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Economia brasileira pode perder força em 2027 com efeitos do El Niño

El Niño forte pode afetar safra, energia, inflação e PIB do Brasil em 2027. Veja o que dizem Itaú e órgãos oficiais sobre os possíveis impactos.

Jessica CassanaPor Jessica Cassana··12 min de leitura
Economia brasileira pode perder força em 2027 com efeitos do El Niño

Uma mudança no clima pode se transformar em um problema econômico para o Brasil em 2027. A previsão de um El Niño de forte intensidade ganhou espaço nas projeções de especialistas e já começa a ser considerada por instituições financeiras na avaliação do desempenho da economia brasileira.

Durante o evento DN Business, realizado em Fortaleza, Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Macroeconômica do Itaú Unibanco, afirmou que o banco passou a incorporar em seu cenário a possibilidade de um El Niño muito forte, com potencial para prejudicar principalmente a produção agrícola.

O Itaú trabalha atualmente com crescimento de 1,9% para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026 e de 1,5% em 2027. A instituição, porém, avalia que existem riscos de revisão para baixo diante da combinação entre uma atividade econômica que vem perdendo força e os possíveis efeitos climáticos sobre a produção.

O alerta ocorre em um momento em que os órgãos brasileiros de monitoramento climático também acompanham a formação do fenômeno. Uma nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM aponta alta probabilidade de configuração do El Niño no segundo semestre de 2026, com possibilidade de persistência pelo menos até o início de 2027.

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Por que o El Niño preocupa a economia brasileira

Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica a circulação atmosférica e pode mudar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.

No Brasil, os efeitos não são iguais em todas as regiões.

Dependendo da intensidade e da configuração do fenômeno, algumas áreas podem registrar períodos mais secos e quentes, enquanto outras podem enfrentar aumento das chuvas.

É justamente essa alteração nos padrões climáticos que preocupa setores como agricultura, geração de energia, indústria e comércio.

O INPE destaca que o fenômeno pode provocar impactos importantes nos padrões de precipitação e temperatura em grande parte do território brasileiro.

O fenômeno já está no radar dos órgãos oficiais

A possibilidade de um El Niño entre 2026 e 2027 não é apenas uma hipótese levantada pelo mercado financeiro.

O INMET informou em junho que as condições associadas ao fenômeno já estavam presentes e que a expectativa era de persistência até o final do verão austral de 2026/2027.

Além disso, as previsões do CPC/NOAA analisadas pelo CPTEC/INPE indicavam, para o trimestre de agosto a outubro de 2026, probabilidades elevadas de um evento forte ou muito forte. O órgão apontava 42% de probabilidade para intensidade forte e 48% para intensidade muito forte.

Isso não significa que todos os impactos já estejam definidos. A intensidade do fenômeno, sua duração e a forma como ele interage com outros sistemas climáticos podem alterar significativamente os efeitos observados em cada região.

Como o El Niño pode afetar o PIB em 2027

O principal canal apontado pelo Itaú é a agricultura.

Uma safra menor significa redução da produção de determinados produtos e pode afetar diretamente o valor adicionado pela agropecuária no PIB.

No caso destacado por Fernando Gonçalves, o milho aparece entre as culturas que podem sofrer com as condições climáticas associadas ao fenômeno.

Se a produção cair, os efeitos podem ultrapassar as propriedades rurais.

Uma menor oferta de produtos agrícolas pode aumentar preços, afetar a indústria de alimentos, elevar custos de produtores que dependem de ração e modificar o desempenho das exportações.

O impacto final sobre o PIB, portanto, não depende apenas de quanto será produzido no campo. Ele pode se espalhar por diferentes setores da economia.

Agricultura tem peso importante no resultado econômico

A agropecuária possui uma participação relevante na economia brasileira e apresenta forte conexão com a indústria e os serviços.

Uma quebra ou redução expressiva de determinada safra pode afetar:

  • produção agrícola;
  • transporte de cargas;
  • armazenagem;
  • indústria de alimentos;
  • fabricação de rações;
  • exportações;
  • preços de commodities;
  • renda de produtores;
  • arrecadação de municípios e estados.

Por isso, um fenômeno climático pode produzir efeitos econômicos muito maiores do que aqueles observados diretamente nas plantações.

O que pode acontecer com os preços dos alimentos

Um dos efeitos mais perceptíveis para a população pode aparecer nos supermercados.

Quando uma condição climática reduz a oferta de determinada cultura, os preços tendem a sofrer pressão.

O mecanismo é simples: se há menos produto disponível e a demanda permanece elevada, o preço pode subir.

Isso pode acontecer com produtos utilizados diretamente na alimentação ou com matérias-primas destinadas à produção de outros alimentos.

O milho, por exemplo, possui grande importância para a cadeia de proteína animal. É utilizado na alimentação de aves, suínos e outros animais.

Portanto, uma alteração relevante na produção pode aumentar custos ao longo da cadeia.

Isso não significa que o El Niño necessariamente provocará uma alta generalizada nos preços dos alimentos. Outros fatores também influenciam os preços, como estoques, importações, câmbio, custos de transporte, demanda interna e condições de outras regiões produtoras.

Energia também entra no radar

Outro canal importante de transmissão dos efeitos climáticos é o setor elétrico.

O Brasil possui forte participação das hidrelétricas na geração de eletricidade. Por isso, mudanças relevantes no regime de chuvas podem afetar a quantidade de água disponível para geração.

Em determinados cenários, uma redução dos níveis dos reservatórios pode aumentar a necessidade de acionamento de fontes de geração mais caras.

Isso pode elevar os custos do sistema e pressionar as tarifas de energia.

A consequência não fica restrita à conta de luz das famílias.

Empresas também enfrentam aumento de custos operacionais quando a energia fica mais cara. Dependendo do setor, parte dessa despesa pode ser repassada para o preço final de produtos e serviços.

El Niño pode aumentar a inflação?

Sim, existe essa possibilidade, principalmente por meio dos alimentos e da energia.

Esse processo é chamado de choque de oferta.

Imagine uma situação em que uma determinada cultura agrícola tenha uma produção menor por causa das condições climáticas. A oferta diminui e os preços podem subir.

Ao mesmo tempo, caso as condições hidrológicas prejudiquem a geração de energia, os custos do sistema elétrico também podem aumentar.

A combinação dos dois fatores pode pressionar a inflação.

No entanto, é importante diferenciar possibilidade de previsão.

Não é possível afirmar neste momento que o El Niño fará a inflação brasileira disparar. O efeito dependerá da intensidade do fenômeno, da distribuição das chuvas, do comportamento das safras e das condições econômicas vigentes em 2027.

Ceará e Nordeste podem sentir efeitos diferentes

O Nordeste merece atenção especial porque historicamente apresenta respostas particulares aos fenômenos associados ao El Niño.

Para o Ceará, a agricultura e a fruticultura estão entre os setores que podem ficar expostos a alterações no regime de chuvas e temperatura.

Durante o evento em Fortaleza, Fernando Gonçalves chamou atenção justamente para os possíveis impactos sobre a produção frutícola cearense e recomendou que empresários mantenham preparação financeira para um cenário mais difícil.

A preocupação é especialmente relevante para atividades que dependem diretamente da disponibilidade de água.

Fruticultura pode enfrentar aumento de custos

A fruticultura irrigada exige planejamento de água, energia e insumos.

Caso haja redução da disponibilidade hídrica ou aumento da necessidade de irrigação, o produtor pode enfrentar custos adicionais.

Uma empresa que dependa de sistemas de bombeamento, por exemplo, pode sofrer simultaneamente com maior necessidade de água e aumento das despesas energéticas.

Esse tipo de combinação pode reduzir margens de lucro mesmo quando a produção não sofre uma quebra significativa.

Sul e Sudeste também podem enfrentar consequências

Os efeitos do El Niño não se limitam ao Nordeste.

O fenômeno pode modificar os padrões de precipitação e temperatura em diferentes regiões do país, com impactos que variam conforme a época do ano e a intensidade do evento.

No Sul, por exemplo, historicamente há episódios de aumento das chuvas associados ao El Niño, embora o comportamento observado em cada evento não seja necessariamente idêntico.

No Sudeste e em outras áreas do país, as alterações de temperatura, chuva e disponibilidade hídrica também podem influenciar agricultura, energia e atividade econômica.

Por isso, especialistas evitam tratar o fenômeno como se produzisse exatamente o mesmo resultado em todo o território nacional.

Por que a previsão do PIB pode cair

A projeção de crescimento de 1,5% para o PIB em 2027 já representa uma desaceleração em relação aos 1,9% estimados pelo Itaú para 2026.

O cenário também precisa ser analisado em conjunto com as expectativas do mercado.

No Relatório Focus divulgado pelo Banco Central em 10 de agosto de 2026, a mediana das projeções para o crescimento do PIB passou para 1,98% em 2026 e 1,52% em 2027, mostrando que o mercado também trabalha com uma expansão moderada da economia no próximo ano.

Isso é importante porque mostra que a preocupação com uma economia menos dinâmica em 2027 não está restrita ao cenário do Itaú.

O El Niño entra como um fator adicional de risco.

Atividade econômica já apresenta sinais de desaceleração

De acordo com a avaliação apresentada pelo economista do Itaú, os dados mais recentes de atividade econômica vêm mostrando crescimento mais fraco.

Nesse cenário, um choque climático sobre a produção agrícola poderia ampliar a desaceleração.

Em vez de ser o único responsável por uma eventual redução do PIB, o fenômeno funcionaria como mais uma variável negativa dentro de um cenário econômico que já apresenta outros desafios.

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O que pode acontecer com empresas e consumidores

Os efeitos econômicos não aparecem apenas nos indicadores oficiais.

Para as empresas, um cenário de clima adverso pode significar aumento de custos, necessidade de reforço de estoques e maior dificuldade para planejar produção.

Para os consumidores, os impactos podem aparecer nos preços de alimentos, energia e outros produtos que dependem de matérias-primas agrícolas.

Para os produtores rurais, o risco está principalmente na produtividade, disponibilidade de água, custos de irrigação e necessidade de adaptação do calendário agrícola.

Por isso, o planejamento passa a ser ainda mais importante.

Empresas devem se preparar para um cenário mais volátil

El Niño
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A recomendação apresentada durante o DN Business foi de cautela financeira.

Em termos práticos, empresas expostas ao clima podem adotar medidas como:

  • revisar projeções de receita;
  • reforçar o controle do fluxo de caixa;
  • avaliar custos de energia;
  • monitorar previsões meteorológicas;
  • revisar contratos de fornecimento;
  • avaliar estoques estratégicos;
  • diversificar fornecedores quando possível;
  • criar cenários de estresse financeiro.

Para pequenos negócios, uma medida especialmente importante é evitar assumir compromissos financeiros considerando apenas o cenário mais otimista.

Se custos aumentarem ou vendas diminuírem, uma empresa com pouca reserva de caixa pode enfrentar dificuldades rapidamente.

El Niño forte já está sendo incorporado às projeções

A principal novidade econômica é que o fenômeno deixou de ser apenas uma preocupação meteorológica e passou a fazer parte da análise de risco de instituições financeiras.

O Itaú já considera em seu cenário um El Niño muito forte e estima crescimento de 1,5% para o PIB em 2027, mas admite a possibilidade de revisão para baixo.

Ao mesmo tempo, órgãos como INPE, INMET e CEMADEN monitoram continuamente as condições climáticas e seus potenciais efeitos.

O primeiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo CEMADEN, reúne justamente orientações e avaliações sobre os possíveis impactos do fenômeno e reforça a necessidade de acompanhamento contínuo das condições meteorológicas e hidrológicas.

Isso significa que as projeções econômicas ainda podem mudar.

O cenário para 2027 está definido?

Não.

Essa é uma das principais ressalvas que precisam ser feitas ao analisar as previsões atuais.

A possibilidade de um El Niño forte ou muito forte é elevada, mas o impacto econômico definitivo só poderá ser dimensionado à medida que o fenômeno evoluir e os dados de chuva, temperatura, reservatórios e produção agrícola forem atualizados.

O próprio mercado financeiro revisa suas projeções constantemente.

O cenário de hoje pode ser diferente do cenário de alguns meses à frente.

Por isso, a previsão de crescimento de 1,5% do Itaú deve ser entendida como uma estimativa sujeita a mudanças, e não como uma sentença sobre o desempenho da economia brasileira.

O que observar nos próximos meses

Quem acompanha a economia brasileira deve ficar atento a cinco indicadores principais:

1. Intensidade do El Niño: os dados climáticos ajudarão a determinar se o fenômeno realmente atingirá intensidade forte ou muito forte.

2. Chuvas e reservatórios: essas informações serão fundamentais para avaliar os riscos para agricultura e geração de energia.

3. Produção agrícola: revisões nas estimativas de milho, soja e outras culturas podem alterar as projeções para o PIB.

4. Preços dos alimentos: aumentos persistentes podem gerar pressão adicional sobre a inflação.

5. Projeções do PIB: novas edições do Focus e revisões de bancos e consultorias mostrarão como o mercado está incorporando os efeitos climáticos.

El Niño pode ser um dos riscos para a economia em 2027

A possibilidade de um El Niño forte acrescenta uma nova camada de incerteza ao cenário econômico brasileiro.

O fenômeno pode atingir a agricultura, pressionar preços, alterar custos de energia e afetar a atividade econômica em diferentes regiões.

Para o Itaú, esses efeitos já justificam uma projeção de crescimento de 1,5% para o PIB em 2027, com possibilidade de revisão para baixo.

O mercado, por sua vez, projetava crescimento de aproximadamente 1,52% para 2027 no Focus de 10 de agosto, indicando uma visão igualmente moderada para a economia.

O ponto central, portanto, não é afirmar que o El Niño sozinho fará o Brasil crescer menos. O risco está na combinação entre um fenômeno climático potencialmente intenso e uma economia que já apresenta sinais de desaceleração.

Se as previsões climáticas se confirmarem e houver impactos relevantes sobre safras e energia, o fenômeno poderá se transformar em mais um obstáculo para o crescimento brasileiro em 2027.

Para empresas, produtores e consumidores, acompanhar a evolução do clima será tão importante quanto observar juros, inflação e atividade econômica. Em um cenário de maior volatilidade, informação e planejamento podem fazer diferença para reduzir os efeitos de um eventual choque climático.

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