A aposentadoria continua sendo uma fonte de renda e proteção social, mas deixou de representar o encerramento obrigatório da vida profissional. Um número crescente de brasileiros com mais de 60 anos está abrindo negócios, prestando serviços e transformando a experiência acumulada em uma nova carreira.
Dados do Global Entrepreneurship Monitor, o GEM 2025, revelam que 62,8% dos empreendedores de 65 a 74 anos começaram um negócio porque identificaram uma oportunidade de mercado. Outros 32,5% afirmaram ter empreendido por necessidade.
É a primeira vez que essa faixa etária aparece separadamente na pesquisa brasileira, realizada pelo Sebrae em parceria com a Associação Nacional de Estudos de Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas, a Anegepe.
O resultado indica uma mudança relevante, mas exige cuidado na interpretação. Os números não comprovam que idosos estejam cancelando ou desistindo da aposentadoria. Na maioria dos casos, o aposentado pode continuar recebendo o benefício e exercer uma atividade profissional ao mesmo tempo.
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O que está levando pessoas com mais de 65 anos a empreender?

A motivação predominante entre os empreendedores de 65 a 74 anos é a identificação de uma oportunidade. Isso ocorre quando a pessoa percebe uma demanda do mercado e acredita que pode atendê-la com um produto ou serviço.
É diferente de empreender por necessidade, situação em que alguém começa a trabalhar por conta própria principalmente porque não encontrou emprego ou precisa aumentar a renda familiar.
Segundo o GEM 2025, para cada grupo de aproximadamente 190 empreendedores entre 65 e 74 anos que iniciaram um negócio por oportunidade, cerca de 100 fizeram o mesmo por necessidade.
A experiência profissional ajuda a explicar parte desse comportamento. Depois de décadas trabalhando em determinado setor, muitas pessoas conhecem fornecedores, clientes, dificuldades comuns e serviços que ainda são pouco oferecidos.
Um profissional aposentado da área contábil, por exemplo, pode começar a orientar pequenos comerciantes. Uma professora pode oferecer aulas particulares, enquanto alguém que trabalhou com alimentação pode passar a produzir refeições, doces ou itens sob encomenda.
O comportamento muda conforme a idade
O levantamento mostra que o empreendedorismo sênior não é igual em todas as faixas etárias.
Entre as pessoas de 55 a 64 anos, a necessidade ainda aparece como a principal motivação. Nesse grupo, 53,3% disseram ter começado um negócio por necessidade, enquanto 42,3% identificaram uma oportunidade.
Já entre os empreendedores de 65 a 74 anos, a situação se inverte: 62,8% apontam a oportunidade e 32,5% mencionam a necessidade.
Uma possível explicação é que parte das pessoas mais velhas já possui aposentadoria ou outra fonte de renda, o que permite selecionar melhor o tipo de atividade. Trata-se, porém, de uma interpretação possível dos dados, e não de uma conclusão definitiva da pesquisa.
Há também idosos que continuam trabalhando porque o benefício previdenciário não cobre todas as despesas. Planos de saúde, medicamentos, alimentação e moradia podem consumir uma parcela relevante da renda familiar.
Idosos estão realmente abandonando a aposentadoria?
Não é correto afirmar que os brasileiros estão abandonando a aposentadoria de forma generalizada. O que está acontecendo é a expansão da participação de pessoas idosas no mercado de trabalho e no empreendedorismo.
Em grande parte das aposentadorias concedidas pelo INSS, o beneficiário pode continuar trabalhando, abrir uma empresa ou se formalizar como Microempreendedor Individual sem perder o pagamento mensal.
A pessoa continua aposentada e passa a ter também uma renda profissional. Portanto, o cenário mais comum é a combinação entre aposentadoria e trabalho, e não a troca de uma condição pela outra.
Existem exceções importantes. Quem recebe aposentadoria por incapacidade permanente, anteriormente chamada de aposentadoria por invalidez, não pode retornar normalmente ao trabalho. O retorno indica recuperação da capacidade laboral e pode levar ao encerramento do benefício.
A aposentadoria especial também exige atenção. O beneficiário não pode permanecer ou voltar à atividade que provocou a exposição prejudicial à saúde utilizada para conceder o benefício. Ele pode trabalhar em outra função, desde que não continue exposto ao mesmo risco.
Aposentado pode abrir MEI?
Sim. Quem recebe aposentadoria por idade ou por tempo de contribuição pode se formalizar como MEI, desde que a atividade exercida esteja entre as ocupações permitidas e os demais requisitos sejam cumpridos.
A formalização não cancela automaticamente essas aposentadorias. O mesmo vale, em regra, para quem recebe pensão por morte.
O MEI é uma forma simplificada de manter um pequeno negócio regular. Ele permite obter CNPJ, emitir nota fiscal, abrir conta empresarial e pagar tributos por meio de uma guia mensal.
Antes da formalização, o aposentado deve verificar:
- se a atividade está autorizada para o MEI;
- se o faturamento ficará dentro do limite anual;
- se não participa como sócio ou administrador de outra empresa;
- se o benefício recebido permite o exercício de atividade remunerada;
- se a prefeitura exige licença ou autorização;
- se a atividade pode ser realizada no endereço escolhido.
O Portal do Empreendedor é o único canal oficial de formalização. A abertura do MEI é gratuita, embora exista o pagamento mensal do Documento de Arrecadação do Simples Nacional, o DAS.
O aposentado que trabalha volta a contribuir para o INSS?
Sim. Quando o aposentado exerce uma atividade remunerada sujeita ao Regime Geral de Previdência Social, ele volta a contribuir para o INSS.
No caso do MEI, a contribuição previdenciária está incluída no DAS. Quem trabalha com carteira assinada tem o desconto efetuado no salário, assim como os demais empregados.
Essas novas contribuições não geram uma segunda aposentadoria nem aumentam automaticamente o valor do benefício que já foi concedido.
De acordo com o INSS, o aposentado que continua trabalhando mantém acesso limitado a determinadas prestações previdenciárias, como salário-família e salário-maternidade, quando os requisitos são cumpridos.
Brasil já possui milhões de empreendedores com mais de 60 anos
O Brasil soma cerca de 4,5 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais, segundo dados divulgados pelo Sebrae. O contingente aumentou 58,6% em uma década.
Essas pessoas fazem parte da chamada economia prateada. A expressão reúne atividades, produtos e serviços relacionados à população madura, incluindo tanto os negócios administrados por idosos quanto o mercado consumidor formado por eles.
O avanço não acontece apenas no empreendedorismo. Levantamento da pesquisadora Janaína Feijó, do FGV Ibre, elaborado com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, mostra que a população ocupada com 60 anos ou mais cresceu 68,9% entre o quarto trimestre de 2012 e o mesmo período de 2024.
No fim de 2024, aproximadamente 8,6 milhões de pessoas dessa faixa etária estavam trabalhando.
O movimento combina diferentes fatores: maior expectativa de vida, melhora nas condições de saúde, desejo de autonomia, busca por propósito e necessidade de reforçar o orçamento.
Envelhecimento da população transforma o mercado de trabalho
O Brasil está envelhecendo rapidamente. No Censo Demográfico de 2022, o IBGE contabilizou mais de 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, equivalentes a cerca de 15,8% da população.
A idade mediana dos brasileiros também aumentou. Ela passou de 29 anos, em 2010, para 35 anos em 2022. A idade mediana divide a população em duas metades: uma mais jovem e outra mais velha que aquele ponto.
A expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, conforme a tábua de mortalidade mais recente divulgada pelo IBGE. Em 2000, esse indicador estava em 71,1 anos.
Isso significa que muitas pessoas podem viver por duas décadas ou mais depois de atingir a idade tradicionalmente associada à aposentadoria.
A mudança pressiona empresas e políticas públicas a reverem a ideia de que todos os profissionais devem deixar o mercado assim que chegam aos 60 ou 65 anos.
Quais negócios atraem os empreendedores mais velhos?
Não existe uma única profissão responsável pelo crescimento. O movimento envolve o empreendedorismo em diferentes setores.
Atividades de consultoria e prestação de serviços costumam ser atrativas porque aproveitam o conhecimento acumulado e podem exigir investimento inicial mais baixo.
Entre as possibilidades estão:
- consultoria administrativa ou técnica;
- aulas particulares e cursos;
- produção de alimentos;
- costura e artesanato;
- manutenção e pequenos reparos;
- comércio eletrônico;
- cuidados pessoais;
- serviços de beleza;
- corretagem;
- turismo e hospitalidade;
- produção rural;
- atendimento especializado à população 60+.
A escolha não deve ocorrer apenas com base em tendências. Um negócio tende a ser mais sustentável quando existe compatibilidade entre conhecimento, capacidade física, recursos disponíveis e demanda real.
Experiência profissional vira vantagem competitiva
Um empreendedor mais velho pode possuir algo que demora anos para ser construído: conhecimento prático do setor.
Essa experiência ajuda a prever problemas, negociar com fornecedores e reconhecer demandas. A rede de contatos formada durante a carreira também pode facilitar a conquista dos primeiros clientes.
A maturidade tende a contribuir para decisões mais cautelosas. Em vez de investir rapidamente em uma ideia, o empreendedor pode testar o serviço, conversar com possíveis compradores e ajustar os custos.
Isso não elimina riscos. Experiência técnica não substitui planejamento financeiro, conhecimento digital ou controle de caixa.
Uma excelente cozinheira, por exemplo, ainda precisa calcular o custo dos ingredientes, definir o preço da entrega e separar o dinheiro pessoal dos recursos do negócio.
Quais são os principais desafios depois dos 60 anos?
O primeiro desafio é financeiro. Muitos empreendedores utilizam a aposentadoria ou as economias pessoais para iniciar a empresa, o que pode colocar a segurança familiar em risco.
Também existem dificuldades relacionadas à tecnologia. Divulgação em redes sociais, pagamentos digitais, sistemas de gestão e vendas pela internet passaram a fazer parte da rotina de pequenos negócios.
Outro obstáculo é o acesso ao crédito. Instituições financeiras podem avaliar idade, renda, garantias e prazo da operação antes de conceder financiamento.
A rotina precisa respeitar a saúde e os limites físicos do empreendedor. Trabalhar por conta própria não significa necessariamente ter mais tempo livre. Dependendo do negócio, a jornada pode ser longa e envolver produção, vendas, entregas e administração.
Os cuidados mais importantes incluem:
- não comprometer a reserva de emergência;
- evitar empréstimos caros para testar uma ideia;
- separar as contas pessoais das empresariais;
- verificar se há clientes antes de ampliar a estrutura;
- definir uma carga de trabalho compatível com a saúde;
- manter contratos e registros organizados;
- buscar capacitação digital;
- conversar com um contador quando necessário.
Como começar um negócio depois da aposentadoria?
O primeiro passo é transformar a experiência em uma proposta clara. Em vez de começar pela pergunta “qual empresa devo abrir?”, vale identificar qual problema a pessoa sabe resolver.
Depois, é necessário descobrir se há clientes dispostos a pagar pela solução. Essa verificação pode ser feita por meio de conversas, encomendas-piloto ou prestação inicial de serviços em pequena escala.
Um roteiro simples inclui:
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- listar conhecimentos e habilidades;
- identificar quem precisa daquele serviço;
- pesquisar concorrentes e preços;
- calcular custos fixos e variáveis;
- testar a atividade com poucos clientes;
- verificar licenças e exigências legais;
- escolher a forma de formalização;
- criar uma conta separada para o negócio;
- acompanhar receitas e despesas;
- expandir somente depois de validar a demanda.
O Sebrae oferece orientações, cursos e atendimento voltado aos pequenos negócios. O programa Empreendedorismo Sênior 60+ atendeu 869 mil pessoas em 2025 e estabeleceu a meta de alcançar 1 milhão de atendimentos em 2026.
Empreender por oportunidade não significa ausência de necessidade
Os dados do GEM mostram a motivação declarada como principal, mas a vida financeira raramente cabe em apenas uma categoria.
Um aposentado pode identificar uma boa oportunidade e, ao mesmo tempo, precisar complementar a renda. Da mesma forma, alguém pode começar por necessidade e depois transformar a atividade em um negócio planejado.
O levantamento não permite concluir que todos os empreendedores mais velhos vivem em situação confortável. Também não informa que todos são aposentados.
A faixa de 65 a 74 anos inclui pessoas que ainda não conseguiram se aposentar, trabalhadores que permaneceram empregados e beneficiários de diferentes regimes previdenciários.
Por isso, a principal conclusão é que o empreendedorismo por oportunidade ganhou relevância entre os brasileiros mais velhos — não que a necessidade financeira tenha desaparecido.
Empreendedorismo sênior pode crescer ainda mais
O envelhecimento da população tende a ampliar tanto a oferta de empreendedores experientes quanto a procura por produtos desenvolvidos para consumidores maduros.
Moradia adaptada, turismo acessível, educação digital, cuidados domiciliares, lazer, saúde preventiva e serviços financeiros estão entre os mercados que podem ganhar espaço.
Pessoas mais velhas possuem uma vantagem importante para atuar nesse segmento: conhecem dificuldades que muitas empresas ainda não compreendem.
Um negócio voltado à população idosa não precisa tratar esse público como dependente. Muitos consumidores 60+ procuram autonomia, conveniência, segurança e atendimento respeitoso.
Empresas que simplificam a experiência sem infantilizar o cliente podem encontrar oportunidades relevantes na economia prateada.
Aposentadoria e trabalho podem caminhar juntos
Os dados mais recentes mostram que o empreendedorismo está se consolidando como uma possibilidade de carreira depois dos 65 anos. Quase 63% dos empreendedores de 65 a 74 anos afirmam ter iniciado seus negócios após identificar uma oportunidade.
Isso não representa o abandono coletivo da aposentadoria. Para muitos brasileiros, significa combinar o benefício previdenciário com uma atividade que oferece renda, autonomia ou realização pessoal.
Quem pretende seguir esse caminho deve começar de forma cautelosa. Antes de investir, é importante conferir as regras do benefício, testar a demanda, calcular os custos e evitar colocar toda a reserva financeira no negócio.
A experiência acumulada pode ser uma vantagem poderosa. Mas ela produz resultados melhores quando vem acompanhada de planejamento, capacitação e controle financeiro.
Perguntas frequentes

Aposentado pode trabalhar sem perder a aposentadoria?
Em regra, quem recebe aposentadoria por idade ou por tempo de contribuição pode voltar ao trabalho sem perder o benefício. Existem restrições para aposentadoria por incapacidade permanente e para o retorno à atividade nociva no caso da aposentadoria especial.
Aposentado pode abrir MEI?
Sim. A formalização como MEI não cancela as aposentadorias por idade ou por tempo de contribuição. O beneficiário deve verificar se sua atividade é permitida e se cumpre os demais requisitos.
Quem recebe aposentadoria por incapacidade pode ser MEI?
Não sem consequências para o benefício. O retorno ao trabalho indica recuperação da capacidade laboral e pode provocar o encerramento da aposentadoria por incapacidade permanente.
O aposentado que abre MEI precisa pagar INSS?
Sim. A contribuição previdenciária faz parte do pagamento mensal do DAS. Esse recolhimento não cria uma segunda aposentadoria nem aumenta automaticamente o benefício já recebido.
Quantos empreendedores com mais de 60 anos existem no Brasil?
O Sebrae estima que o país tenha cerca de 4,5 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais.
Por que os idosos estão empreendendo?
Os motivos incluem identificação de oportunidades, necessidade de complementar a renda, desejo de permanecer ativo, autonomia e possibilidade de utilizar a experiência profissional acumulada.
Qual negócio é mais indicado depois dos 60 anos?
Não existe uma atividade ideal para todos. Negócios de consultoria, ensino e prestação de serviços podem aproveitar a experiência e exigir menos investimento, mas a escolha deve considerar saúde, demanda e conhecimento.
A aposentadoria aumenta se o beneficiário continuar contribuindo?
Não. As contribuições realizadas depois da aposentadoria não recalculam automaticamente o benefício nem geram direito a uma segunda aposentadoria.



