O anúncio do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a imposição de tarifas adicionais de 50% a produtos brasileiros a partir de 1º de agosto acendeu o alerta no setor industrial do Brasil. Em especial, os olhares se voltaram para a Embraer, uma das maiores fabricantes de aviões do mundo e principal exportadora nacional de bens de alto valor agregado.
Tarifas de Trump podem atingir empresa brasileira de tecnologia avançada
Com 45% das exportações voltadas aos EUA, Embraer pode sofrer forte impacto com tarifas de Trump, que aumentam em 50% os custos de importação.
Com presença de mais de quatro décadas nos Estados Unidos e forte atuação no segmento de aviação regional, a Embraer pode ser duramente impactada por essa nova política protecionista.
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CEO da Embraer alerta para impacto bilionário

Em entrevista coletiva no dia 15 de julho, o CEO da Embraer, Francisco Gomes Neto, afirmou que as tarifas poderão representar um custo adicional de US$ 9 milhões por aeronave exportada para os EUA, somando cerca de R$ 2 bilhões em tarifas somente até o final de 2025. Até 2030, o impacto acumulado pode ultrapassar os R$ 20 bilhões.
EUA: mercado estratégico para a Embraer
Os Estados Unidos são o principal mercado da Embraer: 45% das exportações de jatos comerciais e 70% das de jatos executivos têm como destino o território americano. Cerca de um terço dos voos regionais nos maiores aeroportos do país são operados por aeronaves da empresa.
Além disso, a fabricante brasileira emprega aproximadamente 3 mil pessoas em território norte-americano, consolidando sua presença local e sua importância econômica bilateral.
A trajetória da Embraer: da estatal à gigante global
Origem e primeiros modelos
Fundada em 1969, com sede em São José dos Campos (SP), a Embraer surgiu a partir de esforços conjuntos do governo e de engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Seu primeiro grande projeto foi o Bandeirante, um bimotor turboélice voltado à aviação regional.
O objetivo era integrar regiões isoladas do Brasil por meio de aeronaves capazes de operar em pistas curtas e não pavimentadas.
Expansão e diversificação
Na década de 1970, a empresa diversificou sua atuação com modelos como o EMB-200 Ipanema (agrícola), o EMB-326 Xavante (militar) e o EMB-121 Xingu (executivo). Na década seguinte, conquistou mercados internacionais com o EMB-120 Brasília e o treinamento militar com o EMB-312 Tucano.
Já nos anos 1990, mesmo à beira da falência, a Embraer encontrou forças para se reestruturar após sua privatização, em 1994. O projeto ERJ-145 marcou essa nova fase, permitindo sua recuperação financeira.
A era moderna e o protagonismo global
Jatos comerciais e executivos
No início dos anos 2000, a Embraer ganhou ainda mais destaque com a família de E-Jets, voltada ao transporte regional. Os modelos variam de 70 a 120 assentos, segmento pouco explorado por Boeing e Airbus, o que garantiu à Embraer uma posição dominante.
Na aviação executiva, destacou-se com os jatos Legacy, Phenom e Praetor. E no setor de defesa, com o Super Tucano e, mais recentemente, o cargueiro militar C-390 Millennium.
Internacionalização
Nos anos 2010, a internacionalização se consolidou: fábricas e centros de montagem foram instalados nos Estados Unidos (Flórida), em Portugal e no México. Essa presença global contribuiu para o crescimento das vendas e para a competitividade da empresa.
Parceria frustrada com a Boeing
Em 2018, a Embraer firmou um acordo para criar uma joint venture com a Boeing, com 80% de controle para a empresa americana. No entanto, a parceria foi cancelada pela Boeing em 2020, em meio à crise provocada pela pandemia da covid-19.
A Embraer acusou a ex-parceira de má-fé, e um processo foi aberto. Em 2024, um acordo extrajudicial garantiu o pagamento de US$ 150 milhões pela Boeing à Embraer.
Efeitos econômicos das tarifas americanas

A aviação regional em xeque
Devido à cláusula sindical americana conhecida como scope clause, as companhias aéreas dos EUA precisam operar voos regionais com aeronaves que se encaixem em critérios de peso e capacidade. Os jatos da Embraer, especialmente da linha E1, atendem a esses critérios como nenhuma outra fabricante.
Com a aplicação da tarifa, o valor das aeronaves aumentaria significativamente. Isso poderia levar ao adiamento de pedidos, cancelamentos e mudanças nos planos de crescimento das companhias aéreas.
Redução de empregos e receitas
O CEO Francisco Gomes Neto não descartou a possibilidade de ajustes no quadro de funcionários e cortes nos investimentos. A depender da adesão das companhias aéreas à nova política tarifária, a Embraer poderia ver seu principal mercado se tornar inviável economicamente.
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O efeito boomerang: prejuízo para os EUA?
Segundo o economista Gustavo Cruz, da RB Investimentos, a medida de Trump também pode prejudicar as companhias americanas. O mercado global de aeronaves é restrito: Embraer, Boeing e Airbus são os três principais fornecedores.
Com filas de produção fechadas até 2030, nem Boeing nem Airbus teriam como substituir rapidamente os pedidos feitos à Embraer. Isso pode provocar um efeito reverso: tarifas que visam proteger a indústria americana podem, na prática, prejudicá-la.
Alternativas e resiliência
Montagem nos EUA e possíveis exceções
A Embraer conta com linhas de montagem na Flórida, o que pode amenizar o impacto de parte das tarifas. Ainda assim, muitas peças e componentes continuam sendo produzidos no Brasil e importados para o processo final.
Além disso, negociações diplomáticas entre os governos brasileiro e americano poderão buscar a exclusão dos aviões da Embraer da lista de produtos com tarifa extra.
Vendas internacionais seguem aquecidas
Apesar das incertezas nos Estados Unidos, a Embraer continua a fechar acordos internacionais. Recentemente, a Scandinavian Airlines (SAS) assinou contrato para adquirir 45 jatos E195-E2, com valor aproximado de US$ 4 bilhões. As entregas começarão em 2027.
Com uma cadeia produtiva altamente especializada e produtos consolidados, a empresa pode compensar eventuais perdas nos EUA com novos contratos na Europa, Ásia e América Latina.
O futuro da Embraer diante do protecionismo

A política de tarifas anunciada por Trump poderá ser decisiva para a Embraer nos próximos anos. Caso a medida entre em vigor sem exceções, será necessário rever estratégias, diversificar mercados e fortalecer sua presença onde as barreiras comerciais forem menores.
Por outro lado, o protagonismo da Embraer no setor de aviação regional e sua capacidade de entregar aeronaves que não encontram substitutos imediatos no mercado internacional lhe conferem um trunfo único: mesmo diante de obstáculos, ela continua sendo essencial.
Conclusão
A crise anunciada pode ser uma nova turbulência na trajetória da Embraer, que já enfrentou privatização, cancelamento de parcerias e pandemia. Mas a história mostra que a empresa é resiliente e tem know-how, tecnologia e presença global para enfrentar esse novo desafio.
Com apoio governamental e articulação internacional, ainda há tempo para reverter ou mitigar os efeitos da tarifa americana. Caso contrário, tanto o Brasil quanto os Estados Unidos sairão perdendo — um risco real em um setor onde poucos fabricam e muitos dependem.
