.

Se ocorrer uma combinação de pouca chuva nas bacias relevantes, calor intenso e aumento da demanda, a pressão sobre o sistema pode ser maior.

O calor também pode pressionar a conta

A chuva não é o único fator importante.

Temperaturas elevadas costumam aumentar o uso de equipamentos de refrigeração, principalmente aparelhos de ar-condicionado e ventiladores.

Em períodos de calor intenso, milhares ou milhões de consumidores podem aumentar o consumo praticamente ao mesmo tempo.

Isso eleva a carga do sistema e pode criar horários críticos de demanda.

O cenário previsto para o El Niño 2026–2027 inclui temperaturas acima da média em grande parte do Brasil. O Painel El Niño aponta maior potencial para ondas de calor na faixa central do país durante o segundo semestre de 2026.

O INPE também alerta que o fenômeno pode favorecer temperaturas mais elevadas, especialmente no Sudeste e Centro-Oeste, dependendo da intensidade e da interação com outros padrões atmosféricos.

Assim, mesmo que os reservatórios estejam em uma situação relativamente confortável, uma onda de calor pode elevar a demanda por eletricidade.

O papel das usinas termelétricas

Quando a geração hidrelétrica não é suficiente ou quando o operador precisa preservar os reservatórios, as termelétricas podem assumir uma parcela maior da geração.

O problema é que o custo variável de muitas usinas térmicas é superior ao de outras fontes.

Isso não significa que toda vez que uma térmica for acionada a conta de luz aumentará imediatamente. O sistema elétrico possui mecanismos de planejamento e comercialização que distribuem esses custos conforme as regras do setor.

Mas, em determinadas condições, o despacho de geração mais cara aumenta os custos de operação.

A própria ANEEL explica que as bandeiras tarifárias consideram fatores ligados às condições de geração, incluindo a disponibilidade hídrica e o acionamento de fontes mais caras, como as termelétricas.

Por isso, uma sequência de calor forte combinada com condições hidrológicas desfavoráveis pode ser mais preocupante para o consumidor do que o El Niño isoladamente.

O que são as bandeiras tarifárias

As bandeiras funcionam como um sinal mais rápido dos custos variáveis de geração.

Antes da criação do sistema, mudanças nos custos de geração podiam aparecer de maneira mais defasada nos reajustes tarifários.

Com as bandeiras, o consumidor passa a receber um sinal mensal sobre as condições de geração.

A ANEEL explica que a bandeira amarela representa condições menos favoráveis e atualmente corresponde a um adicional de R$ 0,01885 por kWh, enquanto a vermelha patamar 1 e a vermelha patamar 2 possuem adicionais maiores.

Como exemplo, considerando apenas o adicional da bandeira amarela, um consumo de 200 kWh no mês representa R$ 3,77 de acréscimo antes dos demais componentes, tributos e eventuais particularidades da fatura.

É importante não confundir esse adicional com a tarifa inteira.

A conta de luz também envolve custos de geração, transmissão, distribuição e encargos, além de tributos e outros itens.

Como está a bandeira tarifária em 2026

O cenário de 2026 já mostra como as condições de geração podem mudar ao longo do ano.

Em julho, a ANEEL manteve a bandeira amarela, com adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos. Segundo a agência, a decisão refletia condições menos favoráveis de geração típicas do período seco, com redução dos níveis dos reservatórios e necessidade de acionamento de termelétricas mais caras.

Isso é importante porque mostra que a definição da bandeira depende de uma avaliação operacional e não simplesmente da existência de um fenômeno climático.

Para agosto, o consumidor deve acompanhar o anúncio oficial da ANEEL, já que a bandeira é definida mensalmente.

Portanto, não é correto afirmar antecipadamente que o El Niño colocará a bandeira vermelha ou amarela durante todo o segundo semestre.

O El Niño pode ajudar algumas regiões do Brasil

Um dos pontos mais importantes para entender o fenômeno é que ele não significa seca generalizada em todo o país.

A distribuição das chuvas tende a ser desigual.

No Sul, por exemplo, o El Niño costuma favorecer períodos de precipitação acima da média. O INMET aponta aumento da frequência e do volume das chuvas na região durante episódios do fenômeno.

Para o setor elétrico, mais chuva pode significar maior disponibilidade hídrica em determinadas bacias.

Isso não quer dizer que toda chuva seja automaticamente boa para a geração.

Chuvas muito intensas podem provocar enchentes, deslizamentos, interrupções de infraestrutura e danos a redes de transmissão e distribuição.

Além disso, a localização da chuva importa. Uma grande precipitação em uma área que não contribui significativamente para os reservatórios estratégicos do sistema pode ter efeito limitado sobre a segurança energética nacional.

Norte e Nordeste exigem atenção especial

O outro lado do cenário está nas regiões Norte e Nordeste.

O INPE aponta que o El Niño pode provocar impactos de seca no norte e leste da Amazônia e no norte do Nordeste.

O boletim climático para o Nordeste também indicou, entre julho e setembro de 2026, maior probabilidade de chuvas abaixo da média em áreas da região, acompanhadas de temperaturas acima do normal.

Para a geração hidrelétrica, a questão depende das bacias específicas e da evolução dos níveis dos reservatórios.

A situação também pode afetar outros segmentos do sistema. Temperaturas elevadas aumentam a demanda e períodos secos podem elevar o risco de queimadas, que representam ameaça para linhas e outros equipamentos.

O Painel El Niño 2026–2027 destaca justamente a necessidade de monitoramento das condições meteorológicas e hidrológicas em áreas como os rios Madeira, Tocantins, Xingu e São Francisco.

E a energia solar e eólica?

Seria um erro analisar os efeitos do El Niño apenas pela geração hidrelétrica.

A matriz brasileira também conta com forte participação de fontes eólica e solar, e o comportamento dessas fontes depende de condições meteorológicas próprias.

No caso da energia solar, a quantidade de radiação disponível é determinante para a produção. Dias com maior presença de nuvens podem reduzir a geração fotovoltaica, enquanto períodos de céu aberto podem favorecer a produção.

Entretanto, temperaturas muito altas também podem reduzir a eficiência dos módulos fotovoltaicos. Por isso, mais calor não significa necessariamente mais energia solar.

Na geração eólica, por sua vez, a relação com o El Niño é mais complexa.

O aquecimento do Pacífico não permite concluir automaticamente que haverá menos vento nos parques eólicos brasileiros.

O comportamento dos ventos depende da circulação atmosférica regional e de fenômenos que atuam em diferentes escalas.

Por isso, para comercializadoras e operadores, o acompanhamento climático precisa ser regionalizado.

O risco para as linhas de transmissão

A discussão sobre o preço da energia não termina na geração.

A eletricidade precisa ser transportada das usinas até os centros consumidores.

Eventos climáticos extremos podem afetar linhas de transmissão, subestações, transformadores e redes de distribuição.

Chuvas intensas, enchentes, ventos fortes, descargas atmosféricas, queimadas e quedas de árvores podem provocar interrupções e exigir reparos emergenciais.

No caso do El Niño 2026–2027, o próprio INPE aponta maior risco de eventos extremos no Sul, enquanto outras regiões podem enfrentar calor, baixa umidade e maior risco de incêndios.

Isso cria um segundo tipo de risco para o setor.

Mesmo que exista energia suficiente para atender a demanda, uma restrição de transmissão pode impedir que a eletricidade chegue ao local necessário na quantidade adequada.

O que é o PLD e por que ele importa

Outro indicador importante é o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD).

O PLD está relacionado ao preço da energia no mercado de curto prazo e é influenciado pelas condições de operação e pelas necessidades de geração do sistema.

Ele não é sinônimo da tarifa paga por uma família.

Essa distinção é fundamental.

Um aumento do PLD não significa que a conta de luz residencial subirá automaticamente no mesmo mês na mesma proporção.

O consumidor do mercado regulado está sujeito à estrutura tarifária definida pela ANEEL para sua distribuidora, enquanto consumidores livres possuem contratos e regras próprias de comercialização.

Ainda assim, o comportamento dos preços de curto prazo é uma variável importante para agentes do setor e pode influenciar decisões de contratação, exposição e custos.

Por que uma conta de luz barata não depende apenas do PLD

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É possível ter um PLD relativamente baixo e, mesmo assim, existir pressão sobre outros custos do setor.

A conta final reúne diferentes componentes.

A ANEEL disponibiliza ferramentas que mostram a composição da tarifa residencial e permitem identificar itens relacionados à geração, transmissão, distribuição e encargos.

Além disso, existem processos de reajuste e revisão tarifária.

A agência esclarece que esses processos seguem datas previstas nos contratos de concessão e precisam ser aprovados pela diretoria da ANEEL antes da publicação das tarifas.

Isso significa que uma mudança climática não aparece necessariamente como um aumento imediato e isolado na conta.

Ela pode influenciar custos que posteriormente serão considerados nos mecanismos regulatórios aplicáveis.

O mercado livre sente o El Niño de outra maneira

Os efeitos também podem ser diferentes para empresas que compram energia no mercado livre.

Uma indústria que possui contrato de fornecimento com determinadas condições pode estar mais protegida contra oscilações de curto prazo.

Por outro lado, se consumir acima do volume contratado ou ficar exposta ao mercado de curto prazo em determinados momentos, poderá enfrentar custos maiores.

A gestão do risco climático, nesse ambiente, pode envolver contratação antecipada, diversificação de fornecedores, instrumentos de proteção e acompanhamento das previsões de geração.

Para grandes consumidores, portanto, a previsão meteorológica não é apenas uma informação sobre o tempo.

Ela pode se transformar em uma variável financeira.

O que pode evitar uma alta maior na conta

O sistema elétrico brasileiro possui instrumentos para lidar com cenários de maior incerteza.

O planejamento permite acompanhar reservatórios, projeções de afluências, carga, disponibilidade de usinas e condições de transmissão.

Quanto melhor forem essas previsões, maior tende a ser a capacidade de antecipar situações críticas.

A geração renovável também ajuda a diversificar a matriz.

Em determinados momentos, a produção eólica e solar pode reduzir a necessidade de acionamento de fontes mais caras.

Por outro lado, essas fontes possuem características variáveis e precisam ser integradas a um sistema capaz de equilibrar geração e consumo.

A combinação entre hidrelétricas, térmicas, eólicas, solares, armazenamento, transmissão e gestão da demanda é que determina a segurança do sistema.

O consumidor pode fazer algo para reduzir o impacto?

Sim.

O consumidor residencial não controla o nível dos reservatórios ou o despacho das usinas, mas pode reduzir sua própria exposição a períodos de consumo elevado.

O principal ponto é o ar-condicionado.

Em períodos de calor intenso, pequenas mudanças na temperatura programada e no tempo de funcionamento podem fazer diferença no consumo mensal.

Também vale evitar o uso simultâneo de equipamentos de alto consumo quando não for necessário.

Geladeiras, freezers, chuveiros elétricos, secadoras, fornos elétricos e aparelhos de climatização podem representar parcela relevante do consumo doméstico, dependendo dos hábitos de cada família.

A recomendação mais importante é observar a etiqueta de eficiência energética na hora de comprar um aparelho.

Em períodos de bandeira tarifária mais cara, reduzir desperdícios também ajuda diretamente a limitar o adicional pago pelo consumidor, que é proporcional ao consumo. A ANEEL destaca justamente essa função de sinalização das bandeiras.

El Niño significa apagão no Brasil?

Não.

A existência de um El Niño forte não significa que haverá apagões generalizados.

A segurança do fornecimento depende de uma série de fatores, incluindo capacidade instalada, disponibilidade das usinas, transmissão, reservatórios, previsão de carga e decisões operativas.

O clima pode aumentar determinados riscos, mas não permite prever sozinho uma interrupção generalizada do sistema.

É importante fazer essa distinção porque períodos de calor, seca ou chuva extrema podem produzir problemas regionais sem necessariamente representar uma crise nacional de abastecimento.

O que acompanhar nos próximos meses

Para entender se o El Niño realmente terá impacto sobre a conta de luz, o consumidor deve observar alguns indicadores.

O primeiro é a bandeira tarifária divulgada pela ANEEL.

Depois, é importante acompanhar as condições dos reservatórios e das afluências, além das projeções de demanda e geração.

As previsões meteorológicas também são relevantes, principalmente para as bacias que possuem peso importante na geração hidrelétrica.

O Painel El Niño 2026–2027, formado por instituições como INPE, INMET, ANA e Cemaden, é uma das referências oficiais para acompanhar a evolução climática e seus potenciais impactos no país.

A própria ANEEL também anunciou para agosto de 2026 um evento dedicado ao El Niño e aos impactos no setor elétrico brasileiro, mostrando que o tema entrou de forma explícita na agenda de acompanhamento do setor.

O cenário de 2026 pode se repetir em 2027?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Ainda é cedo para afirmar como o fenômeno se comportará durante todo o próximo ano.

As projeções disponíveis indicam alta probabilidade de persistência do El Niño até o início de 2027, mas previsões climáticas de longo prazo possuem incertezas e são atualizadas conforme novos dados são incorporados.

A NOAA informou em julho que o fenômeno deveria continuar se fortalecendo até o fim de 2026 antes de perder força posteriormente.

Um modelo experimental do laboratório GFDL/NOAA chegou a projetar um episódio potencialmente muito forte, mas o próprio sistema de previsão trabalha com diferentes cenários e reconhece a influência da variabilidade climática sobre a intensidade final.

Por isso, não é recomendável transformar uma projeção climática em uma previsão definitiva para a tarifa de energia de 2027.

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