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Economia brasileira pode perder força em 2027 com efeitos do El Niño

Avatar de Jéssica Cassana Jéssica Cassana · · 13 min de leitura
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Uma mudança no clima pode se transformar em um problema econômico para o Brasil em 2027. A previsão de um El Niño de forte intensidade ganhou espaço nas projeções de especialistas e já começa a ser considerada por instituições financeiras na avaliação do desempenho da economia brasileira.

Durante o evento DN Business, realizado em Fortaleza, Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Macroeconômica do Itaú Unibanco, afirmou que o banco passou a incorporar em seu cenário a possibilidade de um El Niño muito forte, com potencial para prejudicar principalmente a produção agrícola.

O Itaú trabalha atualmente com crescimento de 1,9% para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026 e de 1,5% em 2027. A instituição, porém, avalia que existem riscos de revisão para baixo diante da combinação entre uma atividade econômica que vem perdendo força e os possíveis efeitos climáticos sobre a produção.

O alerta ocorre em um momento em que os órgãos brasileiros de monitoramento climático também acompanham a formação do fenômeno. Uma nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM aponta alta probabilidade de configuração do El Niño no segundo semestre de 2026, com possibilidade de persistência pelo menos até o início de 2027.

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Por que o El Niño preocupa a economia brasileira

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Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica a circulação atmosférica e pode mudar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.

No Brasil, os efeitos não são iguais em todas as regiões.

Dependendo da intensidade e da configuração do fenômeno, algumas áreas podem registrar períodos mais secos e quentes, enquanto outras podem enfrentar aumento das chuvas.

É justamente essa alteração nos padrões climáticos que preocupa setores como agricultura, geração de energia, indústria e comércio.

O INPE destaca que o fenômeno pode provocar impactos importantes nos padrões de precipitação e temperatura em grande parte do território brasileiro.

O fenômeno já está no radar dos órgãos oficiais

A possibilidade de um El Niño entre 2026 e 2027 não é apenas uma hipótese levantada pelo mercado financeiro.

O INMET informou em junho que as condições associadas ao fenômeno já estavam presentes e que a expectativa era de persistência até o final do verão austral de 2026/2027.

Além disso, as previsões do CPC/NOAA analisadas pelo CPTEC/INPE indicavam, para o trimestre de agosto a outubro de 2026, probabilidades elevadas de um evento forte ou muito forte. O órgão apontava 42% de probabilidade para intensidade forte e 48% para intensidade muito forte.

Isso não significa que todos os impactos já estejam definidos. A intensidade do fenômeno, sua duração e a forma como ele interage com outros sistemas climáticos podem alterar significativamente os efeitos observados em cada região.

Como o El Niño pode afetar o PIB em 2027

O principal canal apontado pelo Itaú é a agricultura.

Uma safra menor significa redução da produção de determinados produtos e pode afetar diretamente o valor adicionado pela agropecuária no PIB.

No caso destacado por Fernando Gonçalves, o milho aparece entre as culturas que podem sofrer com as condições climáticas associadas ao fenômeno.

Se a produção cair, os efeitos podem ultrapassar as propriedades rurais.

Uma menor oferta de produtos agrícolas pode aumentar preços, afetar a indústria de alimentos, elevar custos de produtores que dependem de ração e modificar o desempenho das exportações.

O impacto final sobre o PIB, portanto, não depende apenas de quanto será produzido no campo. Ele pode se espalhar por diferentes setores da economia.

Agricultura tem peso importante no resultado econômico

A agropecuária possui uma participação relevante na economia brasileira e apresenta forte conexão com a indústria e os serviços.

Uma quebra ou redução expressiva de determinada safra pode afetar:

  • produção agrícola;
  • transporte de cargas;
  • armazenagem;
  • indústria de alimentos;
  • fabricação de rações;
  • exportações;
  • preços de commodities;
  • renda de produtores;
  • arrecadação de municípios e estados.

Por isso, um fenômeno climático pode produzir efeitos econômicos muito maiores do que aqueles observados diretamente nas plantações.

O que pode acontecer com os preços dos alimentos

Um dos efeitos mais perceptíveis para a população pode aparecer nos supermercados.

Quando uma condição climática reduz a oferta de determinada cultura, os preços tendem a sofrer pressão.

O mecanismo é simples: se há menos produto disponível e a demanda permanece elevada, o preço pode subir.

Isso pode acontecer com produtos utilizados diretamente na alimentação ou com matérias-primas destinadas à produção de outros alimentos.

O milho, por exemplo, possui grande importância para a cadeia de proteína animal. É utilizado na alimentação de aves, suínos e outros animais.

Portanto, uma alteração relevante na produção pode aumentar custos ao longo da cadeia.

Isso não significa que o El Niño necessariamente provocará uma alta generalizada nos preços dos alimentos. Outros fatores também influenciam os preços, como estoques, importações, câmbio, custos de transporte, demanda interna e condições de outras regiões produtoras.

Energia também entra no radar

Outro canal importante de transmissão dos efeitos climáticos é o setor elétrico.

O Brasil possui forte participação das hidrelétricas na geração de eletricidade. Por isso, mudanças relevantes no regime de chuvas podem afetar a quantidade de água disponível para geração.

Em determinados cenários, uma redução dos níveis dos reservatórios pode aumentar a necessidade de acionamento de fontes de geração mais caras.

Isso pode elevar os custos do sistema e pressionar as tarifas de energia.

A consequência não fica restrita à conta de luz das famílias.

Empresas também enfrentam aumento de custos operacionais quando a energia fica mais cara. Dependendo do setor, parte dessa despesa pode ser repassada para o preço final de produtos e serviços.

El Niño pode aumentar a inflação?

Sim, existe essa possibilidade, principalmente por meio dos alimentos e da energia.

Esse processo é chamado de choque de oferta.

Imagine uma situação em que uma determinada cultura agrícola tenha uma produção menor por causa das condições climáticas. A oferta diminui e os preços podem subir.

Ao mesmo tempo, caso as condições hidrológicas prejudiquem a geração de energia, os custos do sistema elétrico também podem aumentar.

A combinação dos dois fatores pode pressionar a inflação.

No entanto, é importante diferenciar possibilidade de previsão.

Não é possível afirmar neste momento que o El Niño fará a inflação brasileira disparar. O efeito dependerá da intensidade do fenômeno, da distribuição das chuvas, do comportamento das safras e das condições econômicas vigentes em 2027.

Ceará e Nordeste podem sentir efeitos diferentes

O Nordeste merece atenção especial porque historicamente apresenta respostas particulares aos fenômenos associados ao El Niño.

Para o Ceará, a agricultura e a fruticultura estão entre os setores que podem ficar expostos a alterações no regime de chuvas e temperatura.

Durante o evento em Fortaleza, Fernando Gonçalves chamou atenção justamente para os possíveis impactos sobre a produção frutícola cearense e recomendou que empresários mantenham preparação financeira para um cenário mais difícil.

A preocupação é especialmente relevante para atividades que dependem diretamente da disponibilidade de água.

Fruticultura pode enfrentar aumento de custos

A fruticultura irrigada exige planejamento de água, energia e insumos.

Caso haja redução da disponibilidade hídrica ou aumento da necessidade de irrigação, o produtor pode enfrentar custos adicionais.

Uma empresa que dependa de sistemas de bombeamento, por exemplo, pode sofrer simultaneamente com maior necessidade de água e aumento das despesas energéticas.

Esse tipo de combinação pode reduzir margens de lucro mesmo quando a produção não sofre uma quebra significativa.

Sul e Sudeste também podem enfrentar consequências

Os efeitos do El Niño não se limitam ao Nordeste.

O fenômeno pode modificar os padrões de precipitação e temperatura em diferentes regiões do país, com impactos que variam conforme a época do ano e a intensidade do evento.

No Sul, por exemplo, historicamente há episódios de aumento das chuvas associados ao El Niño, embora o comportamento observado em cada evento não seja necessariamente idêntico.

No Sudeste e em outras áreas do país, as alterações de temperatura, chuva e disponibilidade hídrica também podem influenciar agricultura, energia e atividade econômica.

Por isso, especialistas evitam tratar o fenômeno como se produzisse exatamente o mesmo resultado em todo o território nacional.

Por que a previsão do PIB pode cair

A projeção de crescimento de 1,5% para o PIB em 2027 já representa uma desaceleração em relação aos 1,9% estimados pelo Itaú para 2026.

O cenário também precisa ser analisado em conjunto com as expectativas do mercado.

No Relatório Focus divulgado pelo Banco Central em 10 de agosto de 2026, a mediana das projeções para o crescimento do PIB passou para 1,98% em 2026 e 1,52% em 2027, mostrando que o mercado também trabalha com uma expansão moderada da economia no próximo ano.

Isso é importante porque mostra que a preocupação com uma economia menos dinâmica em 2027 não está restrita ao cenário do Itaú.

O El Niño entra como um fator adicional de risco.

Atividade econômica já apresenta sinais de desaceleração

De acordo com a avaliação apresentada pelo economista do Itaú, os dados mais recentes de atividade econômica vêm mostrando crescimento mais fraco.

Nesse cenário, um choque climático sobre a produção agrícola poderia ampliar a desaceleração.

Em vez de ser o único responsável por uma eventual redução do PIB, o fenômeno funcionaria como mais uma variável negativa dentro de um cenário econômico que já apresenta outros desafios.

O que pode acontecer com empresas e consumidores

Os efeitos econômicos não aparecem apenas nos indicadores oficiais.

Para as empresas, um cenário de clima adverso pode significar aumento de custos, necessidade de reforço de estoques e maior dificuldade para planejar produção.

Para os consumidores, os impactos podem aparecer nos preços de alimentos, energia e outros produtos que dependem de matérias-primas agrícolas.

Para os produtores rurais, o risco está principalmente na produtividade, disponibilidade de água, custos de irrigação e necessidade de adaptação do calendário agrícola.

Por isso, o planejamento passa a ser ainda mais importante.

Empresas devem se preparar para um cenário mais volátil

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A recomendação apresentada durante o DN Business foi de cautela financeira.

Em termos práticos, empresas expostas ao clima podem adotar medidas como:

  • revisar projeções de receita;
  • reforçar o controle do fluxo de caixa;
  • avaliar custos de energia;
  • monitorar previsões meteorológicas;
  • revisar contratos de fornecimento;
  • avaliar estoques estratégicos;
  • diversificar fornecedores quando possível;
  • criar cenários de estresse financeiro.

Para pequenos negócios, uma medida especialmente importante é evitar assumir compromissos financeiros considerando apenas o cenário mais otimista.

Se custos aumentarem ou vendas diminuírem, uma empresa com pouca reserva de caixa pode enfrentar dificuldades rapidamente.

El Niño forte já está sendo incorporado às projeções

A principal novidade econômica é que o fenômeno deixou de ser apenas uma preocupação meteorológica e passou a fazer parte da análise de risco de instituições financeiras.

O Itaú já considera em seu cenário um El Niño muito forte e estima crescimento de 1,5% para o PIB em 2027, mas admite a possibilidade de revisão para baixo.

Ao mesmo tempo, órgãos como INPE, INMET e CEMADEN monitoram continuamente as condições climáticas e seus potenciais efeitos.

O primeiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado pelo CEMADEN, reúne justamente orientações e avaliações sobre os possíveis impactos do fenômeno e reforça a necessidade de acompanhamento contínuo das condições meteorológicas e hidrológicas.

Isso significa que as projeções econômicas ainda podem mudar.

O cenário para 2027 está definido?

Não.

Essa é uma das principais ressalvas que precisam ser feitas ao analisar as previsões atuais.

A possibilidade de um El Niño forte ou muito forte é elevada, mas o impacto econômico definitivo só poderá ser dimensionado à medida que o fenômeno evoluir e os dados de chuva, temperatura, reservatórios e produção agrícola forem atualizados.

O próprio mercado financeiro revisa suas projeções constantemente.

O cenário de hoje pode ser diferente do cenário de alguns meses à frente.

Por isso, a previsão de crescimento de 1,5% do Itaú deve ser entendida como uma estimativa sujeita a mudanças, e não como uma sentença sobre o desempenho da economia brasileira.

O que observar nos próximos meses

Quem acompanha a economia brasileira deve ficar atento a cinco indicadores principais:

1. Intensidade do El Niño: os dados climáticos ajudarão a determinar se o fenômeno realmente atingirá intensidade forte ou muito forte.

2. Chuvas e reservatórios: essas informações serão fundamentais para avaliar os riscos para agricultura e geração de energia.

3. Produção agrícola: revisões nas estimativas de milho, soja e outras culturas podem alterar as projeções para o PIB.

4. Preços dos alimentos: aumentos persistentes podem gerar pressão adicional sobre a inflação.

5. Projeções do PIB: novas edições do Focus e revisões de bancos e consultorias mostrarão como o mercado está incorporando os efeitos climáticos.

El Niño pode ser um dos riscos para a economia em 2027

A possibilidade de um El Niño forte acrescenta uma nova camada de incerteza ao cenário econômico brasileiro.

O fenômeno pode atingir a agricultura, pressionar preços, alterar custos de energia e afetar a atividade econômica em diferentes regiões.

Para o Itaú, esses efeitos já justificam uma projeção de crescimento de 1,5% para o PIB em 2027, com possibilidade de revisão para baixo.

O mercado, por sua vez, projetava crescimento de aproximadamente 1,52% para 2027 no Focus de 10 de agosto, indicando uma visão igualmente moderada para a economia.

O ponto central, portanto, não é afirmar que o El Niño sozinho fará o Brasil crescer menos. O risco está na combinação entre um fenômeno climático potencialmente intenso e uma economia que já apresenta sinais de desaceleração.

Se as previsões climáticas se confirmarem e houver impactos relevantes sobre safras e energia, o fenômeno poderá se transformar em mais um obstáculo para o crescimento brasileiro em 2027.

Para empresas, produtores e consumidores, acompanhar a evolução do clima será tão importante quanto observar juros, inflação e atividade econômica. Em um cenário de maior volatilidade, informação e planejamento podem fazer diferença para reduzir os efeitos de um eventual choque climático.

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